Caso Isabel dos Santos: Carlos Costa confirma pressões do primeiro-ministro e acusa-o de "tentativa de intromissão do poder político"

Cláudia Évora , com Lusa - notícia atualizada às 19:45
15 nov, 18:51

Ex-governador do Banco de Portugal afirmou esta terça-feira que António Costa lhe enviou uma mensagem escrita a reconhecer que foi inoportuno

O ex-governador do Banco de Portugal (BdP) confirmou, esta terça-feira durante a apresentação do livro "O Governador" do jornalista Luís Rosa, que o primeiro-ministro António Costa o contactou com o intuito de proteger a posição da empresário Isabel dos Santos no Banco BIC. 

"Como sabem, o senhor primeiro-ministro anunciou um recurso para os tribunais a propósito de uma chamada telefónica que fez para mim depois da reunião que eu tive conjuntamente com o diretor de supervisão, com a engenheira Isabel dos Santos, no dia 12 de abril de 2016. Um telefonema em que me comunicou que não se poderia tratar mal a filha de um presidente de um país amigo. A este propósito eu tenho a declarar o seguinte: um, confirmo que o senhor primeiro-ministro me contactou por chamada para o meu telemóvel, no dia 12 de abril à tarde, depois da reunião que eu tinha tido com a engenheira Isabel dos Santos e com o sôtor Fernando Teles, acionista do BIC; Segundo, confirmo que nessa chamada que foi telefónica me comunicou que não se pode tratar mal a filha de um presidente de um país amigo de Portugal", garantiu.

Mas Carlos Costa foi mais longe e afirmou que no mesmo dia em que António Costa anunciou que iria avançar com um processo judicial, enviou-lhe uma mensagem escrita a reconhecer que foi inoportuno.

Acrescento que esta semana, no mesmo dia em que anunciava um processo judicial, o senhor primeiro-ministro me enviou uma mensagem escrita em que reconhece que me contactou para transmitir a inoportunidade do afastamento da engenheira Isabel dos Santos. Ou seja, é o próprio primeiro-ministro a confirmar uma tentativa de intromissão do poder político junto do Banco de Portugal."

"A partir de agora cabe a cada um fazer os seus juízos", finalizou.

O livro "O Governador", publicado pela Dom Quixote, resulta de um conjunto de entrevistas do jornalista Luís Rosa a Carlos Costa, que liderou o Banco de Portugal entre 2010 e 2020, e tem causado polémica.

António Costa já afirmou que irá processar o ex-governador por ofensa à sua honra, depois de, no livro, o antecessor de Mário Centeno ter relatado que foi pressionado pelo chefe do Governo para não retirar Isabel dos Santos do BIC.

Durante a intervenção, Carlos Costa justificou a decisão de concretizar o livro com "contribuir para o reforço de respeito que merece a instituição do Banco de Portugal", no que diz ser uma "tarefa de interesse público".

Assim, o antigo governador considerou ser seu "dever contribuir para o escrutínio" dos dez anos em que liderou o Banco de Portugal, por ser uma prática de "prestação de contas e comum no norte da Europa" e contribuir para uma "compreensão do presente e dos condicionantes futuros".

O Banco de Portugal contou muito mais do que aparentemente se pensa, do que se olha para as notícias públicas na época", vincou, destacando o papel do supervisor na estabilidade económica e financeira do país.

Os ex-Presidentes da República Cavaco Silva e Ramalho Eanes, o antigo primeiro-ministro Passos Coelho e o presidente do PSD, Luís Montenegro, marcaram presença na apresentação do livro.

Também Teixeira dos Santos, antigo ministro das Finanças do Governo do PS chefiado por José Sócrates, e o antigo deputado socialista António Galamba estiveram na apresentação, numa sala completamente cheia e com muitas pessoas de pé.

Os antigos ministros do PSD Miguel Relvas, Paula Teixeira da Cruz, Aguiar-Branco, Miguel Cadilhe e do CDS-PP António Pires de Lima foram outras das personalidades presentes.

Da atual direção do PSD, além de Luís Montenegro, esteve também presente o líder parlamentar, Joaquim Miranda Sarmento.

A antiga procuradora-geral da República Joana Marques Vidal, o ex-banqueiro José Maria Ricciardi, a magistrada Maria José Morgado, o sociólogo António Barreto ou o antigo assessor político de Passos Coelho Miguel Morgado foram outras das presenças.

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