Cancro da próstata de Joe Biden é mais do que um diagnóstico. É um alerta de que "basta ser homem e estar vivo" para evitar males maiores

24 mai 2025, 22:00
Joe Biden (AP Photo)

É quase sempre silencioso e muitas vezes ignorado. O cancro da próstata mata mais de mil homens por ano em Portugal e o caso de Joe Biden mostra a importância de quebrar estigmas e procurar ajuda o quanto antes

“Joe Biden é um bom exemplo da diferença que a idade de diagnóstico faz”. Tiago Rodrigues, coordenador da unidade de Urologia do Hospital da Cruz Vermelha, está habituado a receber em consulta homens de várias idades com cancro da próstata, mas todos eles o levam a uma certeza: “Se tratarmos um cancro da próstata aos 50 anos podemos ter um potencial de ganho de 30-50 anos de vida, se for aos 85 anos não temos esse mesmo potencial”.

Todos os anos, são diagnosticados em Portugal entre cinco mil a seis mil casos de cancro da próstata, a neoplasia maligna mais comum no sexo masculino e que, em 2022, matou 1.792 em Portugal, segundo os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes a esse ano. A elevada taxa de mortalidade prende-se, sobretudo, com o diagnóstico tardio desta doença, que tende a ser assintomática até que esteja num estádio já mais avançado, como aconteceu com o antigo presidente dos Estados Unidos, que apenas procurou ajuda médica “depois de ter registado um aumento dos sintomas urinários”, como refere o comunicado que revelou a doença.

“Este é um hot topic [tema quente] muito grande da urologia nas últimas duas décadas. O rastreio do cancro da próstata é muito simples, basta um PSA [Antígeno Prostático Específico] anual, mas o rastreio não está recomendado nem nos EUA, nem a Europa, mas na Europa está a ser discutido e esta a modalidade já é mais ou menos aceite”, diz o médico Tiago Rodrigues, embora reconheça que há mais homens “informados” que procuram um despiste da doença mais cedo, sem qualquer sintoma associado, até porque no diagnóstico em idades mais avançadas, a partir dos 70, 75 anos, “o doente tem uma grande probabilidade de morrer desta doença e a morte de cancro da próstata não é fácil, é dolorosa, lenta, com impacto na qualidade de vida, consome muito o próprio paciente e a família, é uma morte com sofrimento”.

Para o urologista, os homens devem proactivamente conversar com os seus médicos, seja o médico de família ou de especialidade de Urologia, e pedir análises de despiste da doença, o tal PSA, que se apresentar valores elevados, poderá ser um sinal de que é necessário dar um passo em frente e fazer uma ressonância magnética, que revelará a necessidade ou não de se avançar para uma biópsia ou outro exame de diagnóstico, como explica a Liga Portuguesa Contra o Cancro. No entanto, apesar de ser já do conhecimento geral que quanto mais precoce for o diagnóstico, mais eficaz e menos agressivo poderá ser o tratamento, muitos homens continuam a fugir a sete pés deste tema.

“Quando os sintomas aparecem, a doença não é mais curável, o grande segredo do diagnóstico do cancro da próstata é o diagnóstico precoce aos sintomas, mais importante do que a idade, é o estádio em que é diagnóstico é feito, e quanto mais cedo melhor”, vinca o médico, explicando que os sintomas associados a esta doença indicam que a mesma se encontra já numa fase mais complexa e avançada e podem incluir ainda dor óssea, dor a urinar, sangue na urina ou sémen, mudança na frequência e intensidade com que urina e dificuldades em manter uma ereção.

E é este último ponto um dos entraves para a procura de ajuda, reconhece o médico, que diz que muitos homens ainda olham para o cancro da próstata como uma “sentença” para a sua vida sexual, quando não o é, sobretudo se for diagnosticado atempadamente, de modo que se atue apenas no tumor, preservando a função da próstata, como alguns tratamentos recentes já o permitem, como a cirurgia robótica que Tiago Rodrigues tem praticado.

“Hoje, um diagnóstico de cancro da próstata não é igual a um tratamento, nem igual a um tratamento radical. Temos de fazer entender que é importante conhecer o diagnóstico e discutir as opções de tratamento. Muitos dos doentes não vão ao médico ou não pedem para fazer o diagnóstico porque acham que entram num caminho sem retorno e que vai acabar com a vida sexual”, diz o médico, garantido que a atual realidade do cancro da próstata já não é sempre assim, sobretudo se detetado cedo e numa fase inicial. “Ter um diagnóstico não é igual a perder as faculdades associadas à masculinidade, a ejaculação e a ereção”, diz, explicando que há casos em que é possível abordagens menos radicais, optando-se, por exemplo, por cirurgias localizadas para o tumor. No entanto, quanto mais tarde for detetada a doença e quanto mais avançada estiver, menos margem de manobra há e são os procedimentos mais invasivos e radicais, como a radio e quimioterapia e a prostatectomia, a única salvação. “Na casa dos 50 anos é possível não ir a opções radicais, quanto mais cedo se diagnosticar, mais opções de tratamento há. Quanto mais se avança na doença, mais opções se perdem pelo caminho”, reitera o médico.

E, no fundo, deixa um conselho: “Basta ser homem e estar vivo para se fazer o rastreio”.

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