Do Canadá à Nova Zelândia, valores como a transparência, a bondade e a empatia desafiam a toxicidade e as mentiras das redes sociais, da direita populista e das elites corruptas retratadas nos documentos do caso Epstein
Neste inverno temível, é preciso um espírito indomável e alguma sorte para não ser arrastado por depressões psíquicas ou climatéricas — são já cinco de uma tacada: Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta. Mas não só os elementos na atmosfera: a atualidade internacional é também indiscutivelmente depressiva.
Nos últimos dias, as dez primeiras notícias do ‘The New York Times’ têm sido, quase sempre, sobre dois velhos amigos: Donald Trump e JeUrey Epstein. Mesmo quando não falam diretamente deles, revelam consequências ou escândalos que as interações com eles provocam ou irão provocar. É um turbilhão de mentiras, perversões e lama mais ou menos tóxica e suportável, tristemente semelhante ao rasto negro e viscoso deixado pelas tempestades em Alcácer do Sal ou Cádis.
Nestas circunstâncias desesperantes, sobressaem umas poucas figuras inspiradoras que irradiam bom senso e mostram coragem e liderança — do Canadá à Nova Zelândia, passando pela vizinha Espanha. Mark Carney chegou ao poder há menos de um ano para enfrentar as ameaças do Leviatão trumpiano, que ameaçava fazer do Canadá “o 51.º estado” da União. Na última cimeira de Davos, proferiu um discurso memorável que mereceu uma ovação de pé por parte dos assistentes ao Fórum Económico Mundial.
No já célebre discurso, no qual citou um ensaio do dissidente checo Václav Havel, Carney proclamou a “rutura na ordem mundial” e o “início de uma realidade brutal, na qual as relações entre grandes potências se fazem sem quaisquer limites à sua atuação”. “Estamos a meio de uma rutura, não de uma transição”, insistiu. “As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estão à mesa, estão no menu”.
“Quando todo o mundo procurava na Europa uma voz para travar Donald Trump, foi um canadiano com aspeto de reformado satisfeito quem se insurgiu contra ele”, escreveu o ‘El País’, que publicou na íntegra o discurso, tal como o ‘Expresso’. Nele, o primeiro-ministro canadiano defende o “reforço da autonomia estratégica” das potências médias em “energia, alimentação, minerais críticos, finanças e cadeias de abastecimento”.
Num mundo sem as regras e a proteção proporcionadas pelos EUA desde 1945, Carney propõe estabelecer novos acordos comerciais (como estão a fazer o Canadá e a União Europeia) e investir muito mais em defesa. O Canadá é membro fundador da Coligação de Vontades de apoio à Ucrânia e foi o primeiro país do G7 a reconhecer a Palestina, no mesmo dia que Portugal (21 de setembro de 2025).
Sánchez contra os 'tecnoligarcas'
“Carney é brilhante, mas também é pragmático e possibilista. Embora tenha trabalhado como enviado especial da ONU para a Ação Climática [e Finanças], quando chegou a primeiro-ministro do Canadá retirou o imposto sobre as emissões”, recorda ainda o ‘El País’. Na última reunião de Davos, um dos grandes ausentes foi Pedro Sánchez, que teve de cancelar a viagem devido à crise ferroviária em Espanha — além do trágico acidente em Adamuz, houve outros menos graves, mas ainda assim capazes de afundar o que em tempos foi o orgulho do país vizinho: a segunda rede ferroviária mais rápida do mundo, a seguir à do Japão.
Entretanto, o primeiro-ministro espanhol recuperou o protagonismo perdido com duas medidas nos antípodas da distopia trumpiana: a regularização de meio milhão de pessoas e a proibição do acesso às redes sociais a menores de 16 anos. Sánchez apresentou cinco medidas para mitigar o impacto das redes na saúde mental dos menores e travar a expansão do ódio e da desinformação. Também quer promover uma lei para que os dirigentes das plataformas sejam legalmente responsáveis pelas infrações cometidas nas mesmas.
Na mira estão dois dos mais poderosos “amos do algoritmo”, nas palavras de Sánchez: o dono da rede social X, Elon Musk, e o dono da Telegram, Pável Dúrov. Musk não demorou a reagir, acusando o “sujo Sánchez” de ser um “tirano” e um “fascista totalitário”. O secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol não recuou: “A voz da democracia não vai ser vergada pelos ‘tecnoligarcas’ do algoritmo”.
