Virgínia López relata a batalha contra o cancro. "Nunca sabemos se este será o nosso último Natal, estejamos saudáveis ou doentes"

25 dez 2024, 22:00
Virgínia López

Num livro autobiográfico, mas com o qual qualquer mulher se pode identificar, a jornalista e escritora Virgínia López leva-nos numa “viagem” alucinante da luta contra o cancro da mama. Um relato emocionante, sem filtros, mas carregado de “otimismo” e “esperança”, que, diz, pretende ser “uma ode à vida”

Foi numa manhã de inverno que, aos 43 anos, a escritora e jornalista Virgínia López descobriu um caroço na mama esquerda. A partir desse momento, a sua vida e a vida da sua família mudaram para sempre. Diz, aliás, que o cancro não foi só seu, mas o “terramoto silencioso” que lhe abalou os dias, foi de todos os que a rodeiam.

Numa “viagem” que a obrigou a lidar com o medo, a controlar a ansiedade e a aceitar as cicatrizes, tanto físicas como emocionais, Virgínia López faz um retrato “nu e cru” de “dias de merda”, mas também de dias de “esperança” e de “superação”.

Diz que hesitou em colocar em livro a sua história. Porquê essa hesitação e porque decidiu, afinal, escrevê-la?

Fui escrevendo algumas reflexões, emoções, pensamentos, em modo diário. Mas comecei a receber muitas mensagens de outras mulheres que tinham passado ou estavam a passar por um cancro e percebi que, mesmo que fosse só a minha história, podia ser uma história com a qual se identificassem outras pessoas. Por isso, decidi contá-la. Não da perspetiva do ‘drama’ ou da vítima, mas sim com um tom de esperança, uma ode à vida.

Mais do que procurar um final feliz, decidi contar uma história feliz, apesar da dureza das circunstâncias. E decidi fazê-lo no tempo presente, para que quem a lê sinta que está a fazer a ‘viagem’ comigo. Algumas leitoras referiram que conseguem ver-me, ouvir-me e era isso o que pretendia, pelo que estou muito feliz com o resultado. “De Peito Aberto à Vida” é um relato autobiográfico, mas pode ser lido como se fosse um romance.

Como é que o cancro a transformou? O que é que mudou em si e na sua vida?

Uma das frases que me disseram foi: o cancro pode ser uma segunda oportunidade para fazer as coisas de forma diferente. Então, pensei: ‘já que não posso mudar o facto de ter cancro, posso mudar o que posso fazer daqui para a frente’. Agora cuido mais o que como, como vivo, de que forma me comporto... procuro estar tranquila, alinhada aos meus valores, passar mais tempo em família ou com as pessoas de quem gosto, não me preocupo tanto com as coisas que antes me deixavam ansiosa e que agora sei que não são tão importantes. Aprendi a viver a vida no tempo presente, a não adiar os projetos nem os sonhos, a não fazer fretes, a dizer o que penso e sinto sem ofender, com empatia, a escrever mais, a ouvir mais e a dizer mais vezes amo-te.

Como foi receber o diagnóstico? O que é que passa pela cabeça de uma mulher tão jovem e com filhos ainda tão pequenos?

É claro que foi um momento duro, de medo, ansiedade, preocupação, angústia, alguma culpa... Mas decidi conscientemente não me focar nas emoções baixas nem na pergunta: ‘porquê a mim?’. Em vez disso, pensei sempre: o que posso aprender de tudo isto e como é que posso ultrapassá-lo da melhor forma e o mais depressa possível.

O que mais me custava era pensar nos meus filhos, porque ainda são pequenos e teriam de passar por algo muito duro. Não só pela dureza dos tratamentos, mas, sobretudo, pelo medo ao sentir que podiam perder-me. Também sentia isso em relação ao meu marido. Às vezes, sofremos mais pelos outros do que por nós próprios.

Sempre mantivemos a normalidade e fomos muito transparentes. Acabou por unir-nos mais e ensinou-nos a dar mais valor ao que realmente importa para nós - a família.

Aliás, diz que o cancro não foi só seu. Foi da família toda. Porquê? E, já agora, o que é que o cancro muda numa família?

Vivem-se momentos onde se misturam muitas emoções: medo, raiva, tristeza, ansiedade... o que pode unir ou pode afastar as famílias, os casais, os amigos. Quem tem cancro sente na pele, na primeira pessoa. E, às vezes, pode sentir-se incompreendido ou sozinho, mas os cuidadores e as pessoas que estão à volta também sofrem e muitas vezes sentem impotência por não poder fazer mais quando estão a ver um ser querido sofrer.

