Em apenas três anos, os caranguejo-azul-do-Atlântico transformaram a pesca. As capturas anuais de amêijoas na lagoa de Scardovari, em Itália, diminuíram 93%
À medida que o sol nascia, duas pescadoras arrastavam o barco pela lagoa de Scardovari, no nordeste da Itália. Oscarina Soncin encontrava-se num dos maiores locais de apanha de amêijoas da Europa - com a água gelada a bater-lhe nos joelhos enquanto raspava o fundo do mar com um ancinho de metal. O movimento fez com que lama, areia e as famosas e deliciosas amêijoas de Manila da região fossem parar à sua rede. A sua colega de pesca, Giovanna Pizzo, separou as amêijoas dos detritos.
Durante mais de duas décadas, a dupla apanhou mais de 4 libras (1,8 quilos) de amêijoas todas as manhãs na lagoa do delta do rio Pó - contrariando a ideia de que as mulheres não eram adequadas para um trabalho tão exigente. O seu intento atraiu a atenção internacional, tendo servido de inspiração para um artigo da National Geographic em 2021. As duas desfrutavam de um rendimento estável e da sensação de liberdade na água.
Depois, em 2023, começaram a apanhar conchas partidas sem amêijoas dentro. Tinham de permanecer no mar durante mais tempo para atingir a sua quota, mas nem sempre conseguiam.
Tinha surgido um concorrente que se encontrava à espreita nas proximidades: o caranguejo-azul-do-Atlântico. O crustáceo - um marisco muito apreciado em Maryland, noutras regiões ao longo da costa leste dos EUA e no Golfo do México - tinha invadido o Delta do Pó, devorando aquele elemento cultural fundamental que outrora proporcionou o sustento a gerações de apanhadores de marisco.
As amêijoas de Manila fazem parte integrante da cozinha italiana, quer sejam salteadas com massa, quer sejam servidas cozidas a vapor. A Itália é o segundo maior produtor de amêijoas-de-Manila, a seguir à China - sendo que muitas lagoas do Delta do Pó estão no centro desta indústria no país.
No entanto, em apenas três anos, os caranguejos do Atlântico transformaram a pesca. As capturas anuais de amêijoas na lagoa de Scardovari, onde Soncin e Pizzo trabalhavam, diminuíram 93%.
Os cientistas afirmam que as águas do delta, naturalmente ricas em nutrientes, constituem um excelente “buffet” para os caranguejos e outras formas de vida marinha.
No entanto, o aquecimento global aumentou as temperaturas dos oceanos e deu origem a invernos mais amenos - o que permitiu que os caranguejos se multiplicassem rapidamente e se alimentassem das amêijoas.
“A minha experiência ensinou-me que tudo pode acontecer na natureza”, afirma Soncin. “O mar pode dar muito, mas também pode tirar tudo, e foi exatamente isso que me aconteceu.”
Tal como Soncin e Pizzo, mais de 600 pescadores - 40% dos membros do consórcio local - abandonaram o consórcio, segundo o grupo. Muitos devolveram as suas licenças e mudaram de carreira. Outros recusaram-se a abandonar a atividade e estão a tentar adaptar-se à enorme mudança ecológica.
Atualmente, este ambiente frágil enfrenta uma pressão crescente, à medida que as alterações climáticas alteram as temperaturas da água e as condições marinhas. Chiara Negrello
Os caranguejos toleram amplas variações de temperatura e salinidade e não têm predadores naturais no delta, o que lhes permite reproduzir-se rapidamente. Desde o surto, a espécie tem causado estragos na indústria da apanha de amêijoas. Chiara Negrello
O predador que encontrou o paraíso
Os caranguejos azuis proliferaram silenciosamente durante décadas nas lagoas do Delta do Pó. Ninguém conhece todos os fatores subjacentes ao recente aumento da população, embora os investigadores apontem para os recentes fenómenos meteorológicos extremos e para as alterações climáticas, talvez agravados por um aumento do tráfego marítimo nas últimas décadas.
