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Cancro colorretal já é o mais mortal entre jovens adultos

CNN , Jacqueline Howard
22 mar, 09:00
Jenna Scott fala durante um evento da Colorectal Cancer Alliance. Foi diagnosticada com cancro do cólon em estádio 4 aos 31 anos. Foto: Colorectal Cancer Alliance

Tinha 31 anos e era saudável. As dores foram desvalorizadas e o diagnóstico chegou tarde: cancro colorretal em estádio avançado. Esta já não é uma doença de idosos

Jenna Scott recorda a alegria de estar grávida do seu primeiro e único filho. Recorda-se também das fortes dores abdominais.

Durante a gravidez, alertou os médicos para o desconforto persistente. Disseram-lhe que era normal, que as dores "faziam parte", conta.

Mas, depois de dar à luz um bebé saudável, a dor não desapareceu. Manteve-se.

Mais de um ano depois, Scott recebeu um diagnóstico que abalou a sua vida: cancro do cólon em estádio 4. Tinha 31 anos.

“Fizemos uma colonoscopia e, quando acordei, estavam o meu marido, o médico e quatro enfermeiros no quarto. O gastroenterologista disse que nem precisava de enviar nada para análise para saber que eu tinha cancro”, refere Scott, agora com 39 anos, num email.

O cancro em estádio 4, também conhecido como cancro metastático, significa que a doença se espalhou do local de origem para outras partes do corpo. No caso de Scott, explica, o cancro passou do cólon para o fígado.

"Fizemos uma colonoscopia e, quando acordei, estavam o meu marido, o médico e quatro enfermeiras no quarto. O gastroenterologista disse que nem precisava de enviar nada para análise para saber que eu tinha cancro", refere Scott, agora com 39 anos, num email.

O cancro em estádio 4, também conhecido como cancro metastático, significa que a doença se espalhou do local de origem para outras partes do corpo. No caso de Scott, explica, o cancro passou do cólon para o fígado.

"Sempre fui muito ativa e saudável. Fui atleta toda a vida. Nem sequer cresci a comer carne vermelha. De um momento para o outro, a minha vida mudou de forma completamente inesperada", diz. "Fiquei em choque, porque a palavra 'cancro' não fazia parte do meu mundo. Cancro significa morte."

Numa tendência preocupante, o cancro colorretal surge agora como o mais mortífero entre jovens adultos.

O cancro colorretal ultrapassou outros tipos de cancro e tornou-se a principal causa de morte por cancro entre pessoas com menos de 50 anos nos Estados Unidos, a partir de 2023, segundo um estudo publicado em janeiro na revista médica JAMA.

De acordo com a investigação, as mortes por cancro do cólon e do reto neste grupo etário aumentaram 1,1% por ano desde 2005. Como resultado, o cancro colorretal passou de quinta principal causa de morte por cancro entre menores de 50 anos, no início da década de 1990, para a primeira em 2023.

"Não sabemos por que razão está a aumentar", afirma o médico Ahmedin Jemal, vice-presidente sénior de vigilância, prevenção e investigação em serviços de saúde da American Cancer Society e autor principal do estudo.

"A mortalidade associada às outras principais causas de morte por cancro em jovens adultos com menos de 50 anos está a diminuir. É apenas a mortalidade por cancro colorretal que está a aumentar, mas ainda não compreendemos totalmente o que está por detrás deste crescimento", acrescenta.

Scott, ativista da organização sem fins lucrativos Colorectal Cancer Alliance, considera os novos dados preocupantes.

Após anos de tratamento - que incluíram quimioterapia, terapêuticas dirigidas e cirurgia - está agora em estado estável. Ainda assim, explica que tem de "continuar a quimioterapia e os terapêuticas dirigidas indefinidamente", porque sempre que interrompeu o tratamento no passado, o cancro regressou e espalhou-se para outros órgãos.

Enquanto prossegue os tratamentos, Scott diz que o seu objetivo é "um dia vir a ser avó".

Já não é "uma doença de idosos"

Para este estudo, Jemal e a sua equipa na American Cancer Society analisaram os números anuais e as taxas de mortalidade por cancro entre pessoas com menos de 50 anos nos Estados Unidos, entre 1990 e 2023, com base em dados do National Center for Health Statistics, dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC).

"São os dados mais completos de que dispomos", afirma Jemal.

Os investigadores analisaram as cinco principais causas de morte por cancro neste grupo etário. Concluíram que, no total, entre 1990 e 2023, mais de 1,2 milhões de pessoas morreram de cancro nos Estados Unidos antes dos 50 anos, sendo que a taxa de mortalidade caiu 44% nesse período.

Os dados mostram ainda que as mortes diminuíram em todos os principais tipos de cancro, com exceção do cancro colorretal.

Entre as cinco principais causas de morte por cancro em pessoas com menos de 50 anos, a redução média anual entre 2014 e 2023 foi de 0,3% no cancro do cérebro, 1,4% no cancro da mama, 2,3% na leucemia e 5,7% no cancro do pulmão, segundo os dados.

Os resultados do estudo indicam que, em 2023, as cinco principais causas de morte por cancro entre pessoas com menos de 50 anos nos Estados Unidos eram:

  1. Cancro colorretal
  2. Cancro da mama
  3. Cancro do cérebro
  4. Cancro do pulmão
  5. Leucemia

"Não esperávamos que o cancro colorretal atingisse este nível tão rapidamente, mas é agora claro que já não pode ser considerado uma doença de idosos", afirma Jemal, num comunicado.

