"Há muita esperança": medicamento conseguiu "curar" 18 doentes com um dos cancros mais agressivos. O que dizem os especialistas portugueses

7 jun, 22:19
Cancro do colo-retal (Getty Images)

Comunidade científica vê com "grande expectativa" a experiência que conseguiu curar um grupo de pessoas que sofria de cancro colorretal. No entanto, deixa um alerta: é preciso esperar por estudos mais completos

“Precoce, mas esperançoso.” É desta forma que o diretor do serviço de Oncologia do Hospital de Santo António, António Araújo, descreve à CNN Portugal os resultados de um novo estudo que conseguiu “curar” 18 pacientes com cancro colorretal, um dos cancros que mais mata em todo o mundo. A pequena experiência foi publicada no The New England Journal of Medicine e está a ser vista como uma muito boa notícia entre a comunidade científica.

António Araújo sublinha que o estudo incidiu sobre um número pequeno de doentes, além de que se aplica a pessoas numa fase intermédia da doença, quando ainda não existem metástases ou outras complicações graves da doença. Estes doentes apresentam uma alteração no ADN do tumor, aquilo a que os especialistas chamam um biomarcador.

“São estádios localmente avançados [do cancro], que não está espalhado para além do local. Utilizando a imunoterapia conseguiu-se uma resposta muito boa, tão boa que o tumor desapareceu”, afirma, reforçando que a experiência foi realizada em apenas 18 doentes, apontando para a necessidade de mais investigação.

O mesmo refere Carlos Carvalho, médico oncologista e diretor da Unidade Multidisciplinar de Cancro Digestivo da Fundação Champalimaud, que explica que estes cancros não estão numa fase inicial, mas também ainda não estão metastizados. O especialista vê com bons olhos os resultados do estudo, mas ressalva que os mesmos se aplicam a uma percentagem reduzida de doentes com cancro colorretal. "Serão cerca de 5% dos doentes. Os números variam, mas será por aí", diz, em conversa com a CNN Portugal.

Apesar das boas indicações, Carlos Carvalho sublinha os tais 5%, número que diz ser baixo, alertando para possíveis falsas esperanças. "É preciso não criar a ideia falsa de que a maioria dos doentes pode fazer este tratamento."

O diretor do serviço de Oncologia do Hospital de Santo António, explica que, na prática, os resultados da investigação poderão vir a aplicar-se a 20% dos doentes que estão naquela fase, a tal fase intermédia da doença, quando o cancro é localmente avançado, mas em que ainda não existem metástases.

Para António Araújo, o grande sucesso desta experiência é evitar todos os procedimentos que se seguem ao diagnóstico, como são a quimioterapia ou até a cirurgia, sendo que, nos 18 casos, os cancros entraram em remissão.

“Neste caso, como se obteve uma resposta completa, como desapareceu por completo o tumor, evitou-se o recurso à cirurgia e à radioterapia”, refere António Araújo, reforçando que, “eventualmente, podemos atingir a cura sem ser necessária cirurgia”. E não se trata apenas de não realizar um procedimento, mas também da qualidade de vida dos doentes. É que alguns poderiam vir a necessitar de sacos para o intestino, por exemplo, algo que é desconfortável e que tem consequências para o resto da vida.

Carlos Carvalho também ressalva esta como uma questão importante, destacando que o tratamento pode "evitar uma cirurgia", por exemplo, o que pode ser crucial na qualidade de vida e na evolução da doença em alguns pacientes.

"Nestes doentes que têm esta alteração de ADN no tumor, a imunoterapia tem sempre uma grande eficácia", acrescenta.

Estudo pequeno, mas que traz esperança

Apesar de ser um estudo pequeno, o especialista do Hospital de Santo António admite que é uma investigação que “vem trazer muita esperança aos doentes e aos profissionais de saúde que lidam com este tipo de doença”.

Ainda assim, António Araújo alerta: “Já assistimos, no passado, a algumas situações semelhantes, que depois, em grandes estudos, não têm resultados tão bons.”

“Mas há muita esperança de que este possa ser um passo em frente no tratamento destes doentes”, acrescenta, sinalizando que existe uma “grande expectativa” pela realização de ensaios maiores.

