O cancro do ovário não é o cancro ginecológico mais comum. Mas ainda que a sua incidência seja menor do que a de outros tumores, apresenta as taxas de mortalidade mais elevadas entre todos os cancros ginecológicos (1), o que, amplificado pela frequência do diagnóstico em estádios avançados, deveria torná-lo uma área de intervenção urgente e prioritária. No entanto, a realidade é outra.
A linguagem dos números ajuda a perceber do que estamos a falar: 324.603 mulheres em todo o mundo foram diagnosticadas com cancro do ovário em 2022, ano em que 206.956 perderam a vida (2), sendo a Europa o continente que registou as taxas de incidência e mortalidade mais elevadas globalmente (3). Mas mesmo quando os números contam histórias de sobrevivência, a incerteza persiste, uma vez que pouco menos de 40% dessas mulheres permanecem vivas cinco anos após o diagnóstico (4).
O cenário é preocupante e as projeções indicam que se vai agravar. Os dados partilhados pela Coligação Mundial de Cancro de Ovário estimam, para 2050, um aumento da incidência anual para quase meio milhão de casos (+55%), uma subida que, na Europa, se traduzirá em 8,8% mais diagnósticos e 19,2% mais mortes. Até lá, pouco menos de 12 milhões de mulheres serão diagnosticadas com cancro do ovário e um total de oito milhões morrerão na sequência da doença (5). São números que exigem uma resposta que ainda não existe.
Sabemos que a taxa de sobrevivência deste tipo de cancro é fortemente influenciada pelo estádio em que é detetado. Quanto mais tarde for feito o diagnóstico, piores serão os resultados. E é precisamente isso que acontece com o cancro do ovário, em que os atrasos são frequentes, como resultado da inespecificidade dos sintomas, frequentemente confundidos com os de outros problemas, em particular gastrointestinais (inchaço abdominal, dor pélvica, necessidade urgente de urinar ou necessidade de urinar com maior frequência, indigestão, obstipação ou diarreia, dor nas costas, cansaço constante, entre outros). Esta demora tem um custo elevado: cerca de 75% das mulheres recebem o diagnóstico em fases avançadas (6-9), quando o tratamento é mais difícil e as hipóteses de cura, menores.
Neste contexto, torna-se essencial que as mulheres estejam atentas aos sinais e sintomas da doença, bem como aos fatores de risco e à sua história familiar. É igualmente fundamental que os cuidados de saúde primários, e os médicos de família em particular, coloquem o cancro do ovário no horizonte das possibilidades quando confrontados com as queixas descritas. A suspeita precoce faz toda a diferença.
É também urgente que se repense a jornada da doença. A ausência de centros de referência para os cancros ginecológicos em Portugal, ou de hospitais a trabalhar em rede, faz com que nem sempre as mulheres com este diagnóstico sejam tratadas por equipas especializadas e com experiência real nestes casos, e isso reflete-se nos resultados. Há evidências crescentes e inequívocas: os resultados melhoram quando o tratamento é realizado por equipas multidisciplinares, que combinam conhecimento cirúrgico e clínico numa abordagem integrada.
Queremos que o atendimento seja de alta qualidade, que não se esgote no acesso aos tratamentos mais avançados, mas que inclua profissionais qualificados, reabilitação abrangente e acompanhamento a longo prazo. Porque o fim dos tratamentos está longe de ser o capítulo final: a elevada taxa de recidivas exige que o sistema continue presente, atento e preparado para agir.
Defendo, por isso, a necessidade de investir na literacia em saúde para todos, mulheres, profissionais de saúde e responsáveis políticos, e mudar a realidade deste tipo de cancro, que mata mais do que devia. Mata porque o diagnóstico chega tarde, porque nem sempre é tratado onde e por quem devia, e porque as respostas do sistema ficam aquém do que a ciência já permite. Torna-se urgente olhar para estes números não como estatísticas, mas como o que são verdadeiramente: vidas que se podem salvar.
Referências:
- Mourits, M.J. ∙ de Bock, G.H. European/U.S. Comparison and contrasts in ovarian cancer screening and prevention in a high-risk population Am Soc Clin Oncol Educ Book. 2017; 124-127
- https://gco.iarc.who.int/media/globocan/factsheets/cancers/25-ovary-fact-sheet.pdf
- Sung H, Ferlay J, Siegel RL, Laversanne M, Soerjomataram I, Jemal A, et al. Global cancer statistics 2020: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. CA Cancer J Clin. 2021 May;71(3):209–49
- Wojtyła C, Bertuccio P, Giermaziak W, Santucci C, Odone A, Ciebiera M, et al. European trends in ovarian cancer mortality, 1990–2020 and predictions to 2025. Eur J Cancer [Internet]. 2023 Nov 1 [cited 2023 Nov 27];194. Available from: https://www.ejcancer.com/article/S0959-8049(23)00652-4/ fulltext
- https://worldovariancancercoalition.org/wp-content/uploads/2024/04/2024-Global-Priority.pdf
- Ferlay J; Ervik M; Lam F; Laversanne M; Colombet M; Mery L; Piñeros M; Znaor A; Soerjomataram I; Bray F. Global Cancer Observatory: Cancer Today 2022 [OVARY]. 2024.
- Tran C, Diaz-Ayllon H, Abulez D, Chinta S, Williams-Brown MY, Desravines N. Gynecologic Cancer Screening and Prevention: State of the Science and Practice. Curr Treat Options Oncol. 2025;26:167–78. https://doi.org/10.1007/s11864-025-01301-z.
- Mercado KE, Badiner NM, Wang C, Denham L, Unternaehrer JJ, Hong LJ, et al. Racial and Ethnic Disparities in Gynecologic Carcinosarcoma: A Single-Institution Experience. Cancers (Basel). 2023;15:4690. https://doi.org/10.3390/cancers15194690.
- Ghirardi V, Fagotti A, Ansaloni L, Valle M, Roviello F, Sorrentino L, et al. Diagnostic and Therapeutic Pathway of Advanced Ovarian Cancer with Peritoneal Metastases. Cancers (Basel). 2023;15:407. https://doi.org/10.3390/cancers15020407.
