São 600 cavalos e uma velocidade superior a 300 Km/hora. Precisamos de uma carta especial para supercarros? "Não." Mas "um curso" é recomendável

CNN Portugal , MMC
16 ago 2025, 17:00
Pista AIA curva

Será necessária uma habilitação especial para manobrar 612 cavalos de potência? A recomendação de um curso de condução é o ponto de partida da viagem da CNN Portugal até ao Autódromo Internacional do Algarve para conduzir um automóvel que consegue ultrapassar uma velocidade de 300 quilómetros por hora

“Costumas enjoar”? Foi a primeira pergunta que o diretor do AIA Racing School colocou ao jornalista da CNN Portugal à entrada de um superdesportivo alemão de 612 cavalos, alimentados por um motor de quatro litros. A resposta foi “não”.

Estava, assim, prestes a iniciar-se a parte prática de um curso de condução “dinâmica”, depois de uma aula teórica que aborda conceitos relacionados com a distribuição de massa de um veículo em movimento, do comportamento do condutor associado à reação do carro e da relação entre conduta competitiva e conduta ativa dos condutores. 

O Autódromo Internacional do Algarve (AIA) oferece aos clientes do segmento desportivo de uma marca alemã vendida em Portugal um curso de condução, pela via do AIA Racing School, e a posição de Miguel Ferreira, o seu diretor, quanto a uma eventual obrigatoriedade de o fazer, é clara: “Não acredito, e o AIA também não, na obrigação da implementação deste tipo de cursos. Mas, não sendo obrigatório, a aplicabilidade de um curso de condução, seja ela defensiva ou ativa, é altamente recomendável que todos façam”. Isto porque “hoje é muito difícil tabelarmos o que é um desportivo, o que é um superdesportivo ou o que é um carro normal”, porque, atualmente, “qualquer carro chega com relativa facilidade aos 200 quilómetros por hora”.

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Portugal é o sexto país da União Europeia que mais acidentes rodoviários registou, envolvendo ferimentos e/ou mortes entre 1999 e 2023, segundo dados da PORDATA, e a cada mil pessoas acidentadas, 6,1 perderam a vida num acidente de viação em 2023. De acordo com a mesma fonte, ainda em 2023, registaram-se 36.595 acidentes, uma descida face aos 37.251 registados em 2019, mas que tem vindo a subir, ano após ano, desde 2020. 

Quanto às possíveis causas de muito destes acidentes, Bernardo Gonzalez, apresentador do programa GTI Plus, da CNN Portugal, diz que, entre carro e condutor, “o fator humano costuma ser sempre o elo mais fraco”. Nesse sentido, e falando especificamente sobre modelos automóveis de alta performance, acredita que poderia haver a “recomendação” de cursos de condução para “cidadãos que adquiram esse tipo de veículos”. “Não uma imposição, mas uma recomendação.”

O que nos leva de volta ao Autódromo Internacional do Algarve.

Na chegada ao complexo, ainda do lado de fora, ouvem-se os rugidos vindos da pista onde Lewis Hamilton, em 2020, se tornou o maior vencedor da história da Fórmula 1. E é já nesse palco que Miguel Ferreira abre as portas da AIA Racing School para iniciar a parte teórica do curso.

Entre os conceitos detalhados estavam, por exemplo, os da posição do condutor. “Mãos a 180º e não na posição de dez para as duas”, salienta Miguel Ferreira sublinhando que este conceito que se costumava passar aos condutores está ultrapassado. “Havendo alguma irregularidade na via, ter as mãos nessa posição [dez para as duas] não garante a maior estabilidade possível na direção do carro”, explica, acrescentando que “o corpo, a zona lombar e cervical, deve estar totalmente sustentado no banco, os joelhos devem estar a cerca de 120º, quando com o pé no travão, e os braços devem estar numa amplitude semelhante, sem que os cotovelos toquem no tronco”.

Depois de teorizados os conceitos base, o curso passa à prática numa espécie de heliporto com um aspersor ao centro. Um círculo de alcatrão onde se adquire a experiência prática de manobrar mais de 600 cavalos entre piões e derrapagens, continuamente durante cerca de meia hora, parte deles com o jornalista da CNN Portugal ao volante.

Minutos que bastaram para regressar à questão que Miguel Ferreira colocou no início. “ Costumas enjoar”? O “não” passou a “sim”. 

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Durante a experiência, o diretor da AIA Racing School foi repetindo que há situações que nem mesmo o condutor mais preparado consegue evitar. “Seja pelo desconhecimento da via, de um animal que pode saltar para a estrada, da velocidade com que circulamos face às condições da via, ou mesmo por outro utilizador da via, seja condutor ou peão, há momentos em que nos tornamos passageiros de uma determinada situação e dos seus contornos”, sublinha. Para este responsável é, por isso, essencial dar diretrizes aos condutores, “independentemente do carro que conduzem”, para que “não entrem em pânico”, para que as suas decisões ativas ou reativas possam diminuir quaisquer eventuais riscos de acidente.

