“Marquei um encontro com a vítima”. Patriarca de Lisboa quebra o silêncio e explica atuação em caso de denúncia de padre por abusos sexuais

29 jul, 13:54
Manuel Clemente

D. Manuel Clemente admite que se encontrou presencialmente com a vítima, que manteve o padre em questão em funções e não denunciou o caso às autoridades

O cardeal-patriarca de Lisboa admite que se encontrou com a vítima que denunciou um padre por abusos sexuais, mas que não comunicou o caso à polícia. O padre em causa saiu da paróquia onde estava, mas teve novas funções "numa capelania hospitalar".

“Atendendo aos muitos equívocos e perplexidades que tenho constatado em torno dos relatos sobre o doloroso caso denunciado em 1999, penso ser importante ajudar a esclarecer o que na verdade testemunhei”, começa por explicar Manuel Clemente, numa carta aberta enviada às redações esta sexta-feira, em que salienta que é o “cuidado e preocupação com as vítimas” que devem mover a sociedade neste assunto e lamentando todo o sofrimento que esta situação possa ter provocado.

Manuel Clemente diz que foi o seu antecessor que “acolheu e tratou o caso” e que este teve sempre em conta as recomendações canónicas da época, bem como o diálogo com a família da vítima. O cardeal-patriarca salienta, no entanto, que o sacerdote em questão foi “afastado da paróquia onde estava", mas "nomeado para servir numa capelania hospitalar”.

Quando assumiu o lugar de patriarca, Manuel Clemente explica que tentou marcar um encontro com a vítima e que esta optou por adiar essa reunião, até que, em 2019, fez um novo pedido que acabou por ser aceite e culminou numa conversa presencial.

O patriarca refere que a vítima teria como "preocupação não haver uma repetição do caso, sem desejar, de forma expressa, a sua divulgação”.

“Não entendi, como não entendo hoje, ter estado perante uma renovada denúncia da feita em 1999. Se assim tivesse sido, a mesma teria sido remetida à Comissão Diocesana, criada por essa altura, e teriam sido cumpridos todos os procedimentos recomendados à data. Recordo que as regras e recomendações de 16 de julho de 2020 são posteriores”, pode ler-se.

Quanto ao sacerdote em causa, Clemente explica que este foi acompanhado até hoje e, em todo esse período, não terá cometido qualquer crime ou "comportamento imoral" que motivasse outra denúncia. “Nunca ninguém comunicou, nem sob anonimato, qualquer acusação”, refere, acrescentando que “as medidas cautelares previstas para estes casos visam sobretudo a proteção de possíveis futuras vítimas, o que pode estar acautelado, em especial quando, passados anos, nunca mais houve denúncias nem indícios”.

Manuel Clemente reitera que, desde o primeiro momento, enquanto patriarca de Lisboa, deu “instruções para que a Tolerância Zero e a Transparência Total sejam regra conhecida de todos”. “Aceito que podemos e devemos fazer sempre melhor”, conclui.

O Cardeal-patriarca de Lisboa refere, por fim, que até agora que foram encaminhadas à Comissão Diocesana do Patriarcado de Lisboa, por si ou diretamente pelas vítimas, 3 denúncias. “A primeira foi acompanhada pela diocese de Vila Real, a segunda está neste momento a corresponder ao que o Dicastério para a Doutrina da Fé decidiu, após as recomendações que a nossa Comissão me deu. Mal tenhamos o desfecho sobre a mesma, será divulgado. A terceira e mais recente que envolve mensagens inapropriadas e enviadas por WhatsApp está também em apreciação pela Comissão, que já me fez recomendações a que dei imediato seguimento”, sintetiza D. Manuel Clemente.

O Patriarca esclarece assim o que “testemunhou” no caso do padre acusado de abuso denunciado em 1999 ao anterior patriarca, José Policarpo, e revelado esta semana pelo jornal Observador - que noticia que “duas décadas depois” o atual patriarca se encontrou com a vítima e “que não quis divulgar o caso”, pelo que não foi dado conhecimento às autoridades judiciais. Manuel Clemente diz aceitar que “este caso e outros do conhecimento público e que foram tratados no passado não correspondem aos padrões e recomendações que hoje” todos querem “ver implementados”.

“Que ninguém tenha medo de denunciar. Nas Comissões Diocesanas, na Comissão Independente, na PGR, na PJ, aos media, onde e junto de quem se sentirem mais seguros”, exorta ainda Manuel Clemente.

De acordo com a investigação do Observador, a atuação do patriarca “contraria (…) as atuais normas internas da Igreja Católica para este tipo de situações, que determinam a comunicação às autoridades civis de todos os casos”, adiantando que “os dados sobre este caso em concreto contam-se entre as mais de 300 denúncias já recebidas pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa — e o nome deste sacerdote é também um dos sete que já se encontram nas mãos da Polícia Judiciária para serem investigados”.

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