"Temos de reforçar a investigação para perceber o que está a impulsionar este aumento exponencial de casos de cancro nas gerações nascidas desde 1950", acrescenta. "Entretanto, as pessoas entre os 45 e os 49 anos representam metade dos diagnósticos em menores de 50, pelo que o aumento da adesão ao rastreio pode prevenir tanto a doença como a morte."

Enquanto jovem adulta com cancro colorretal, Scott diz que os resultados do estudo foram "bastante perturbadores" para si.

"O que tem de acontecer para chamar mais atenção para esta doença e para as pessoas que hoje são mais afetadas? Porque continuam adultos aparentemente saudáveis e crianças a morrer desta doença? Porque estão as mulheres a ser cada vez mais afetadas? Como prevenir algo quando nem nós nem a equipa médica sabemos como surgiu em primeiro lugar?", questiona Scott, num email. "Temos de travar este aumento da mortalidade."

De acordo com a Colorectal Cancer Alliance, são diagnosticados quase 60 novos casos de cancro colorretal por dia em pessoas com menos de 50 anos nos Estados Unidos - o equivalente a um diagnóstico a cada 25 minutos.

Rastreio e sintomas do cancro colorretal

O novo estudo é um alerta importante para que as pessoas com menos de 50 anos mantenham os rastreios em dia, afirma Jemal. Para quem tem risco médio de cancro colorretal, recomenda-se iniciar o rastreio regular aos 45 anos.

No entanto, "apenas 37% dos adultos entre os 45 e os 49 anos têm o rastreio do cancro colorretal em dia", refere.

"O rastreio do cancro colorretal não só permite detetar a doença numa fase precoce, como também remover pólipos antes de evoluírem para cancro", explica. "É um dos dois tipos de rastreio que não só detetam o cancro precocemente como também o previnem - o outro é o rastreio do cancro do colo do útero."

A nova investigação é "oportuna" e evidencia um "sinal de alerta", afirma a médica Y. Nancy You, professora no University of Texas MD Anderson Cancer Center e diretora do programa de cancro colorretal de início precoce da instituição, que não participou no estudo.

Sublinha que, embora o rastreio do cancro colorretal em adultos mais jovens, aparentemente saudáveis e sem sintomas, seja crucial, "isso é apenas parte da história. Existe uma enorme lacuna - e uma oportunidade - no diagnóstico e tratamento rápidos de pessoas que já apresentam sintomas".

Entre os sintomas mais comuns do cancro colorretal estão:

  • sangue nas fezes ou hemorragia retal;
  • alterações dos hábitos intestinais sem causa aparente - como diarreia, obstipação ou fezes mais estreitas - durante mais de alguns dias;
  • dor abdominal persistente ou cólicas;
  • fraqueza ou fadiga;
  • perda de peso sem causa aparente;
  • sensação persistente de evacuação incompleta, mesmo após ir à casa de banho.

"Existe um número impossível de quantificar de jovens adultos com sintomas compatíveis com cancro colorretal que acabam por ignorá-los - por estarem ocupados ou com receio - ou que recorrem ao sistema de saúde mas encontram um profissional que desvaloriza a situação, atribuindo-a, por exemplo, a uma hemorroida, sem avançar para exames adicionais", explica You, referindo-se a situações em que os sintomas são, por vezes, desvalorizados pelos profissionais de saúde.

"Há, claramente, atrasos no diagnóstico de jovens adultos que já apresentam sintomas", acrescenta.

Quando há atrasos no diagnóstico do cancro, aumenta a probabilidade de a doença ser detetada em fases mais avançadas, como os estádios 3 ou 4. Nesses casos, o cancro pode já ter-se espalhado para além do tumor inicial, atingindo tecidos próximos ou outras partes do corpo, o que torna o tratamento mais difícil e reduz as hipóteses de sobrevivência, independentemente da idade.

É por isso que o aumento das mortes por cancro colorretal parece estar a ocorrer numa altura em que mais pessoas com menos de 50 anos são diagnosticadas em fases avançadas da doença, afirma a médica Andrea Cercek, oncologista especializada em tumores gastrointestinais no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, que não participou no estudo.

No caso do cancro colorretal, "as pessoas com menos de 45 anos não são rastreadas, pelo que só são diagnosticadas quando surgem sintomas. Em muitos desses casos, cerca de três quartos, os sintomas já refletem uma doença muito mais avançada, o que se traduz em piores resultados, independentemente da idade", explica Cercek, acrescentando que o estudo evidencia a necessidade de diagnosticar rapidamente os doentes mais jovens e de não desvalorizar os seus sintomas com base na idade.

Estima-se que mais de 60% dos doentes com cancro colorretal com menos de 50 anos sejam diagnosticados quando a doença já se encontra em estádio 3 ou 4.

"Nos mais jovens, diagnósticos em fases mais avançadas estão associados a menor sobrevivência", afirma Christine Molmenti, professora associada e epidemiologista do cancro na Northwell Health, em Nova Iorque, que não participou no estudo.

"Tenho acompanhado muitos doentes com menos de 50 anos com esta doença e é algo profundamente triste", afirma. "Pela experiência que temos, muitos destes doentes são saudáveis. Estão em boa forma. Alguns são até atletas. Houve doentes que não sobreviveram, cujos pais nos contaram que tinham corrido uma maratona quatro meses antes de receberem o diagnóstico de cancro do cólon em estádio 4. Muitas vezes, os mais jovens ignoram os sintomas ou estes são desvalorizados. Por isso, é fundamental aumentar a consciencialização."

 

 

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