opinião
Empresário, músico, comentador.

Deram cabo da Classe Média e criaram uma nova "classe operária" que traz o trabalho para casa no bolso - enquanto tiver casa

18 abr 2025, 14:00
Homem sentado frente ao mar na Nazaré ao por do sol. Foto de 22 de janeiro de 2024. AP Photo/Armando França

OPINIÃO || O Centro pede aos Extremos que lhe emprestem “indignação”, a “indignação” vê se, com isso, chega ao Poder

Já não há Populistas

“Imprensa livre é aquela em que não há problema em concluir aquilo que nos é dado pelas evidências”
David Carr, Jornalista (E.U.A.,1956-2015)

 

É mais do que provável que a Europa tenha, a breve trecho, de trocar parte substancial do Estado Social que criou depois da II Grande Guerra, pela Paz. Escrevê-lo não é uma tomada de posição, nem um juízo de valor: é uma conclusão contabilisticamente lógica, acerca de um Continente que não só não percebe com quem está a competir em termos de custo do trabalho, como achou que poderia partir para um “endless summer” patrocinado pela mão-de-obra barata das potências emergentes e o “easy money” do Banco Central Europeu. Há uma expressão portuguesa que define bem este estado de coisas: “para inglês ver”.

A Europa não produz para o que gasta, e parece empenhada em enfiar a cabeça na areia acerca do perigo que é o sufoco fiscal de uma classe média farta de desequilíbrios entre o que paga e o que recebe do(s) Estado(s). Pior ainda, em permanente fervor mediático, ignora por completo que, para o cidadão comum, ideologias não pagam rendas. O risco de queda num surto irremediável de neo-liberalismo extremo ou de corporativismo excessivo (passo os pleonasmos), deveria ser a prioridade política absoluta; se a vitória do Sr. Trump só se explicará analisando os mais obscuros recantos da América profunda, a dimensão da mesma, essa, não tenho dúvidas, foi já uma reação extemporânea a tudo isto. E, no entanto, a Ucrânia é na Europa.

A tecnologia e a globalização – vendidas como o “carro a pilhas” que nos há de levar a Marte e mais além – deram cabo da Classe Média, criando uma nova “classe operária” que traz o trabalho para casa no bolso, em forma de “smartphone”; isto, enquanto tiver casa. Este é o Ocidente auto-desregulado: a pretensa sofisticação acelerada em que vivemos mais não é do isso mesmo - fachada quimérica em “O-LED 4K”, para esconder a absurda precariedade em que nos lançámos, à velocidade da fibra ótica.

Por cá, a campanha eleitoral decorre sem incidentes de maior: a pseudo-sofisticação dos média ofusca eficazmente o vazio das mensagens. O Centro vai pedindo aos Extremos que lhe emprestem “indignação”, a “indignação” vai vendo se, com isso, chega ao Poder. O país político-mediático, esse, tarda em debater questões de fundo que não são dos Partidos, mas do todo a que chamamos “Regime”: o pacto entre os cidadãos e o Estado, o equilíbrio entre impostos e serviços públicos, a Justiça como forma de regular os desmandos do Poder, o diagnóstico assertivo antes da propaganda fácil da “solução popular”.

Com a aferição da qualidade dos candidatos e seus programas morbidamente subordinada pelos média ao “carisma” e à “habilidade”, já não há populistas; o populismo é o Regime. Bem-vindo à Democracia do instantâneo para o Instagram, do Shopping a céu aberto em que estão transformadas as nossas cidades com o seu modelo de consumo “trendy” e salários baixos, da especulação imobiliária escondida à vista de todos. Chamo-lhe, com algum carinho, a Economia da Trotinete: tem tudo - até bateria – paga-se a crédito, entretém, mas não serve para grande coisa.

 

Foto no topo: Nazaré, 22 de janeiro de 2024, AP Photo/Armando França


 

Colunistas

Mais Colunistas