Por isso, é importante falar do que se sente, ouvir o outro com empatia, dar amor e ter muita paciência. Todas as emoções são válidas e vamos ter de passar por elas, uns dias serão melhores do que outros e está tudo certo. No nosso caso, ensinou-nos a ser ainda mais fortes e resilientes e a estar mais unidos.

Foi o seu marido quem lhe rapou o cabelo. Foi uma decisão dele, um pedido seu…?

Sugeri que podia ir ao cabeleireiro se ele não se sentisse capaz de o fazer, mas ele quis que fosse um momento íntimo, onde me sentisse protegida. No livro, conto como foi, o que significou para mim, para ele e para os nossos filhos. O meu marido estava mais nervoso do que eu, mas até acabou por ser um momento divertido! Depois, foi uma surpresa quando me olhei no espelho e gostei de ver-me mais do que teria imaginado. Por isso, decidi partilhar nas redes a fotografia que acabaram por tornar-se virais.

Foi a partir desse momento que as mulheres começaram a contactar-me e decidi escrever o livro. 

O que é que o cancro muda num casal?

É uma fase em que não temos energia e precisamos de focar-nos na nossa própria sobrevivência, pelo que a vida de casal pode ressentir-se, a todos os níveis. Daí ser tão importante existir uma boa comunicação e entendimento, saber o que o outro está a sentir, compreendê-lo, respeitá-lo e aceitá-lo. Depois, quando as coisas começam a voltar ao normal, é uma excelente oportunidade para voltar a namorar!

Num cancro de mama, com mastectomia, o corpo da mulher muda para sempre e também é preciso haver aceitação em relação a isso, voltar a sentir-se sexy e confiante com o próprio corpo.

Estamos perto do Natal e há um capítulo no seu livro em que a Virgínia se pergunta se aquele Natal que viveu com o cancro poderia ser o seu último. Essa noção de uma possível finitude, de que a morte a andava a rondar, passou-lhe muitas vezes pela cabeça?

Algumas vezes, porque recordava o último Natal da minha mãe. Infelizmente, o que não podia imaginar era que seria o último Natal do meu primo Ricardo (quase um irmão, padrinho do meu filho), que morreu num acidente de moto em janeiro, falo dele no livro, porque a sua perda foi mais dura do que ter de passar por um cancro.

Nunca sabemos se este será o nosso último Natal, estejamos saudáveis ou doentes, porque a vida é uma incógnita que não controlamos, o único que podemos controlar é o dia de hoje, por isso, deveríamos viver como se todos os dias fossem Natal! Pensar na Morte ou na finitude da nossa vida, se for de forma saudável e consciente, não é macabro, é a melhor forma de honrar quem já partiu e viver intensamente.

Também há um capítulo em que relata ‘um dia de merda’. Houve muitos ‘dias de merda’ no processo? Porque é que decidiu fazer este relato de uma forma tão… crua e sem qualquer agente suavizante?

Houve alguns dias horríveis, mas o dia que descrevo no livro foi sem dúvida o pior de todos. Para mim, é o capítulo mais duro e refleti muito se devia incluí-lo porque, honestamente, algumas partes ainda me envergonham.

Mas depois pensei: ‘todos temos “dias de merda”’. E a palavra é mesmo essa. Não é preciso ter um cancro para viver momentos de delírio, confusão, raiva, medo... tão intensos que parece que não vamos sobreviver-lhes ou conseguir ultrapassá-los. Mas somos sempre mais fortes do que pensamos, quando aceitamos a nossa vulnerabilidade, o nosso lado sombra. Pensei: se alguém estiver a passar por algo assim, ler o capítulo poderá ajudar a não se sentir tão sozinha ou sozinho.

Por isso, decidi incluí-lo assim, duro, cru, como aconteceu, sem filtros.

Apesar de tudo, nota-se uma capacidade de agarrar o desafio e seguir em frente, um espírito positivo e uma confiança de alguma forma invejáveis. Qual a importância desta força e deste espírito positivo no tratamento?

O maior poder de cura está em nós mesmos, muitos autores antes de mim já referiram isso, não é nada novo. Só que muitas vezes nos deixamos levar pelo vitimismo. Aconchega e é mais fácil deixar-se estar do que agir. Eu sou naturalmente otimista e positiva, tanto que algumas pessoas poderão considerá-lo ingenuidade. Mas prefiro continuar a ser um pouco naïf e a acreditar em mundos cor-de-rosa. Isso ajuda-me a ultrapassar as coisas menos boas e a ser forte quando tudo parece correr mal.

