Em 2022, foram registados em Portugal 832 novos casos de tumores primários do sistema nervoso central, correspondendo a 1,4% de todos os cancros diagnosticados nesse ano, segundo dados do Registo Oncológico Nacional. Apesar de representarem uma percentagem relativamente reduzida no conjunto das doenças oncológicas, estes tumores distinguem-se pelo seu impacto clínico e social profundamente desproporcionado. As formas mais agressivas estão associadas a elevada mortalidade e, mesmo quando a estabilidade tumoral é alcançada, são frequentes as sequelas neurológicas permanentes, tais como: défices motores, alterações cognitivas, perturbações da linguagem e modificações comportamentais que afetam drasticamente a autonomia e a qualidade de vida dos doentes e das suas famílias.
É neste contexto que levanto uma reflexão para iniciar debate junto da comunidade científica: poderá a cultura, e em particular a música, vir a desempenhar um papel complementar na recuperação neurológica e no bem-estar destes doentes? A resposta, neste momento, deve ser prudente. A evidência científica desta matéria em neuro-oncologia ainda é limitada e não permite conclusões definitivas. Contudo, os dados acumulados noutras áreas da neurologia e da oncologia sugerem que este pode ser um caminho digno de investigação e desenvolvimento estruturado.
Nas últimas duas décadas, a investigação em neurociências demonstrou que a música constitui um estímulo neurobiológico complexo. Estudos de neuroimagem funcional revelam que a audição musical ativa simultaneamente múltiplas regiões cerebrais, incluindo o sistema límbico, responsável pela regulação emocional; o córtex pré-frontal, associado às funções executivas; o hipocampo, essencial à memória; e áreas motoras e cerebelosas ligadas à coordenação e ao ritmo. Esta ativação distribuída é particularmente relevante quando falamos de tumores do sistema nervoso central, nos quais determinadas áreas cerebrais podem estar comprometidas.
A capacidade da música de envolver redes neuronais amplas está associada a fenómenos de neuroplasticidade, isto é, à reorganização funcional do cérebro após lesão. Em contextos de reabilitação neurológica, como o acidente vascular cerebral ou o traumatismo cranioencefálico, intervenções estruturadas com recurso à música têm sido associadas a melhorias na atenção, na memória verbal e, em alguns casos, na recuperação da linguagem através de técnicas como a entoação melódica. Embora estes resultados não possam ser automaticamente extrapolados para a neuro-oncologia, os mecanismos subjacentes sugerem uma plausibilidade biológica suficiente para justificar investigação nesta área.
Para além do potencial estímulo cognitivo, a música apresenta efeitos fisiológicos mensuráveis. A sua audição tem sido associada à redução dos níveis de cortisol, à diminuição da ativação do sistema nervoso simpático e ao aumento da variabilidade da frequência cardíaca, todos indicadores objetivos da redução do stress. Em doentes oncológicos em geral, há evidencias que apontam para benefícios consistentes na redução da ansiedade pré-operatória, na perceção de dor e nos sintomas depressivos, bem como melhorias na qualidade do sono e no bem-estar geral do doente.
No caso dos tumores cerebrais, estes efeitos podem assumir uma relevância acrescida. O diagnóstico está frequentemente associado ao receio de perda de autonomia e identidade cognitiva, à incerteza quanto ao futuro e à necessidade de adaptação a limitações neurológicas. A música, ao ativar memórias autobiográficas e ao proporcionar uma experiência emocional estruturada, pode funcionar como um elemento de continuidade pessoal num momento de profunda vulnerabilidade. Em fases avançadas da doença, tem também sido descrita como “uma muleta” para a expressão emocional e para a comunicação entre doente e família.
Importa, no entanto, sublinhar com clareza: a música não trata o tumor, não interfere na biologia celular nem substitui cirurgia, radioterapia ou quimioterapia. A sua eventual utilidade reside no domínio do cuidado complementar, na promoção do bem-estar, na mitigação do sofrimento e, potencialmente, no apoio à reabilitação funcional. A evidência empírica para tumores do sistema nervoso central não é robusta o suficiente para sustentar recomendações clínicas. O que existe é um conjunto de indícios científicos coerentes que apontam para a necessidade de estudos mais aprofundados e ensaios clínicos bem desenhados.
Num país onde a incidência destes tumores permanece relativamente estável, mas o seu impacto funcional é elevado, sobretudo em pessoas em idade ativa, explorar abordagens complementares de baixo risco e potencial benefício constitui uma responsabilidade ética e científica. Integrar a cultura no espaço hospitalar, de forma estruturada e avaliada, não deve ser visto como um adorno simbólico, mas como uma possibilidade concreta de humanização dos cuidados.
A medicina moderna é, legitimamente, cada vez mais tecnológica e especializada. Contudo, talvez o futuro da saúde passe também pela integração inteligente entre ciência e cultura. A música, enquanto linguagem universal e estímulo neuronal complexo, pode não ser ainda uma resposta consolidada na neuro-oncologia. Mas poderá vir a ser parte do caminho. Investigar essa possibilidade, com rigor e prudência, é um passo que merece ser dado.