A esperança estende-se, naturalmente, ao autor do estudo, Luis A. Diaz Jr., do Centro de Cancro Memorial Sloan Kettering, que refere que esta foi a primeira vez que um cancro entrou em remissão em todos os pacientes de uma experiência. "Acredito que é a primeira vez que aconteceu na história do cancro", afirmou, em declarações reproduzidas pelo The New York Times.

Na melhor das hipóteses, ainda temos de esperar dois anos

Mesmo que corram bem, todos os ensaios necessários para poder vir a generalizar esta experiência em contexto hospitalar deverão demorar, no mínimo, dois anos.

É o tempo apontado por António Araújo, que vinca que esse é um cenário em que tudo corre bem. “É preciso dar um tempo para ver se a doença não volta a aparecer, etc”, diz.

Carlos Carvalho concorda com esta janela temporal, que se pode estender até três anos. "Este estudo é de fase dois, algo mais controlado, em que os doentes são seguidos de uma forma mais cuidadosa." Seguir-se-ão estudos de fase três, na qual é necessário encontrar doentes que possam encaixar na tipologia de pacientes com cancro em fase intermédia.

Biomarcardor e medicamento já utilizados (mas há uma diferença)

Tanto o biomarcador identificado no estudo, como o medicamento aplicado, o dostarlimab, são ambos utilizados em contexto hospitalar, incluindo em Portugal. É isso que garante António Araújo, que explica qual a diferença que agora aparece.

É que, com este novo estudo, a identificação do biomarcador, associada à toma do medicamento, surge pela primeira vez em doentes com cancro num estado precoce, enquanto, atualmente, isso só se faz, em contexto hospitalar, em doentes com estados mais avançados de cancro.

“Utilizamos este biomarcador como marcador preditivo de resposta à imunoterapia”, explica, referindo que isso se faz com cancros “em fase avançada e metastática”.

Carlos Carvalho corrobora esta versão e indica que já se sabia que existe uma reação da doença à imunoterapia, apontando que a diferença é o estado da doença, a tal fase intermédia, por oposição ao que já é feito, inclusivamente em Portugal, onde a imunoterapia é utilizada como tratamento complementar para os cancros mais avançados.

"Sabemos que a imunoterapia consegue, mesmo em casos com metástases avançadas, curar alguns doentes, ainda que em baixas percentagens. Não é novidade que é um tratamento importante", acrescenta, referindo que os tratamentos com imunoterapia ainda têm muito espaço de evolução, "ainda está no princípio".

E os outros cancros?

António Araújo aponta que esta “mesma filosofia” de tratamento pode vir a ser aplicada noutros cancros, sendo que já existem estudos em desenvolvimento para se perceber se tal pode acontecer.

Para isso, nota o oncologista, terão de ser feitas mais investigações para se detetar a possibilidade de tratar doentes com recurso à identificação de biomarcadores e da aplicação de medicamentos numa fase precoce da doença, tal como se fez neste estudo para o cancro colorretal.

No fundo, é como diz o médico: "Estamos a aprender, estamos sempre a aprender."

"Não se pode aplicar este estudo diretamente noutros cancros. Tem de se usar um biomarcador próprio que se utiliza para outro tipo de cancros", conclui.

Carlos Carvalho aponta que é "cada vez mais útil começar a fazer estes estudos", nomeadamente tendo em conta as mutações no ADN, como aqui acontece. O especialista relembra que a investigação "está sempre a mudar" e diz que, "a pouco e pouco, vão surgindo tratamentos e medicamentos que atuam nessas mutações".

"O estudo do ADN das células do tumor vai ser cada vez mais importante para escolher os tratamentos mais indicados", aponta, sinalizando que este tipo de estudos é cada vez mais frequente.

Além disso, diz o oncologista, mesmo que os grupos identificados possam ser pequenos, como é o caso, quando essa identificação acontece o tratamento pode funcionar a 100%. "Estes doentes passam a ser sensíveis a um tratamento de melhor sucesso e mais eficácia."

E essa percentagem, mesmo que pequena, pode ter um impacto significativo. Senão, vejam-se os números: em Portugal houve, em 2020, 10.501 novos casos de cancro colorretal. Se destes, 5% apresentarem o tal marcador, estaremos a falar de 525 pessoas que podem ter a mesma resposta positiva.

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