Acredito que ter vontade de curar-se, ser positiva, visualizar que tudo vai correr bem e fazer as mudanças necessárias é muito mais poderoso do que qualquer tratamento. Ou então, ajuda a que os tratamentos corram melhor. Não é fácil, bem sei, e digo isto com muito respeito pelas pessoas que passam por um cancro, ou pelas pessoas que perdem seres queridos por culpa do cancro. Mas continuo a pensar que o Universo conspira a favor dos otimistas e que tudo acontece por uma razão, mesmo quando não a compreendemos.

Qual foi o momento mais difícil? O diagnóstico, o momento em que contou aos seus filhos? A mastectomia?

Foi quando o cirurgião confirmou que teria de fazer uma mastectomia. Senti pavor ao pensar como ia conseguir olhar-me ao espelho sem mama e continuar a gostar de mim. E, ao mesmo tempo, senti-me fútil por estar tão preocupada com a minha imagem e a simetria do meu corpo, quando era a minha vida o que estava em risco. Um peito não nos define como mulheres, mas é uma parte muito importante. Pensei que ia sentir vergonha de ir à praia... mas, depois, isso não aconteceu. No livro partilho as emoções que senti a primeira vez que me olhei ao espelho, sem mama.

Contar aos meus filhos foi um desafio, assim como contar à minha sogra e ao meu pai. Às vezes, o pior de dar a notícia é o olhar aflito da pessoa que a recebe.

Foi escrevendo este livro à medida que ia passando pelo processo. Foi uma espécie de catarse? Ajudou-a, de alguma forma a superar cada uma das etapas?

Toda a escrita para mim é uma catarse e este livro é, sem dúvida, terapêutico. Mas se fosse só para mim, então teria ficado num diário. Os escritores, quando escrevem, também o fazem para ser lidos. A mim ajudou-me, chorei quando o voltei a ler, mas não foi pena, foi gratidão. Agora, o que desejo é que possa servir a muitas mulheres, em Portugal e, quem sabe, se também fora, a ultrapassar os seus desafios. É um livro que fala do cancro, mas não é só para mulheres com cancro. É para todas as pessoas que queiram ler uma bonita história de esperança, coragem e superação.  

E esta fase final de produção do livro – a organização das ideias, a estruturação, o reavivar de memórias e o reviver das histórias – foi muito dolorosa?

Mais do que dolorosa foi emocionante. Ao reler o que tinha escrito, foi quando tomei consciência de tudo o que tinha vivido. Quando estás a fazer quimioterapia, é como se entrasses numa espécie de nevoeiro mental e uma parte de ti fica adormecida. Entras em modo sobrevivência. Quando a toxicidade começou a passar e reli o que tinha escrito, entendi que tinha sido muito duro, mas, felizmente, tinha conseguido ultrapassá-lo.

Como é que agora olha para o futuro?

De peito aberto à vida! Com esperança, fazendo planos a curto prazo, não adiando momentos nem oportunidades de fazer o que gosto ou estar com quem amo. Escrevo todos os dias (já estou a escrever o próximo livro, que será um romance), mas, para já, gostaria de voltar às palestras e mentorias. Poder falar com outras mulheres, empreendedoras ou que tenham passado por algum desafio, como um cancro, e inspirá-las a descobrir os seus talentos e pô-los ao serviço dos outros. Acredito que cada pessoa tem um propósito e o meu é escrever e ajudar outras pessoas a contar as suas histórias ou dos seus negócios.

Que impacto é que o seu livro pode ter numa mulher que está a viver agora o processo de tratamento de um cancro?

O que já me disse quem leu foi que sentiu que se estava a ouvir a si própria, que partilhava as emoções e alguns momentos vividos. Outras mulheres têm receio de ler por medo de sofrer, mas digo-lhes que podem fazê-lo porque o livro não pretende magoar, mas sim, aliviar o coração e tornar o processo mais leve. Costumo dizer que os desabafos partilhados funcionam melhor. Este livro é um respiro de alívio e uma brisa de esperança para quem estiver a passar por dias mais duros.  

Que mensagem deixaria a uma mulher que hoje acabou de sair do consultório do seu médico com o diagnóstico que ninguém quer ouvir?

Cada pessoa é uma pessoa, pelo que, mais do que deixar uma mensagem, perguntaria como é que se sente, abriria os braços e diria que não está sozinha, estamos juntas, porque juntas somos sempre melhores. O que nos salva e cura é o amor que damos aos outros e recebemos deles.

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