Sentimentos mistos na visita do Papa Francisco aos povos indígenas no Canadá

Agência Lusa
30 jul, 08:02
Papa Francisco é recebido pelo grande Chefe da Confederação do tratado das Seis Primeiras Nações, George Arcand (Nathan Denette/The Canadian Press via AP)

O líder da Igreja Católica pediu esta terça-feira “perdão pelo mal cometido” contra os nativos do Canadá, em particular nos internatos para crianças geridos pela igreja Católica

A visita do Papa ao Canadá não foi positiva para alguns povos indígenas pois a “dor ainda é demasiada para aceitarem o pedido de desculpas”, disse esta sexta-feira à agência Lusa uma professora universitária.

“Alguns indígenas católicos aceitaram a visita do papa, enquanto outros não. Foi importante recordar aqueles castigos e abusos nas escolas residenciais. Para alguns, a dor ainda é demasiada para aceitaram o pedido de desculpas do pontífice”, afirmou Tanya Harnett.

O líder da Igreja Católica pediu esta terça-feira “perdão pelo mal cometido” contra os nativos do Canadá, em particular nos internatos para crianças geridos pela igreja Católica, e lamentou que alguns dos seus membros tenham cooperado com políticas de “destruição cultural”.

A professora na Faculdade de Estudos Nativos, da Universidade de Alberta, é membro da Primeira Nação Carry-The-Kettle de Saskatchewan e tem ligações familiares ao sistema escolar residencial, de três gerações, sendo filha de um antigo estudante daquele sistema de ensino.

O “genocídio cultural” indígena

Entre o final do século XIX e os anos 1990, mais de 150 mil crianças indígenas foram recrutadas à força para mais de 130 escolas residenciais. Aí, foram separadas das famílias, da língua e cultura, e foram frequentemente vítimas de violência. Pelo menos seis mil crianças morreram nestas instituições.

A descoberta em 2021 de mais de 1.300 sepulturas não identificadas perto destas escolas provocou uma onde de choque no país, que está lentamente a abrir os olhos para este passado, descrito como “genocídio cultural” por uma comissão nacional de inquérito.

De acordo com Tanya Harnett “agora parece estar tudo mais calmo quando as pessoas ainda estão a digerir o significado do pedido de desculpas do Papa”.

“É bem possível que isso signifique uma reavaliação no coração das pessoas. Outros não serão capazes de acolher o pedido de desculpas. Todos nós precisaremos de tempo para compreender”, acrescentou.

O positivo na visita do Papa, de 85 anos, foi a indicação deste para a necessidade para “mais abertura para a cura”, sugerindo que o Vaticano possa abrir as portas para uma investigação sobre o que aconteceu nas escolas residenciais.

“Isso sim, seria um passo em direção à verdade, levando, portanto, à reconciliação”, realçou.

Aproximadamente 40% a 60% dos alunos que frequentaram as escolas residenciais “nunca voltaram a casa”, encontrando-se as famílias ainda no “processo de recuperarem os corpos que foram colocados em covas sem identificação nas reservas”.

“Isto não é segredo nenhum para os povos indígenas deste país. Sempre conheci o local onde os corpos foram colocados, todos nós sabíamos. Este é o segredo do Canadá”, lamentou.

A docente mostrou-se ainda esperançada que as palavras do Papa “sejam sinceras” esperando que todos se possam unir nesta jornada, destacando a decisão do pontífice de ter convocado os órgãos políticos e a igreja Católica no Canadá para fazer mudanças, o que é “primordial”.

A missa que o papa conduziu na igreja de Santa Ana, no Quebeque, na quinta-feira, foi palco de um protesto, em que um grupo de indígenas ergueu uma faixa o afastamento da chamada Doutrina do Descobrimento.

Este foi um tema discutido na assembleia das Nações Unidas em 2014 e que “necessita de ser revisto”, na opinião da professora Tanya Harnett.

“Os povos das Primeiras Nações tiveram a oportunidade de levar esta questão ao Papa. Tenho a certeza que voltará ao Vaticano a pensar no que representa aquela doutrina num contexto maior. Estamos no início da verdade e da mudança”, concluiu.

Estes documentos foram utilizados para legitimar o confisco de terras e recursos indígenas durante a era colonial, dizem os especialistas.

O líder da Igreja Católica chegou no domingo a Edmonton, no oeste do Canadá, naquela que foi a primeira de três paragens na sua visita.

Francisco visitou também a cidade de Quebeque e de Igaluit, a capital do território de Nunavut, no extremo norte do Canadá, no Ártico, onde concluiu a visita, voltando a demonstrar “indignação e vergonha” pelo “mal cometido” pelos católicos.

O papa já tinha pedido desculpas a uma delegação de nativos canadianos no Vaticano, em abril passado.

Francisco foi o segundo Papa a visitar o Canadá, depois de João Paulo II.

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