Candida auris: o que é preciso saber sobre este fungo - perigos, proteção, transmissão, fatores de risco, tratamento

13 jan, 11:00
Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge

Uma equipa de investigadores liderada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) estudou os primeiros casos confirmados em Portugal de infeção por ‘candida auris’, um fungo resistente a medicamentos considerado uma ameaça à saúde pública global

O que é 

De acordo com a CUF, o "candida auris" é uma espécie de fungo que está associado a múltiplos surtos, infeções graves e altas taxas de mortalidade em todo o mundo. Em causa está um fungo patogénico capaz de entrar na corrente sanguínea e de invadir todo o corpo. Este fungo foi identificado pela primeira vez em 2009, no Japão.

Porque pode ser perigoso?

A infeção por candida auris é invasiva e pode atingir o sangue, feridas, ouvidos e até órgãos vitais como o coração e o cérebro. Estima-se que entre 30% a 60% dos doentes afetados podem não sobreviver, sobretudo aqueles com outras doenças graves, sistema imunitário comprometido ou internamentos prolongados.

"Contudo, é importante ter em consideração que a maioria destas pessoas tinha outros problemas de saúde graves que aumentaram o seu risco de mortalidade. O facto de existirem já outras doenças pode também contribuir para que seja mais difícil diagnosticar esta infeção", adianta a CUF.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é complexo. Métodos laboratoriais comuns muitas vezes não conseguem identificar o candida auris, sendo necessário recorrer a técnicas específicas e a testes de sensibilidade para determinar os antifúngicos mais eficazes.

"Este fator dificulta um correto diagnóstico, o que, por sua vez, pode colocar em causa o correto tratamento do doente. Consequentemente, este fungo pode espalhar-se mais fácil e rapidamente. O diagnóstico de candida auris requer métodos laboratoriais específicos."

Como se transmite

O fungo transmite-se facilmente através do contacto direto com pessoas infetadas, mesmo assintomáticas, ou superfícies contaminadas, onde pode sobreviver semanas. Os principais fatores de risco incluem internamentos prolongados, cirurgias recentes, uso de cateteres e antibióticos de largo espectro, doenças crónicas como diabetes, ou imunidade comprometida.

Quais são os principais fatores de risco?

  • Doentes internados ou residentes em lares
  • Doentes polimedicados ou com cirurgia recente
  • Alterações do sistema imunitário (algumas situações de cancro ou diabetes)
  • Toma de antibióticos ou de antifúngicos de largo espectro
  • Presença de tubos ou cateteres, como, por exemplo, sondas de alimentação, algálias ou cateteres venosos centrais.

Como é feito o tratamento?

O tratamento recorre principalmente a equinocandinas, mas podem ser necessários vários antifúngicos em doses elevadas quando há resistência.

Como se evita a transmissão

Para prevenir a propagação, a higiene rigorosa das mãos, a desinfeção de superfícies hospitalares e o cuidado no uso de dispositivos médicos são essenciais. Em caso de suspeita de infeção, é fundamental procurar rapidamente assistência médica.

Países com casos

Espanha, Grécia, Itália, Roménia e Alemanha foram os países com a maioria dos casos ao longo da década, tendo sido registados “surtos recentes em Chipre, em França e na Alemanha, enquanto Grécia, Itália, Roménia e Espanha indicaram que já não conseguem distinguir surtos específicos devido à ampla disseminação regional ou nacional”.

E Portugal?

Uma equipa de investigadores liderada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) estudou os primeiros casos confirmados em Portugal de infeção por ‘Candida auris’, um fungo resistente a medicamentos considerado uma ameaça à saúde pública global.

Num comunicado enviado hoje à agência Lusa, a FMUP descreve que este estudo identifica os primeiros casos de ‘Candida auris’ no país, resultando em conclusões que reforçam a importância da vigilância hospitalar.

“É fundamental que as instituições dedicadas ao ensino e à investigação se articulem com os hospitais e ULS [Unidades Locais de Saúde], no sentido de uma investigação translacional integrada, de modo a reforçar a capacidade de resposta a desafios emergentes em saúde pública com base em evidência”, defende Sofia Costa de Oliveira, docente da FMUP que coordenou o estudo, cujos resultados foram publicados na revista científica Journal of Fungi em outubro de 2025.

Foram classificados oito casos identificados em 2023, num hospital da região Norte, lê-se no resumo partilhado com a Lusa, no qual é salvaguardado que “nenhuma das três mortes dos casos de infeção invasiva reportados esteve exclusivamente associada à infeção, mas sim a comorbilidades severas dos doentes”.

Sublinhando que “é importante perceber que este fungo é de propagação hospitalar e não comunitária”, a coordenadora refere que “a sua relevância em saúde pública está associada principalmente à facilidade de transmissão em unidades de cuidados de saúde e à resistência a alguns antifúngicos, o que justifica uma vigilância reforçada”.

“A deteção precoce de colonização ou infeção em doentes em risco permite uma intervenção mais eficaz e limita a propagação nos serviços de saúde. As medidas de controlo de infeção, como a higiene rigorosa das mãos, a desinfeção de superfícies e equipamentos e a vigilância laboratorial, são cruciais para reduzir a transmissão”, conclui.

A ‘Candida auris’ é uma levedura que pode colonizar a pele e causar infeções invasivas em doentes com fatores de risco, como doenças graves, tratamentos invasivos e uso de antibióticos e imunossupressores. Considerada uma ameaça à saúde pública global, está disseminada em vários continentes, atingindo cerca de 60 países.

O microrganismo não é transmitido pelo ar, mas sim por contacto entre doentes, entre profissionais de saúde, ou com superfícies e equipamentos contaminados.

Esta espécie distingue-se pela resistência a múltiplos fármacos antifúngicos e pela capacidade de persistir em superfícies e equipamentos, o que pode facilitar a transmissão em unidades de cuidados de saúde.

"A caracterização dos mecanismos envolvidos na resistência à terapêutica antifúngica é fundamental para investigar alternativas farmacológicas mais eficazes. O próximo passo será explorar o impacto real das novas mutações detetadas na progressão da infeção e na resistência antimicrobiana da ‘Candida auris’, de forma a tentar controlar esta ameaça global para a saúde”, defende a professora.

O artigo resultou de um trabalho de investigação que também juntou Isabel Miranda, da FMUP e RISE-Health, Dolores Pinheiro, José Artur Paiva e João Tiago Guimarães, da FMUP e da ULS São João, Micael Gonçalves, do CESAM, e Sandra Hilário, da FCUP.

Em setembro do ano passado, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) alertou para a rápida propagação nos hospitais deste fungo resistente a medicamentos e pediu medidas para travar a sua disseminação.

Em comunicado, o ECDC indicou que, entre 2013 e 2023, foram registados mais de 4.000 casos nos países da UE/EEE (inclui a Islândia, o Liechtenstein e a Noruega), destacando “um salto significativo” em 2023, ano em que foram divulgados 1.346 casos em 18 países.

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