O Delta do Pó é um refúgio para a vida marinha, explica Massimiliano Costa, diretor do Parque do Delta do Pó, que contribui para a conservação e gestão do ambiente local. Sendo o rio mais longo de Itália, o Pó fornece uma grande quantidade de nutrientes às lagoas - tanto de fontes naturais como de atividades humanas, como a agricultura -, o que proporciona um excedente de alimento para os animais marinhos, incluindo os caranguejos azuis. As marés que chegam do Mar Adriático reabastecem continuamente o oxigénio e trazem a água salgada de que as fêmeas necessitam para se reproduzirem. Os caranguejos também escavam o fundo do mar lamacento para se esconderem dos predadores e resistirem melhor às temperaturas do inverno.
“A introdução de ovos e larvas através do transporte marítimo provavelmente tem ocorrido de forma contínua ao longo de várias décadas”, refere Viviana Carli, técnica da equipa de campo do Parque do Delta do Pó. “O que parece ter mudado foram as condições ambientais, que se tornaram muito mais favoráveis para a espécie, permitindo que a população aumentasse drasticamente.”
Em 2022, a seca mais grave dos últimos dois séculos no norte de Itália permitiu que a água salgada do mar subisse o rio Pó, criando um ambiente favorável à reprodução das fêmeas do caranguejo-azul e ao desenvolvimento dos seus ovos, afirma Costa. No ano seguinte, as chuvas intensas e as inundações espalharam as larvas e os juvenis por todo o delta.
As condições climáticas gerais também evoluíram a favor dos caranguejos. Nas últimas décadas, as águas do Mediterrâneo aqueceram até atingirem temperaturas que permitem aos caranguejos-azuis reproduzirem-se com maior sucesso - por vezes, várias vezes ao longo de uma única época reprodutiva. Estudos revelam que os invernos mais quentes também prolongaram o seu período de reprodução e reduziram as mortes causadas pelo frio.
“Nunca imaginei… que o caranguejo-azul pudesse estabelecer-se no Delta do Pó, tendo em conta o nosso clima”, adianta Pizzo, que começou a apanhar amêijoas porque essa atividade lhe proporcionava bons rendimentos desde o início. “Isto faz-me pensar que as estações do ano já não são o que eram.”
Dado que uma fêmea de caranguejo-azul pode produzir milhões de ovos, uma explosão populacional nas lagoas pode ter sido inevitável neste novo ambiente. Independentemente da forma como foram introduzidos na região, os caranguejos azuis encontraram um paraíso nas lagoas do delta.
Uma batalha infrutífera
Entre 2022 e 2024, o número de capturas de caranguejo-azul aumentou 900% no Delta do Pó - passando de cerca de 200 toneladas para 2 000 toneladas -, de acordo com o Conselho Consultivo da Aquicultura.
“Destróem completamente as explorações de amêijoas. Comem todas as sementes, até mesmo as amêijoas-de-Manila maiores”, diz Mattias Gaglio, ecologista da Universidade de Ferrara. “Perturbam completamente a rede ecológica.”
Os dois locais mais afetados são as lagoas de Scardovari e Goro, que muitas vezes representam a maior parte da produção anual de amêijoas do país, aponta Gaglio. Na região de Goro, ele e os seus colegas demonstraram que a produção de amêijoas caiu para uma média de 4 000 toneladas em 2024 - uma queda de 70% em comparação com a década anterior.
A lagoa de Scardovari registou uma redução nas capturas anuais, que passaram de 4 800 toneladas para 340 toneladas desde 2023.
No entanto, os cientistas afirmam que será difícil, se não impossível, eliminar os caranguejos-azuis das lagoas italianas.
O governo italiano investiu pelo menos 10 milhões de euros para capturar e eliminar os caranguejos. Os fundos também apoiam a construção de cercas e redes mais resistentes para proteger as amêijoas-de-Manila.
As autoridades chegaram mesmo a incentivar o consumo dos caranguejos. Nos EUA, a carne doce deste crustáceo é considerada uma iguaria. No entanto, segundo vários investigadores, os italianos parecem relutantes em consumi-los, pois associam-no a prejuízos para a economia local. Além disso, limpar e cozinhar os caranguejos dá muito mais trabalho do que as amêijoas, que podem ser facilmente cozidas a vapor ou em água a ferver. Em Itália, o caranguejo-azul é utilizado principalmente na alimentação para animais de estimação e, ocasionalmente, servido em restaurantes.
“Quaisquer esforços envidados para controlar a população têm-se revelado, de certa forma, inúteis”, comta Giuseppe Castaldelli, professor de ecologia na Universidade de Ferrara. “Ainda assim, não sabemos o que fazer com o caranguejo.”
