Exclusivo. Ex-governador acusa Costa de tratar "idoneidade como moeda de troca" em telefonema "muito curto, irritado e agreste" sobre Isabel dos Santos

19 nov, 00:01

Em entrevista exclusiva à CNN Portugal, Carlos Costa reafirma as acusações de pressões por parte de António Costa para não retirar Isabel dos Santos do BIC e critica a reação do primeiro-ministro: "É importante realçar que o telefonema podia ter tido lugar. O que não era necessário era disparar sobre o ex-governador por ele relatar que o telefonema teve lugar"

Um telefonema "muito curto", "irritado" e "agreste". O ex-governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, voltou a falar do telefonema "raro" que recebeu de António Costa cerca de duas horas após uma reunião que teve com Isabel dos Santos, em que o primeiro-ministro terá dito que "não admitia" que se "tratasse mal a filha de um país amigo de Portugal". 

"Raramente na minha vida recebi o telefonema tão agreste e não estava habituado. Isto fica na minha memória", afirma em exclusivo à CNN Portugal, naquela que foi a primeira entrevista após a publicação do polémico livro 'O Governador'.

E, para Carlos Costa, esse tom "significa o que significa": "Seguramente alguém foi dar parte ao primeiro-ministro" que a reunião (com Isabel dos Santos e Fernando Teles) "tinha sido bem agreste, na medida em que Isabel dos Santos não reconhecia o primado do Estado de Direito Português".

O ex-governador recorda que tinha explicado a Isabel dos Santos e Fernando Teles que, sendo acionistas do banco BIC, não reuniam condições para serem administradores. "E incentivei-os a procurar administradores independentes. Este é um facto", reitera. Algo que não terá caído bem a António Costa. "O telefonema do primeiro-ministro foi muito curto, mas muito irritado, achando que eu não podia tratar a senhora dessa forma. E as palavras foram estas: 'Não admito que se trate mal a filha do presidente de um país amigo de Portugal'".

Admitindo que não esperava que o livro se transformasse num facto político, Carlos Costa acredita que as atenções em torno da publicação foram causadas, sobretudo, pela revelação que fez sobre António Costa. E terá sido esse fator a motivar mais uma mensagem do primeiro-ministro a respeito desta matéria. "O que me surpreendeu mais foi uma mensagem que recebi de António Costa depois da publicação do livro", onde este "dá por natural que possa haver uma moeda de troca e a idoneidade e outras negociações que estavam em curso, respeitantes a uma outra instituição", revela o ex-governador.

"É importante realçar que o telefonema podia ter tido lugar, o que não era necessário é disparar sobre o ex-governador por ele relatar que o telefonema teve lugar", afirma, prosseguindo: "O telefonema ter lugar é uma circunstância que cabe ao próprio justificar. A minha atitude de não ouvir é própria de quem exerce a função. A minha memória desse telefonema permite caracterizar um período e umas circunstâncias em torno de determinadas pessoas que se moviam no sistema financeiro português".

"A idoneidade ou se tem, ou não se tem. E a idoneidade não é objeto de moeda de troca", aponta o antigo governador.

E nesse sentido Carlos Costa insistiu que "não vale a pena puxar as discussões que eram legítimas e em curso no BPI para argumentar que era necessário fazer cedências em matéria de idoneidade no BIC". Até porque o Banco de Portugal "tinha fundamentos para demonstrar que não havia condições para reconhecer a idoneidade à engenheira Isabel dos Santos. É pura e simplesmente isso que está em casa".

"Ficou claro que o Banco de Portugal exerce o seu dever de analisar a idoneidade dos gestores dos bancos, sem sujeitar esse poder a qualquer tipo de transação de outra natureza, porque não é uma matéria que seja objeto de moeda de troca", finalizou. 

Questionado sobre a carta de António Costa enviada para Jean-Claude Juncker, na altura presidente da Comissão Europeia, e para Mario Draghi, então presidente do Banco Central Europeu (BCE), em dezembro de 2015, Carlos Costa afirmou: “Seria bom que tivéssemos falado, que tivéssemos ponderado os termos da carta, sei que a carta fazia parte de uma outra luta política sobre a saída ‘limpa’ ou não [do programa de ajuda externa]”.

“O relacionamento entre as autoridades de supervisão europeias e o sistema bancário naturalmente ficou condicionado por esta ideia”, disse, acrescentando que a missiva “causou surpresa [entre as autoridades europeias] e surpresa é um termo diplomático para algo de mais importante”.

Ausência de figuras socialistas na apresentação “desequilibrou” a audiência

Quando questionado sobre as declarações de alguns dos responsáveis dos bancos portugueses esta semana de que não tencionam ler o livro “O Governador”, que resulta de um conjunto de entrevistas do jornalista Luís Rosa a Carlos Costa, e que tem provocado polémica, o antigo governador foi perentório: “Eu julgo que seria muito interessante que os banqueiros lessem o capítulo relativo à entrada da ‘troika’ e ao programa de estabilização do sistema financeiro. O Banco de Portugal evitou uma nacionalização do sistema bancário se tivéssemos seguido o modelo que estava a ser preconizado”, afirmou.

“Tenho a certeza de que os banqueiros deviam ler pelo menos esse capitulo para perceberem que estiveram à beira do precipício”, acrescentou.

Carlos Costa disse ainda “ter pena” pela ausência de figuras socialistas com as quais contava na apresentação do livro “O Governador” – no qual estiveram nomes da direita como Cavaco Silva e Ramalho Eanes, o antigo primeiro-ministro Passos Coelho e vários seus ex-ministros, assim como o presidente do PSD, Luís Montenegro, entre outros –, considerando que “desequilibrou” a audiência.

António Costa anunciou que irá processar o antigo governador, a quem acusou de ter escrito um livro com mentiras e deturpações a seu respeito e de ter montado uma operação política de ataque ao seu caráter, depois de este ter reafirmado que houve “tentativa de intromissão do poder político junto do Banco de Portugal”.

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