Ano após ano, as estatísticas do cancro permitem-nos confirmar que este se mantém como uma das maiores ameaças à saúde global. Investigadores, cientistas e especialistas, unidos no propósito de perceber quais as tendências e projeções para o futuro nesta matéria, publicaram recentemente um artigo na prestigiada revista The Lancet, que confirma que o peso desta doença não só permanece elevado, como tende a agravar-se nas próximas décadas. O que, por sua vez, alimenta a certeza de que a investigação nesta área não pode ser uma prioridade apenas no presente, mas uma aposta contínua e essencial para o futuro.
Os dados usados, que tiveram por base informação sobre 47 tipos e grupos de cancro em 204 países e territórios, entre 1990 e 2023, ajudam a estimar indicadores como a incidência da doença, mortalidade, anos de vida perdidos, anos vividos com incapacidade, etc. E mostram que, até 2050, se prevê que o número de diagnósticos por cancro aumente substancialmente (60,7%), assim como o de óbitos (74,5%), ou seja, 30,5 milhões de novos diagnósticos de cancro e 18,6 milhões de óbitos até 2050. Contas que traduzem um cenário que, mais do que preocupante, exige ação.
Para alterar estas previsões, é preciso melhorar diagnósticos e tratamentos. Isso faz-se com investigação sustentada e inovadora, algo que tem sido impulsionado de forma determinante pela indústria farmacêutica, reconhecida como um dos setores com maior intensidade em Investigação & Desenvolvimento (I&D).
Em 2023, um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) confirmava que a indústria farmacêutica financia a I&D em todas as fases do processo, com um investimento de 129 mil milhões de dólares em 2021. O documento sublinha ainda que este setor “é mais intensivo em I&D do que outras indústrias similares”: entre os países da OCDE, investe mais de 30% do seu valor acrescentado bruto em I&D, um aumento face aos 13,3% registados em 2018.
Outros relatórios, como os da consultora IQVIA, confirmam este investimento e a aposta na área da oncologia, com novos medicamentos direcionados e mecanismos de ação inovadores para o tratamento deste tipo de doenças. Só em 2023, foram lançadas, a nível global, 25 novas substâncias ativas oncológicas, o que contribui para um total de 192 na última década. Muitas destas novidades representam avanços sem precedentes: imunoterapias que reprogramam o sistema imunitário no combate aos tumores e tratamentos genéticos que oferecem esperança a doentes com cancros antes considerados impossíveis de tratar, por exemplo.
A investigação não para. Não pode parar. Os novos tratamentos em oncologia estão a tornar-se cada vez mais direcionados, confirmando a aposta na medicina de precisão. Os biomarcadores e os testes de diagnóstico molecular estão a revolucionar a forma como identificamos e tratamos o cancro, permitindo intervenções mais precoces e eficazes.
Os avanços na ciência e na tecnologia abrem portas a inúmeras possibilidades, deixando antever uma evolução promissora. Falo aqui da inteligência artificial, do uso de grandes modelos de linguagem e das técnicas analíticas que estão a mudar por completo não só a forma como são descobertos novos medicamentos, mas a própria investigação.
Sabemos que a investigação e desenvolvimento na oncologia representa uma das áreas mais complexas e com mais desafios para ultrapassar, sendo ainda uma das que mais tempo consome e que maior risco representa ao nível da investigação. Mas este conhecimento não diminui a determinação em fazer mais ou impede a aposta nesta área, que sabemos ser fundamental.
Temos reforçado o nosso compromisso com a inovação em oncologia ao trazer para o país ensaios clínicos em áreas particularmente desafiantes, como são o cancro ginecológico, cólon rectal, pulmão, cabeça e pescoço. Esta abordagem tem permitido incrementar o acesso dos doentes portugueses a tecnologias de saúde inovadoras e contribuir para o avanço da investigação científica em Portugal, fortalecendo o ecossistema de saúde e respondendo a necessidades médicas ainda não satisfeitas.
O futuro da luta contra o cancro, que as previsões apontam ser muito desafiante, depende da capacidade de manter e ampliar este investimento em investigação. Do nosso lado, estaremos cá para responder, como até agora e como sempre.