Como os caranguejos são abundantes, o preço no mercado local é baixo, o que dificulta a obtenção de lucro. No entanto, recentemente, uma empresa do Sri Lanka chamada Taprobane Seafoods estabeleceu uma parceria com os pescadores, através do consórcio local, para criar uma nova cadeia de abastecimento destinada às exportações globais. Os pescadores italianos capturam os caranguejos, enquanto a empresa contribui com os seus conhecimentos especializados no processamento e comercialização do produto nos mercados internacionais, incluindo os EUA. Alguns habitantes locais também trabalham na unidade de transformação.
“Em poucos meses, a espécie (do caranguejo-azul) passou de uma presença insignificante a uma grande ameaça”, revela Paolo Mancin, presidente do Consorzio Cooperative Pescatori del Polesine, que contribui para a gestão dos recursos e a conservação das lagoas. “A parceria tem como objetivo transformar uma espécie invasora que afetou gravemente a cultura de amêijoas numa nova oportunidade económica para os pescadores e trabalhadores locais.”
Mas nenhuma dessas táticas conseguiu conter totalmente os caranguejos invasores.
À procura de um futuro em águas desconhecidas
Antes do aumento da captura do caranguejo-azul, o dia de trabalho de Angela Franceschetti parecia acessível e rotineiro.
A Franceschetti faz parte do consórcio Scardovari, cujo número de membros baixou para 860, em comparação com os 1.470 que tinha antes do boom dos caranguejos azuis. O consórcio atribuiu-lhe uma quota para determinar a quantidade de amêijoas que ela precisava de pescar - juntamente com os horários de partida e de entrega do seu barco. Ela conseguia concluir as suas tarefas diárias num intervalo de trinta minutos a três horas.
Mas quando a pesca de amêijoas deixou de ser rentável para ela, em outubro de 2023, ela e o seu companheiro, Marco Finotti, alargaram as suas capturas para incluir o caranguejo-azul.
Agora, quando programa o despertador para o dia seguinte, Franceschetti, de 28 anos, tem de consultar os horários da maré alta e da maré baixa. Este trabalho de casa ajuda a determinar a melhor altura para visitar as suas 80 armadilhas para caranguejos. Ao contrário da apanha de amêijoas, a captura de caranguejos depende inteiramente das armadilhas, cuja verificação demora cerca de três a quatro horas. Ela vende o seu pescado ao consórcio, que entrega os caranguejos à Taprobane Seafoods. Angela Franceschetti, que faz parte de uma nova geração de pescadoras, continua a apanhar amêijoas, mas os caranguejos azuis tornaram-se gradualmente a sua principal fonte de rendimento.
Depois do almoço, ela e o Marco regressam à lagoa para trabalhar na sua exploração de amêijoas durante mais quatro ou cinco horas. Juntamente com outros membros da sua cooperativa, removem o excesso de algas com ancinhos, para que estas possam ser empurradas para o mar e não sufoquem as amêijoas. Eles limpam as redes e reforçam os postes antes da chegada das tempestades. Ao pôr-do-sol, apanham mais isco para as armadilhas de caranguejo ou cuidam das suas explorações de mexilhões ao largo da costa.
“Através do meu trabalho como pescador, percebi que as alterações climáticas não são apenas algo que afeta o ambiente; afetam também diretamente o meu sustento”, conta Franceschetti. “As alterações na temperatura, nos padrões meteorológicos e nas condições marítimas influenciam o funcionamento do ecossistema, e essas alterações têm, inevitavelmente, um impacto no trabalho daqueles que dele dependem diariamente.”
Para Soncin, adaptar-se aos caranguejos significou sair completamente da água.
Depois de se ter reformado da pesca de amêijoas em 2024, começou a fazer limpezas domésticas. O salário é semelhante, mas o trabalho não tem o mesmo significado que as décadas que ela passou na natureza. Pizzo também abandonou a pesca de amêijoas após 34 anos de atividade e agora trabalha numa fábrica de transformação de peixe, o que não tem nada a ver com estar no mar.
“O que mais sinto falta é… de trabalhar em estreita ligação com a natureza e de desfrutar da liberdade que o nosso trabalho na água nos proporcionava”, culmina Soncin.
