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Hematologista ULS São José Membro da Direcção do Grupo Português de Leucemias Agudas

Leucemia Mielóide Aguda: quando o tempo é o fator decisivo

21 abr, 10:00

A Leucemia Mielóide Aguda (LMA) é uma doença oncológica rara, mas extremamente agressiva. Em poucas semanas, mesmo pessoas previamente saudáveis podem sofrer uma mudança radical no seu estado geral, que exige tratamentos intensivos e prolongados.

Em Portugal, estima-se que surjam entre 300 a 400 novos casos por ano. Mas a verdade é que ninguém sabe precisar o número real. O Registo Oncológico Nacional (RON) nem sempre se encontra atualizado e subestima os casos nacionais. E este desconhecimento é, por si só, um problema. Porque sem números rigorosos, perde-se também a capacidade de exigir recursos, de pressionar decisores e de justificar investimentos.

Ao contrário do que acontece com outras doenças oncológicas, na LMA o maior problema não reside no diagnóstico. Os sinais e sintomas são pouco específicos, mas claros: a diminuição dos glóbulos vermelhos provoca anemia, com fadiga, fraqueza, tonturas e palidez; a diminuição das plaquetas pode causar hematomas e hemorragias; e a falta de glóbulos brancos aumenta o risco de infeções e febre, muitas vezes o motivo que leva o doente a recorrer à urgência. E, pela sua agressividade, esta doença diagnostica-se rapidamente. As alterações laboratoriais são altamente sugestivas para qualquer clínico, a referenciação a um serviço de hematologia é feita com caráter urgente e, em pouco tempo, os hematologistas, com o apoio da Patologia Clínica, confirmam o diagnóstico. Habitualmente, o tratamento é iniciado em tempo útil. E aqui, o sistema tende a funcionar.

Mas é depois deste ponto que começam as fragilidades.

Para os doentes com indicação para transplante alogénico de medula óssea, Portugal continua a não garantir uma resposta atempada. Não por défice técnico-científico, mas por limitações logísticas, escassez de vagas e falta de recursos humanos.

Falamos de doentes para quem este transplante é, frequentemente, o único caminho potencialmente curativo. E é um caminho exigente, que depende de uma coordenação quase perfeita: um dador compatível, uma equipa altamente especializada, um doente em remissão e uma cama disponível no momento certo.

A capacidade limitada dos centros de transplantação - que competem com outros procedimentos igualmente complexos e necessários - faz com que muitos doentes permaneçam em longas listas de espera. Durante esse tempo, continuam tratamentos destinados a atrasar a recaída. Mas, enquanto esperam, alguns recaem. E, na LMA, uma recaída muda o cenário por completo: a doença torna-se mais resistente, as opções terapêuticas reduzem-se e a janela de oportunidade de cura estreita-se, podendo mesmo fechar-se definitivamente.

A jornada de um doente com LMA é extraordinariamente difícil, mesmo quando tudo corre bem. É uma verdadeira maratona, que implica uma mudança profunda na sua vida e de quem o acompanha. São meses de internamento, ciclos de imunossupressão intensa, deslocações frequentes ao hospital,  muitas vezes percorrendo longas distâncias, em ambulâncias partilhadas, a horas difíceis.

Para muitos, o tratamento significa meses fora do mercado de trabalho, custos com medicação de suporte suportados do próprio bolso e uma dependência do apoio familiar que nem todos têm. É um peso significativo, com impacto profundo e muitas vezes invisível aos olhos da sociedade.

Neste contexto, apesar de existirem algumas respostas e exemplos de excelência nas associações de doentes, a proteção social permanece manifestamente insuficiente.

Perante tudo isto, a discussão sobre a LMA não pode limitar-se ao acesso às novas terapêuticas. A inovação farmacológica tem sido notável e continuará a ser essencial. Modificou e modifica prognósticos. Mas numa doença em que o tempo é determinante, um sistema que não garante resposta atempada compromete, à partida, o potencial desses mesmos avanços.

Investir em estrutura - mais camas, mais profissionais, melhor articulação entre centros e uma resposta social mais robusta - não é apenas uma necessidade organizativa. É uma decisão clínica, com impacto direto na sobrevivência dos doentes. Porque cada atraso pode traduzir-se numa recaída evitável, e cada recaída implica tratamentos mais complexos, mais prolongados e significativamente mais dispendiosos.

Num cenário de recursos limitados, esta é também uma questão de racionalidade: tratar melhor, no momento certo, pode significar tratar menos vezes e com melhores resultados.

A LMA é, de facto, uma doença muito grave. Mas é também uma área onde, sobretudo na última década, se assistiu a uma evolução notável em termos terapêuticos e de possibilidades de cura. Garantir que esses avanços chegam aos doentes no tempo certo é, hoje, um dos maiores desafios e talvez a decisão mais importante que o sistema de saúde pode tomar.

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