A empatia de Ardern
Nos antípodas das ‘hiperlideranças’ masculinas, mas também geograficamente, situa-se a ex-líder do partido trabalhista e do Executivo da Nova Zelândia até 2023, Jacinda Ardern. Durante um sexénio, a que fora a chefe de governo mais jovem do mundo exerceu o poder com uma empatia e honestidade desarmantes, ao ponto de desatar uma ‘Jacindamania’ que colocou a Nova Zelândia, um país pequeno e pouco relevante no tabuleiro mundial, debaixo dos holofotes.
Ardern publicou no ano passado um livro que fala dessa passagem pelo poder, um período que deixou marcas na sua saúde mental — em parte porque não se sentia preparada para tantas responsabilidades e sacrifícios, mas também porque soube que estava grávida poucos dias antes de ser eleita primeira-ministra.
O relato da filha de mórmones que perdeu a fé, vestiu um véu islâmico em solidariedade com as vítimas do atentado contra uma mesquita em Christchurch (em 2019) e abandonou o poder chama-se ‘Um poder diferente’. Fala de assuntos pouco frequentes numas memórias políticas: maternidade, fragilidade, e a “síndrome da impostora” que sentia — uma das razões que a levaram a sair do Executivo. Numa decisão inédita, Ardern alegou não ter “energia suficiente” para continuar e manifestou o desejo de passar mais tempo com o parceiro e a filha.
Carney, Sánchez e Ardern estão longe de ser exemplares ou isentos de contradições, mas representam uma forma de estar na política radicalmente oposta à deriva iliberal encarnada por Trump, Viktor Orbán ou Javier Milei. Um estilo que oferece uma visão menos binária e populista do mundo, com valores como a bondade (Carney falou disso no dia em que ganhou as eleições), a tolerância (invocada por Sánchez face ao ódio propagado pelas redes sociais), ou a transparência (Ardern nas suas memórias).
Uma cidade brilhante numa colina
A defesa das bandeiras liberais estende-se, portanto, da humilde Nova Zelândia ao imenso e rico Canadá. Mas atravessa a Europa, e está a reorganizar-se internamente nos Estados Unidos graças ao trabalho incansável de figuras de proa como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez e Zoram Mamdani. A ala progressista do partido Democrata, reforçada pela vitória de Mandami em Nova Iorque, a paralisia dos democratas moderados e a abrupta queda na popularidade de Trump, lidera neste momento a luta contra os oligarcas e as elites corruptas nos EUA.
A promessa de acabar com as elites corruptas levou Trump ao poder, mas se alguém representa a impunidade das elites e das oligarquias é precisamente o 47.º inquilino da Casa Branca, que agora se vê arrastado pelas incontestáveis ligações a Epstein. A luta para descavalgar Trump vai ser a luta de uma vida para uma geração que enfrenta, pela primeira vez nos 250 anos de história da democracia mais antiga do mundo, um risco existencial para aquilo que Ronald Reagan chamou “uma cidade brilhante numa colina” — a expressão para descrever os Estados Unidos como uma nação excecional, um farol de liberdade, esperança e oportunidade.
Foi noutro discurso famoso, o da despedida de Reagan após oito anos na presidência. Corria o ano de 1989. Ainda havia um muro em Berlim e merceeiros, do lado comunista, que colocavam diariamente um cartaz na montra que dizia: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. Era um gesto em aparência inócuo, mas, segundo Havel, era uma das mentiras que ajudavam a sustentar o regime comunista.
A parábola dos merceeiros, evocada por Carney em Davos, pertence ao ensaio ‘O poder dos impotentes’, escrito em 1978. Quase meio século mais tarde, Carney sugere combater a mentira com a mesma receita do escritor checo: “O poder dos menos poderosos começa com a honestidade”, afirmou na Suíça.
A honestidade é uma das marcas do livro de Ardern, onde admite culpas e fragilidades. E brilha pela sua ausência nas mortes impunes de Renée Good e Alex Pretti em Minneapolis no mês passado, simplesmente por protestar contra Trump. As explicações de Kristi Noem, secretária de Segurança Nacional, sobre os assassínios perpetrados pelo ICE e a Guarda Fronteiriça, são pura desinformação, pós-verdades, factos alternativos. A honestidade está, por isso, no centro dos combates que vão marcar este século e os seguintes — das alterações climáticas aos riscos que a manipulação genética ou a inteligência artificial, sem a devida regulação e controlo, representam para a nossa espécie. A honestidade e a saúde mental: menos algoritmos e menos Prozac para combater oligarcas, tiranias e riscos existenciais em tempos de ‘Trumpepstein’.