Vamos deixar-nos de rodriguinhos: Carlos Moedas e Alexandra Leitão estão, como é normal em política, a gerir taticamente a tragédia do elevador da Glória com um — e só um — pensamento: as eleições autárquicas. Moedas está a tentar não as perder. Leitão está a tentar ganhá-las. Ambos sabem que uma tragédia destas pode virar o tabuleiro político. Quem gerir melhor este tema pode cantar vitória na noite do próximo dia 12 de outubro.
A minha posição é a mesma desde o início. Só haveria duas razões plausíveis para Carlos Moedas se demitir. Fazê-lo em consciência, numa tentativa de restaurar a confiança dos cidadãos. Ou fazê-lo em coerência com o que disse no passado sobre Fernando Medina. Moedas não optou por nenhum destes dois caminhos. Veremos que peso terá esta decisão nas próximas eleições.
Defendi — e defendo — que é precipitado pedir a demissão de Carlos Moedas. Por três motivos: primeiro, porque a demissão do presidente da Câmara não resolve rigorosamente nada; segundo, porque seria estúpido estar a demitir-se a um mês das eleições, altura em que os lisboetas poderão fazer o seu próprio julgamento; e, mais importante do que as duas razões anteriores, porque até ao momento ninguém pode afirmar que foram as decisões políticas de Carlos Moedas ou de qualquer elemento da sua equipa que estiveram na origem ou que contribuíram para este acidente.
O relatório preliminar do GPIAAF dá-nos três pistas importantes:
- Que o “cabo que unia as duas cabinas cedeu no seu ponto de fixação dentro do trambolho superior da cabina”;
- Que “o plano de manutenção previsto estava em dia e na manhã do dia do acidente havia sido realizada a inspeção visual programada” sem que tivesse sido detectada “qualquer anomalia no cabo e nos sistemas de frenagem dos veículos”. Acrescentado que “a zona onde o cabo se separou não é passível de visualização sem desmontagem”;
- Que o guarda-freio fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar a tragédia, mas nada foi suficiente porque “na configuração existente os freios não têm a capacidade suficiente para imobilizar as cabinas em movimento” a partir do momento em que o cabo se desprende de uma das cabines. Ou seja, não havia sistema de redundância que pudesse evitar o acidente.
Resumindo, o que aconteceu teria acontecido com qualquer presidente da Câmara.
Pode até vir a concluir-se o contrário, mais à frente, quando conhecermos as conclusões definitivas das investigações em curso. Mas, por enquanto, Carlos Moedas e o seu executivo estão a salvo.
Dizer que o Presidente da Câmara é o principal responsável político, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, é constatar o óbvio. Claro que é. Mas não é a sua demissão que lhe vai definir politicamente o futuro. É a forma como ele está a gerir politicamente esta tragédia. E, desse ponto de vista, Moedas não só tem sido o seu maior inimigo, como, em alguns casos, está a ser um desastre.
Nas primeiras 24 horas depois do acidente, Carlos Moedas tomou uma boa decisão — suspender a circulação dos restantes elevadores de Lisboa — e a seguir parece que correu para os abrigos. Primeiro, refugiou-se no Conselho de Ministros, ninguém sabe bem porquê. Depois, atirou o presidente da Carris aos leões sozinho. E no fim do dia, aninhou-se atrás do Presidente da República.
Nos três dias seguintes, até à entrevista que deu este domingo à SIC, Carlos Moedas deixou que as dúvidas, as angústias e as perguntas sobre a Carris e sobre a manutenção dos elevadores em Lisboa se fossem avolumando, não percebendo que era dele que o país esperava respostas. Mandou o vice-presidente, Anacoreta Correia, para a televisão fazer uma triste figura, deixou toda e qualquer iniciativa política para a oposição e até o Presidente da República falou antes dele. Resumindo: um desastre.
Aristóteles dizia que “a natureza tem horror ao vazio”. Alexandra Leitão adaptou, mais uma vez, esta frase à política. Com o seu melhor fato de estadista, a candidata do PS, que carrega o BE, o Livre e o PAN às costas na corrida à maior autarquia do país, foi à televisão dizer o que poucos esperariam ouvir: que não quer a demissão de Moedas, pelo menos para já. A estratégia de ataque estava em curso. Alexandra Leitão aparecia como moderada e ainda conseguia aliviar a pressão sobre o escrutínio aos últimos anos de gestão da Carris, onde se incluem vários executivos camarários do Partido Socialista, de António Costa a Fernando Medina.
Nem seria preciso combinar nada com ninguém. Dentro do PS — e à sua esquerda — não faltariam vozes a pedir a cabeça do presidente da Câmara. O resto do “trabalho sujo”, os haters de Moedas encarregar-se-iam de o fazer na comunicação social e nas redes sociais.
Por incapacidade, por estar mal aconselhado ou por ingenuidade, Moedas não percebeu o que estava a acontecer. Quando finalmente decidiu dar uma entrevista, quatro dias depois, explicou o que podia ser explicado, exigiu respostas para o que ainda falta explicar e a entrevista teria corrido bem se tivesse terminado por aí. Mas Moedas decidiu tornar-se ele próprio uma vítima desta tragédia, ensaiou uma fuga para frente em relação às suas incoerências, e, no fim, deixou que as entranhas lhe subissem à glote para atacar a sua principal adversária política com uma agressividade verbal inaudita. Alexandra Leitão deve ter assistido à entrevista com um sorriso nos lábios.
Perante uma tragédia desta dimensão, o que se espera de um líder político não é que vá lavar roupa suja para a televisão. Nem que esteja concentrado no ataque aos que o criticam, muito menos a Pedro Nuno Santos que já só se representa a si próprio. O que se espera de um presidente da Câmara nestas circunstâncias é que passe uma imagem de tranquilidade, de quem sabe o que está a fazer. Que tenha respostas para o que é possível responder e iniciativa política para evitar acidentes futuros. Se não o fizer, de nada adiantará a Moedas não se demitir. Os lisboetas acabarão por fazê-lo por ele.