Sete meses depois, Bernardo Mota Veiga voltou a viajar até ao Algarve. Mas desta vez encontrou uma realidade diferente. E os combustíveis estão muito mais caros, por causa da guerra no Irão - mas a eletricidade contratada não: A viagem saiu-lhe muito mais barata do que num veículo a combustão
No dia 1 de Setembro de 2025 escrevi aqui um artigo sobre a minha viagem de carro elétrico para o Algarve. Conduzi-o com conforto, mas carregá-lo foi um suplício. Calhou que, esta segunda-feira, voltei ao Algarve, desta vez para apanhar um avião para Cork, na Irlanda. Não vou comentar o facto de não haver voos directos nem do Porto nem de Lisboa, nem o facto de eu evitar, sempre que posso, a azáfama do aeroporto de Lisboa. Mas asseguro que, nesta viagem, tive uma experiência bem diferente, em dois sentidos completamente distintos.
O primeiro tem a ver com a disponibilidade de carregamento. Recebi imensas críticas ao meu artigo anterior, sobretudo pela forma como planeei aquela primeira viagem. Alguns disseram que havia carregadores nos hotéis, outros que bastava fazer um pequeno desvio para encontrar supercarregadores, outros ainda que, se conduzisse mais devagar, não precisaria de carregar tantas vezes. Em suma, muitas sugestões e argumentos dos leitores foram no sentido que implicavam mudar completamente a minha forma de viajar.
Pois bem: não mudei nada na minha forma de viajar com o carro 100% eléctrico. Arranquei, estabeleci uma almofada de tempo de uma hora, e segui viagem. Note-se que, para apanhar um voo no aeroporto de Lisboa, uma almofada de uma hora pode não chegar para passar a Segunda Circular, e outra hora pode não chegar para passar o raio-x da segurança.
O que vi, portanto, nesta nova experiência, foi que muitas das áreas de serviço que apenas tinham um ou dois postos de carregamento foram entretanto reforçados. Hoje têm mais lugares disponíveis na mesma estação de serviço e, a juntar a isso, têm também potências de carregamento muito superiores, o que permite carregar de forma bastante mais rápida. A diferença é de facto evidente. O meu artigo de antes ficou obsoleto, e ainda bem!
A matemática dói na carteira
Mas onde a experiência se tornou realmente interessante foi no preço que pago agora para chegar ao Algarve. Cada vez que olhava para os painéis de preços da bomba seguinte, até me dava um arrepio na espinha cansada. Gasóleo a 2,22 €/l e gasolina um pouco abaixo, isto na autoestrada. Em suma, dificilmente hoje se consegue fazer uma viagem que custe menos de 20 euros por cada 100 km num carro a gasolina que consuma 10lts/100 km. Num carro equivalente ao meu, dificilmente custaria menos de 25 euros por cada 100 km.
Os cerca de 500 km que fiz na viagem custariam, no mínimo, 100 euros, e o regresso seria outra dose igual. Somando portagens, ir ao Algarve custará aos meus conterrâneos cerca de 250 euros ida e volta nos dias que correm, num carro a gasolina a velocidade regulada.
Ora, o meu carro , um SUV grande de sete lugares que é naturalmente pesado, tem uma bateria de 110 kWh e um consumo real de cerca de 18 kWh/100 km sem grandes aceleradelas. Carregar totalmente em casa custa hoje o mesmo que custava antes do início da guerra no Médio Oriente: cerca de 0,20 €/kWh no meu tarifário, que não alterou. Ou seja, 22 euros para carregar a bateria inteira e percorrer aproximadamente 500 km. Feitas as contas, faço hoje 500 km com o mesmo valor com que faria 100 km se andasse num carro semelhante a gasolina.
Claro que carregar em casa custa metade ou um terço do que custa carregar fora, mas mesmo pagando os kWh mais caros e carregando sempre em postos públicos, que hoje variam normalmente entre 0,40 e 0,60 €/kWh dependendo da rede e da potência disponível, gasto num carro elétrico entre cerca de 44 e 66 euros para fazer 500 km, consoante o preço aplicado. são cerca de 40% menos do que custa andar a gasolina.
E já sei que há quem diga que falta pensar no valor de retoma dos elétricos, que é uma preocupação legítima de quem compra. Mas convém olhar para o outro lado da equação. Se os preços dos combustíveis continuarem a subir, se os impostos sobre emissões forem agravados e se as restrições à circulação de carros a combustão aumentarem, como já acontece em várias cidades europeias, não serão os carros a gasolina a desvalorizar mais depressa? E, por contraste, não acabarão os elétricos por manter melhor valor precisamente por serem mais baratos de usar, mais baratos de manter e mais alinhados com o futuro regulatório? A desvalorização não é apenas uma questão tecnológica, é uma questão económica e política. E o mercado está a começar a percebê-lo.
Portugal está mais resiliente, e eu também
A eletrificação da economia está a trazer frutos evidentes a Portugal. Custou no início, mas neste momento somos mais resilientes a fatores externos que não controlamos. As poupanças que tenho feito por ter optado por um carro elétrico são claras, e a evolução da rede de carregamento transforma hoje um elétrico numa opção muito inteligente, mesmo para quem não consiga carregar em casa.
Não se sabe muito bem onde irão parar os preços da gasolina. É verdade que o preço do petróleo desceu nos últimos dias, mas também é verdade que já foram lançados alertas sobre os custos de refinação, que estão a subir devido à guerra. Em números redondos, no preço da gasolina que pagamos, metade é imposto e a refinação vale tanto quanto o petróleo utilizado. Ou seja, poderemos agora ter uma vaga de aumentos por causa da refinação, mesmo que o “ouro negro” estabilize.
Não posso fechar este artigo sem dizer que, apesar de tudo, custa mais um litro de água nas bombas de autoestrada do que um litro de gasolina. Portanto, quando nos queixamos dos aumentos, convém enquadrar e olhar para as nossas finanças como um todo, e não apenas para aquilo que faz mais barulho. Fica a pergunta: porque é que uma garrafa de água de litro e meio em self‑service custa 3 euros?
Estranha-se, e entranha-se
A minha mudança para o elétrico foi, admito, estranha no início. Parecia um salto para o desconhecido, cheio de dúvidas e de hábitos que tive de reaprender. Mas hoje, depois de ver a diferença no meu bolso, na minha rotina e até na forma como o país evoluiu, percebo que ganhei algo que não esperava: uma espécie de imunidade ao que acontece do outro lado do mundo. Quando há tensões no Médio Oriente, quando o petróleo dispara, quando a refinação encarece tudo se mantém no meu orçamento para as viagens.
É uma sensação rara, quase libertadora, num país tão dependente de energia importada. E por isso, olhando para trás, posso dizer com toda a honestidade que a mudança foi estranha, sim, mas já não me vejo a conduzir outra coisa. O futuro chegou mais depressa do que eu pensava. E parece que fui um dos que o apanhou a tempo.