CEO do BPI relembra quem se esqueceu de tomar "memofante" e diz que prefere "perder tempo em coisas úteis" em vez de ler o livro sobre Carlos Costa

Agência Lusa , DCT
16 nov, 16:01
João Pedro Oliveira e Costa, presidente executivo do Banco BPI (Lusa/Miguel A. Lopes)

O livro “O Governador”, publicado pela Dom Quixote, resulta de um conjunto de entrevistas do jornalista Luís Rosa a Carlos Costa, que liderou o Banco de Portugal entre 2010 e 2020, e tem provocado polémica. CEO do BPI não é o único a desvalorizar o livro

A banca portuguesa desvalorizou esta quarta-feira o polémico livro sobre o ex-governador Carlos Costa, com alguns dos responsáveis das instituições financeiras a afirmarem que não irão ler a obra e outros que o importante é qual a resistência a pressões.

A posição dos responsáveis de alguns dos principais bancos portuguesas foi transmitida esta quarta-feira durante um painel na conferência “A banca do futuro”, organizada pelo Jornal de Negócios, em Lisboa, quando questionados pela diretora daquele órgão, Diana Ramos.

Pedro Castro e Almeida, presidente executivo (CEO) do Santander Totta, banco que comprou uma parte do Banif – um dos temas que está a levantar polémica - garantiu que não irá ler o livro e considerou que o legado é o impacto deixado nos outros.

“Não tenho de ajustar contas com ninguém. O que esta aqui não é uma questão de bancos, é uma questão de política”, disse, acrescentando que, quando pedido a um grupo de pessoas de olhos vendados para descrever um elefante, as descrições serão todas distintas, para sustentar: “estamos a falar do mesmo animal, mas com visões completamente diferentes”.

Também João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, instituição igualmente referida na obra, afirmou não ter tempo para a ler: “não li o livro e não pretendo ler”.

“Não é nenhum desrespeito e tenho os olhos para a frente”, disse, recordando que já existiram comissões de inquérito e “pessoas que se esqueceram de tomar o memofante" (medicamento para a memória), pelo que defendeu que a principal preocupação é “olhar para a frente”.

O banqueiro justificou que gosta “de perder tempo em coisas úteis" e não lhe parece "ser útil”, acrescentando: “já passou e neste momento não estou a ver nenhuma consequência útil para ninguém. Desvalorizo, não vou perder um segundo com o tema”.

Na mesma linha, o CEO do BCP, Miguel Maya, que apontou ter lido apenas as passagens divulgadas pelos meios de comunicação social, defendeu: “a questão não é se há pressões, a questão é se somos independentes para resistir às pressões”.

“É normal haver entre pessoas diferentes opiniões diferentes. Eu sou dono das minhas palavras, dono dos meus silêncios, das minhas atuações, portanto, a responsabilidade é minha”, disse.

Também José João Guilherme, administrador executivo da Caixa Geral de Depósitos, desvalorizou o tema, considerando ser “a espuma dos dias”.

“É a agenda mediática. A banca portuguesa ao invés dos últimos 10 anos nunca esteve tão capitalizada, se tivermos recessão temos condições mais do que tivemos, temos liquidez e estamos a concorrer pelos melhores investimentos e empréstimos e depósitos. Estas questões laterais não me adiantam nada, não adiantam nada à banca”.

Já Mark Bourke, CEO do Novo Banco, afirmou também não ter lido o livro, considerando ser necessário "seguir em frente" e não recuperar o passado.

O livro “O Governador”, publicado pela Dom Quixote, resulta de um conjunto de entrevistas do jornalista do Observador Luís Rosa a Carlos Costa, que liderou o Banco de Portugal entre 2010 e 2020, e tem provocado polémica.

O primeiro-ministro, António Costa, já afirmou que irá processar o ex-governador do Banco de Portugal por ofensa à sua honra, depois de, no livro, o antecessor de Mário Centeno ter relatado que foi pressionado pelo chefe do Governo para não retirar Isabel dos Santos do BIC.

O ex-governador do Banco de Portugal Carlos Costa acusou esta terça-feira o primeiro-ministro de intromissão política junto do supervisor bancário no caso de Isabel dos Santos, argumentando que o confirma na mensagem escrita que lhe enviou.

“Esta semana, no mesmo dia em que anunciava um processo judicial, o senhor primeiro-ministro enviou-me uma mensagem escrita em que reconhece que me contactou para me transmitir a inoportunidade do afastamento da engenheira Isabel dos Santos. Ou seja, é o próprio primeiro-ministro a confirmar a tentativa de intromissão do poder político junto do Banco de Portugal”, disse o antecessor de Mário Centeno, numa intervenção na apresentação do livro.

Carlos Costa disse ainda confirmar que António Costa o “contactou por chamada” para o telemóvel no dia 12 de abril à tarde, depois de uma reunião que o antigo governador teve com Isabel dos Santos, com o sócio da empresária angolana Fernando Telles e com o diretor do departamento de supervisão Carlos Albuquerque.

Segundo Carlos Costa, “nessa chamada telefónica me comunicou que não se pode tratar mal a filha do presidente de um país amigo”.

António Costa reafirmou esta terça-feira que irá processar o antigo governador e insistiu que as declarações proferidas são “falsas” e, depois do mesmo não se ter “retratado, nem pedido publicamente as desculpas que eram devidas”, constituiu um advogado.

O antigo presidente do PSD Marques Mendes já veio defender que o Ministério Público deveria abrir um processo de investigação criminal à forma como foi vendido o Banif e pediu explicações públicas ao primeiro-ministro sobre o caso Isabel dos Santos.

Para o comentador político, que apresentou o livro, a revelação mais grave da obra prende-se com a resolução do Banif no final de 2015.

Com base no livro, Mendes referiu que, ao mesmo tempo que “havia em curso um processo de venda do Banif” de forma pública, “de forma confidencial o Governo informava Bruxelas por carta que o banco estava em processo de resolução”.

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