Dois homens. O mesmo diagnóstico. O mesmo cancro da próstata. Destinos diferentes, não pela biologia, mas pelo código postal. Em Portugal, a taxa de sobrevivência a este tumor varia sete pontos percentuais entre o Norte e o Alentejo. Na vida real, esses sete pontos são pais, irmãos, maridos e amigos que partem antes do tempo. Eu estive nesse lugar. Doente e sobrevivente. E recuso-me a ficar em silêncio.
Lembro-me bem do dia do diagnóstico. Há pausa no tempo. O médico fala, mas o cérebro demora a processar: cancro da próstata. Foi em julho de 2014. Fui operado logo em setembro, um intervalo curto, quase confortável, que só foi possível porque tinha seguro de saúde. Enquanto isso, sei de tantos outros homens que, dependendo exclusivamente do sistema público, esperam meses, por vezes mais de um ano, por uma cirurgia que noutras circunstâncias poderia ter salvo mais tempo de vida, ou até a própria vida. Senti medo, mas também uma estranha gratidão por viver numa cidade com acesso a cuidados oncológicos diferenciados, por ter um médico atento e condições para faltar ao trabalho durante os tratamentos. Só mais tarde, já do outro lado, percebi o peso dessa gratidão: eu tinha sobrevivido, em parte, porque tive sorte. Mas a sobrevivência não deveria ser uma lotaria.
O cancro da próstata é o tumor mais frequente no homem português, com mais de 7.300 novos casos anuais, em 2022, e 2.000 mortes. Embora a sobrevivência global aos cinco anos seja de 95,4%, as médias escondem assimetrias graves. No Norte, a sobrevivência é de 98%; no Alentejo, desce para 90,9%. O cancro não escolhe a geografia, mas o sistema de saúde parece fazê-lo.
Na APDPróstata, vivemos esta desigualdade diariamente através de relatos que nos chegam. Há tratamentos inovadores devidamente prescritos pelos médicos especialistas, mas que depois, por decisões burocráticas ou administrativas locais, são negados aos doentes nos seus hospitais de área de residência. Esta recusa força deslocações exaustivas entre regiões e quebra a relação de confiança que o doente já tinha estabelecido com o seu médico assistente. Quem tem menos recursos ou dificuldades de mobilidade é simplesmente deixado para trás, sem alternativa.
As barreiras são burocráticas e físicas. Um medicamento inovador demora, em média, dois anos e meio a ser comparticipado em Portugal após aprovação europeia – para quem está em fase avançada, este atraso é fatal. Além disso, em 2023, 62% dos hospitais públicos excederam os tempos máximos de resposta garantidos (TMRG) para oncologia. Como podemos falar em "garantia" quando mais de metade do sistema falha? Para agravar, a escassez e a distribuição desigual de equipamentos de radioterapia penalizam severamente quem vive fora dos grandes centros.
Muitas vezes, as administrações hospitalares tendem a desvalorizar o problema, como se esta falta de equidade fosse uma "invenção" dos doentes. Mas ela é real, dolorosa e motivada por burocracias que travam tratamentos que nem sequer representam um custo insustentável para o Estado. É um tema empurrado para debaixo do tapete nos congressos médicos, mas que destrói vidas.
Escrevo porque conheço dezenas de homens com caminhos muito mais difíceis do que o meu. O que a APDPróstata defende não é utópico: exige-se que os tempos de espera garantidos sejam cumpridos; que o acesso à inovação terapêutica não demore anos; e que o rastreio organizado chegue a quem tem mais dificuldade em aceder ao sistema.
A equidade não é um ideal filosófico. É uma escolha política e de gestão.
Sobrevivi ao cancro da próstata. Estou grato por isso todos os dias. Mas essa gratidão obriga-me a dizer que sobreviver não deveria depender do sítio onde se nasce ou do rendimento que se tem. Deveria ser uma certeza para todos os homens portugueses. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a dar voz a quem mais precisa.