Para colocar em prática esses conceitos, a segunda parte do curso passa por um minicircuito, onde o instrutor dá especial atenção à posição do corpo, das mãos, incluindo nas curvas, e para onde deve olhar o condutor. 

“Nada de ‘lavar pratos’ nas curvas”, pede Miguel Ferreira, referindo-se ao ato de fazer rodar o volante com a palma de uma só mão. “Para virar à esquerda, junta a mão esquerda à direita e leva-a, por cima, à sua posição inicial, sem mexer a mão direita. Se tiver de acentuar a viragem do volante, prossegue o movimento com a mão direita”, explica o mesmo responsável. 

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O exercício antecedia as ‘paredes de água’, um segmento do curso que consiste em testar o tempo e o tipo de reação do condutor quando confrontado por um obstáculo inesperado, sem o risco de danificar o carro.

Depois dos exercícios chegava a hora de circular nos 4,6 quilómetros que constituem o circuito principal do AIA. Apesar dos 14 metros de largura da pista, que dão a sensação de uma velocidade menor, as primeiras voltas com o jornalista da CNN Portugal ao volante do Mercedes GT 63S não deixam margens para dúvidas: a preocupação em controlar os enjoos ultrapassa largamente a preocupação que decorre da sensação de perigo. 

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Ao longo do dia, Miguel Ferreira relembrava que a pista do AIA era conhecida como ‘montanha-russa’. Uma pista composta por grandes subidas e descidas e que, por isso, não permite antecipar o que se segue nos metros seguintes, obrigando a que cada reação seja rápida e precisa.  

Com o diretor da AIA Racing School a copiloto, a tarefa tornou-se mais simples, mas a exigência do circuito não deixava de ser alta. E a ‘montanha-russa’ fez-se sentir logo no primeiro troço: a entrada na primeira curva foi feita em excesso de velocidade o que poderia ter custado uma saída da pista, não fosse a intervenção de Miguel Ferreira. “Trava. Trava. Com mais força, com mais força!”. “Curva à direita, diagonal pela esquerda”, “olha mais além”. Os conselhos do instrutor iam permitindo, mesmo a cerca de 270 km/h, que a tensão inicial se transformasse em entusiasmo. 

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Na derradeira volta ao circuito, novamente com Miguel Ferreira ao volante, também voltaram os enjoos ao copiloto, tal era a velocidade. O chiar da borracha ouvia-se mais alto e mais vezes, a sensação de velocidade tornou-se mais afiada e as curvas pareciam mais apertadas do que nas voltas anteriores. Todo e qualquer alcatrão da pista era necessário e, até à última fração de segundo, parecia sempre insuficiente.

“E agora? É preciso carta especial para conduzir supercarros?”, pergunta o diretor da AIA Racing School. Não foi preciso dar resposta, mas Miguel Ferreira e Bernardo Gonzalez reiteram que a maior atenção deve recair na conduta do condutor, independentemente do carro que guiam.

Mas porque é que todo este clima competitivo e, por consequência, de alta velocidade é útil para um condutor na via pública? Miguel Ferreira defende que esta é uma experiência que "leva o condutor ao limite das suas capacidades" e que, uma vez vivida a experiência, tendo em conta a exigência da mesma, o condutor olha para a condução de outra forma e aborda qualquer potencial problema na estrada de forma mais ativa, sem entrar "em pânico", mantendo "um contexto seguro e controlado".  

Quando parecia ter terminado a experiência, ainda havia espaço para algo mais. Já depois de arrumados os 600 cavalos e quando a circulação já era feita num carro ‘normal’, na Via do Infante, uma nova aula prática. Miguel Ferreira segue na via esquerda para uma ultrapassagem, mas antes de a conseguir concluir, um outro carro ‘normal’ salta para a via da esquerda. Só a destreza e a reação do ex-piloto de testes permitiram evitar um acidente, mesmo não havendo “nenhum supercarro” envolvido, salientou Miguel Ferreira visivelmente desagradado.

De acordo com o ACP, citado pela Lusa, o número de acidentes rodoviários em 2024 aumentou face ao ano anterior, para 38.037, registando 477 vítimas mortais (menos quatro que em 2023) , 2.756 feridos graves e 44.618 feridos ligeiros. Segundo a mesma fonte, 60,5% das “mais de 1,5 milhões de infrações” rodoviárias registadas nesse ano deveram-se à condução em excesso de velocidade, com as colisões a representarem 53,6% dos motivos de sinistro, à frente dos 33% de acidentes por despiste.

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