Casos de cancro estão a aumentar entre os mais jovens. Estas são algumas medidas preventivas a adotar

CNN , Katia Hetter
11 mai, 09:00
Cancro (Good Brigade/Digital Vision/Getty Images)

Saiba como prevenir casos de cancro precoces. Conhecer o histórico familiar e ter atenção a determinados fatores de estilo de vida são duas das medidas preventivas apontadas

Numa tendência mundial preocupante, os novos casos de cancro entre os jovens têm vindo a aumentar acentuadamente.

Os cancros de início precoce, definidos como casos de cancro diagnosticados em pessoas com menos de 50 anos, cresceram globalmente em 79%.

Nos Estados Unidos, a American Cancer Society informou que a demografia dos doentes com cancro está a mudar cada vez mais de indivíduos mais velhos para pessoas de meia-idade. Embora os adultos com mais de 50 anos tenham registado uma diminuição da incidência global de cancro entre 1995 e 2020, verificou-se um aumento notável nas pessoas com menos de 50 anos.

Porque é que os jovens estão a registar taxas de cancro mais elevadas? Significa isto que as pessoas devem começar a fazer o rastreio do cancro em idades mais jovens? Quem deve estar mais preocupado? E que medidas preventivas devem os mais novos considerar?

Para ajudar a responder a estas perguntas, falei com a especialista em bem-estar da CNN, Leana Wen. Wen é médica de urgência e professora associada adjunta na Universidade George Washington. Anteriormente, foi comissária de saúde de Baltimore.

CNN: Quais são os cancros mais mortais nas pessoas mais jovens?

Leana Wen: Os tipos de cancro de início precoce que causam o maior número de mortes e que têm um grande peso a nível mundial são o cancro da mama; o cancro da traqueia, dos brônquios e do pulmão; e os cancros do estômago e colorretal, de acordo com um estudo de 2023 publicado na revista BMJ Oncology.

Estas estatísticas são semelhantes para as populações mais idosas. Nos Estados Unidos, o cancro do pulmão, colorretal, do pâncreas e da mama são as quatro principais causas de morte por cancro. Um relatório da American Cancer Society destacou especialmente o cancro colorretal, que é agora a principal causa de morte por cancro em homens com menos de 50 anos e a segunda em mulheres abaixo dos 50 anos.

Porque é que os casos de cancro estão a aumentar nas pessoas com menos de 50 anos?

Há uma série de hipóteses. Alguns investigadores apontam para a escalada das taxas de obesidade nas últimas décadas, que está associada ao risco de cancro de início precoce. Relacionado com isso, a alteração dos hábitos alimentares, nomeadamente o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e o estilo de vida sedentário também estão associados a taxas de cancro mais elevadas. Outros especulam que podem estar em jogo fatores ambientais, como os agentes cancerígenos libertados no ar, na água e nos alimentos.

Devem as pessoas começar a fazer o rastreio do cancro em idades mais jovens?

Esta é uma questão complexa que, na minha opinião, é melhor respondida se analisarmos as recomendações para a população no geral e não para o indivíduo.

As diretrizes das principais organizações médicas e dos organismos federais responsáveis pela elaboração de políticas baseiam-se no que é recomendado para pessoas com um risco médio. A maioria das pessoas deve seguir estas orientações.

Por exemplo, nos Estados Unidos, a US Preventive Services Task Force recomenda que as pessoas comecem a fazer rastreios do cancro do cólon aos 45 anos. A task force emitiu também um projeto de recomendação para que as mulheres comecem a fazer mamografias aos 40 anos. Ambas as revisões representam alterações às diretrizes. Antes de 2021, as pessoas eram aconselhadas a iniciar os rastreios do cancro do cólon aos 50 anos. A mudança na mamografia só foi proposta no ano passado e ainda não foi finalizada. Antes dessa recomendação, a orientação era para que a maioria das mulheres começasse a fazer mamografias aos 50 anos.

