Este laboratório testa capacetes de forma intensiva, para descobrir quão seguros são realmente
Steve Rowson lembra-se do dia em que o questionaram, pela primeira vez, sobre capacetes. Na altura, era estudante de engenharia na Virginia Tech (VT), em Blacksburg, no estado norte-americano da Virgínia, quando ele e alguns colegas foram abordados pelo responsável pelo equipamento da equipa universitária de futebol americano da VT, que queria saber quais os capacetes mais seguros a comprar.
Steve Rowson e os colegas perceberam que esses dados não existiam. “Por isso, comprámos os capacetes disponíveis na altura, testámo-los todos e observámos diferenças enormes”, conta. “Dissemos à nossa equipa qual era o melhor, substituíram todos os capacetes e disponibilizámos esses dados a toda a gente. Foi assim que nasceram as classificações de capacetes”.
As primeiras classificações foram divulgadas em 2011. Avançando até aos dias de hoje, Steve Rowson é agora diretor do Helmet Lab da VT, supervisionando a próxima geração de estudantes que utiliza tecnologia para estudar e testar a eficácia dos capacetes comercialmente disponíveis nos Estados Unidos na proteção contra lesões na cabeça.
O laboratório expandiu-se muito para além do futebol americano, afirma o investigador, passando a incluir hóquei, equitação, desportos de neve, lacrosse, ciclismo e outros. Inclui também áreas fora do desporto, como a proteção da cabeça para trabalhadores da construção civil.
“A tecnologia é fundamental para aquilo que fazemos”, diz. “Se pensarmos no que começámos por fazer, não foi uma ideia original. Podemos recuar até à década de 1970 e encontrar sugestões de alguém a dizer: ‘bem, devíamos colocar sensores dentro dos capacetes dos jogadores de futebol americano para estudar os impactos na cabeça’. O problema era que a tecnologia não existia na altura. Era demasiado grande, volumosa e pouco precisa. Com o passar dos anos, a instrumentação tornou-se mais pequena, mais precisa, e chegámos a um ponto em que é prática de utilizar”.
No laboratório de Steve Rowson, “formas de cabeça” personalizadas e equipadas com capacetes são sujeitas a testes de impacto que incluem quedas ao solo ou golpes de braços mecânicos, enquanto sensores no interior do capacete medem movimentos lineares e rotacionais, ajudando a determinar a quantidade de força exercida sobre a cabeça. Os capacetes são classificados de uma a cinco estrelas, com base em fatores específicos de cada desporto ou atividade.
Essa informação é disponibilizada ao público através do site do laboratório. As certificações padrão de segurança de capacetes nos Estados Unidos funcionam numa lógica de aprovado/reprovado, pelo que o objetivo do sistema de classificação é fornecer uma análise mais detalhada: passou por pouco ou passou com distinção?
O laboratório obtém financiamento de várias formas. A investigação inicial sobre capacetes de bicicleta, por exemplo, foi financiada pelo Insurance Institute for Highway Safety. E o laboratório também presta serviços de investigação, desenvolvimento e testes a empresas fabricantes de capacetes. No entanto, garante que as suas classificações são independentes de todos os fabricantes.
Testes a capacetes de bicicleta para crianças
Uma das estudantes do laboratório de Steve Rowson é a doutoranda Caitlyn Jung. Quando começou, o foco estava nos capacetes de bicicleta para adultos, mas a sua investigação mais recente irá classificar capacetes de bicicleta para crianças e jovens.
“Vai começar por analisar a forma como as crianças batem com a cabeça, em termos de localização e velocidade”, explica a investigadora, algo que difere dos adultos. As crianças andam geralmente a uma velocidade mais baixa e estão mais próximas do chão do que um adulto. Pode parecer óbvio, mas os testes devem refletir essas circunstâncias, acrescenta, para “perceber quais são os capacetes que têm melhor desempenho nos cenários de impacto que têm maior probabilidade de ocorrer no mundo real”.
Para estudantes como Caitlyn Jung, este trabalho tem aplicações práticas, ajudando atletas, treinadores, responsáveis pelo equipamento e pais a tomar decisões mais informadas sobre a segurança da cabeça.
“O que mais espero é que os consumidores possam simplesmente ir e sentir-se confiantes na sua decisão ao escolherem o dispositivo de proteção da cabeça que querem utilizar, seja um capacete no futebol americano ou no ciclismo”, diz.
A conversa sobre as concussões
A discussão em torno das lesões na cabeça e das concussões no desporto tem estado em destaque nas últimas duas décadas, especialmente no futebol americano. Estudos mostram um número crescente de casos diagnosticados de encefalopatia traumática crónica (CTE, da sigla em inglês) em antigos jogadores.
Em 2023, o Centro de CTE da Universidade de Boston anunciou que quase 92% dos 376 antigos jogadores da National Football League (NFL) estudados apresentavam CTE.
Embora tenham sido introduzidas alterações às regras do desporto com foco na segurança, também surgiram diferentes soluções ao nível dos capacetes, como coberturas adicionais que se colocam sobre o capacete já usado pelo jogador. Desde que surgiram as primeiras classificações de capacetes, em 2011, Steve Rowson afirma ter observado um crescente interesse por parte de vários setores da indústria.
“É realmente interessante ver como as indústrias estão muito envolvidas no que fazemos”, afirma. “Estão interessadas, estão a ouvir e estamos a colaborar com elas”.
Em última análise, um capacete é “um produto de segurança e deve ser responsabilizado pelo grau de segurança que oferece”, acrescenta. “As pessoas preocupam-se, quando compram um capacete, com o nível de proteção que ele proporciona. Por isso, quando começámos a tornar essa informação pública, foi como uma lâmpada a acender-se para os fabricantes: ‘a segurança vende’… e temos visto isso em praticamente todas as áreas em que avaliámos capacetes”.