Estas indicações vão continuar a ser revistas. Os investigadores vão ter em conta fatores como a evolução demográfica e a eficácia dos instrumentos de rastreio.

As pessoas que apresentam um risco médio devem seguir as orientações existentes. Esta é uma das razões pelas quais devem certificar-se de que fazem um check-up anual com o seu médico ou outro prestador de cuidados primários. Esse é o momento de rever todos os testes que precisam de fazer, o que inclui os rastreios do cancro.

É também a altura de discutir se a sua situação clínica pessoal o coloca em risco mais elevado em comparação com a média. Esta é uma componente muito importante da consulta, uma vez que estes fatores vão determinar se é necessário iniciar os rastreios numa idade mais precoce do que as indicações gerais.

Por exemplo, se uma mulher tiver uma irmã, mãe ou outro familiar de primeiro grau com cancro da mama, ela própria tem o dobro do risco médio deste cancro. Uma pessoa que tenha dois familiares de primeiro grau tem uma incidência de cancro da mama cinco vezes superior à média. É crucial que cada um conheça o seu histórico familiar porque o seu prestador de cuidados de saúde pode recomendar outros passos adicionais, como testes genéticos. Poderá também ser necessário iniciar mamografias ou outros testes de rastreio numa idade mais precoce.

Do mesmo modo, uma pessoa que tenha um familiar de primeiro grau com um histórico de cancro do cólon também deve falar com o seu médico sobre a possibilidade de iniciar os rastreios deste cancro mais cedo do que a idade geralmente recomendada. Outros que possam necessitar de uma colonoscopia mais cedo são os que têm uma doença inflamatória intestinal, como a doença de Crohn ou certas patologias genéticas hereditárias.

Devíamos todos falar com o nosso médico todos os anos sobre o rastreio do cancro?

Sim e devem certificar-se de que fazem os rastreios recomendados.

Uma em cada três pessoas elegíveis para os rastreios do cancro do cólon nunca fez qualquer exame de rastreio, de acordo com a American Cancer Society. Tal como 59% das mulheres prescindem da sua mamografia anual, segundo alguns inquéritos.

As pessoas podem faltar a estes testes por uma série de razões. Podem estar ocupadas com o trabalho e com responsabilidades de prestação de cuidados. As pessoas podem não ter um prestador de cuidados primários ou enfrentar outras barreiras no acesso aos cuidados. E podem pensar que não precisam destes exames porque são jovens, saudáveis e sentem-se bem.

Mas as estatísticas surpreendentes sobre o aumento do cancro nos jovens devem ser um apelo à ação. Muitos cancros são assintomáticos nas fases iniciais. É por isso que o rastreio é necessário: para detetar estes cancros antes que se espalhem. O tratamento pode ser eficaz se os cancros forem detetados precocemente.

Que mais recomendaria aos jovens?

É essencial que as pessoas conheçam os seus riscos. Especificamente, precisam de saber qual é o seu histórico familiar e se têm outras condições médicas ou fatores de estilo de vida que aumentem o risco de cancro de início precoce.

Todas as pessoas devem tentar descobrir o seu histórico familiar de cancro. Há familiares de primeiro grau que tenham tido cancro? Conheça o seu próprio histórico clínico e pergunte ao seu médico se uma determinada doença pode aumentar o risco de cancro. Além disso, não se esqueça de mencionar todos os fatores relacionados com o seu estilo de vida, incluindo o tabagismo, o consumo de álcool, os hábitos alimentares e a atividade física.

Há medidas que os jovens podem tomar para reduzir o risco de cancro?

Sim. O tabagismo e o consumo excessivo de álcool são importantes fatores de risco. Deixar de fumar e reduzir o consumo de álcool são passos importantes. Apenas um ou dois minutos de exercício físico intenso por dia podem reduzir o risco de cancro, tal como a diminuir o consumo de alimentos ultraprocessados. É também importante notar que estas mudanças no estilo de vida não só reduzem o risco de cancro, como também são as mesmas que baixam a probabilidade de doença cardíaca e morte prematura.

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