A canábis percorreu um longo caminho no regresso à legalidade nos Estados Unidos e, em breve, pode assinalar um marco importante: a reclassificação. Esse é o termo técnico para voltar a classificá-la como uma droga menos perigosa, o que tira força a algumas restrições a nível federal.
A canábis foi amplamente usada como medicamento nos anos 1800 e início dos anos 1900. Mas o congresso norte-americano decidiu criminalizá-la em 1937, com a aprovação do Marihuana Tax Act, uma lei federal que impôs limitações no cultivo, distribuição e posse da canábis. No entanto, a partir de 1996, a canábis tornou-se acessível na maioria dos estados norte-americanos para uso médico ou recreativo por parte de adultos.
Mas toda esta questão da canábis não é assim tão linear quanto parece na vida dos norte-americanos. Atualmente, a canábis encontra-se na categoria mais restritiva - a chamada Tabela I - da Lei de Substâncias Controladas, ao lado de drogas como heroína e LSD. Por definição, as drogas da Tabela I têm um alto potencial de abuso e não são aceites quaisquer usos medicinais. Ora, o Departamento de Justiça dos EUA está agora a considerar mudar a canábis para uma droga de Tabela III, entrando, assim, no leque das menos restritas.
Reclassificar a canábis é, porém, um processo complicado. O presidente norte-americano Joe Biden solicitou oficialmente a mudança em 2022, mas tal envolve várias entidades, incluindo a Administração de Controlo de Drogas - sob a tutela do Departamento da Justiça - e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA. Este último encontrou “suporte científico confiável” para o uso de canábis no tratamento de certas condições clínicas, incluindo a dor crónica.
O facto de a canábis poder ser usada com segurança e eficácia em contexto médico não é um conceito novo para a médica Staci Gruber, também professora associada de Psiquiatria na Escola Médica de Harvard, em Boston, que dedicou a sua carreira a entender os efeitos desta droga no cérebro.
“A esta altura, há uma quantidade enorme de evidências que sugerem que, para algumas pessoas com alguns tipos de dor, certos canabinóides funcionam de forma relativamente eficaz”, explicou Gruber no podcast Chasing Life com o correspondente médico da CNN, Sanjay Gupta. “Vimos nos nossos estudos observacionais indivíduos a reduzirem o uso de opióides por conta própria após iniciar um tratamento de canabinóides”.
Então, o que é que a reclassificação da canábis significaria para os norte-americanos? Gruber partilha cinco coisas que todos precisam saber sobre a possível reclassificação da canábis nos Estados Unidos.
Não esperar grandes mudanças a nível do consumidor
Como próximo passo neste processo de reclassificação, a Administração de Controlo de Drogas agendou uma audiência pública para 2 de dezembro, na qual especialistas e partes interessadas poderão falar sobre a mudança proposta.
Se a reclassificação acontecer, em grande parte, a canábis ainda será regulamentada.
“Uma letra faz toda a diferença: reclassificação (REscheduling) não é retirada da classificação (DEscheduling)”, escreveu Gruber num e-mail. “Embora a reclassificação tenha implicações fiscais significativas para a indústria e altere a carga administrativa para os cientistas, provavelmente não mudará muito para os consumidores e pacientes”.
No entanto, a médica crê que não será possível comprar canábis como uma substância de Tabela III sem receita médica ou em lojas de retalho, por exemplo.
Fazer o trabalho de casa
Para quem está nos Estados Unidos, o próximo passo está em saber o que se quer e procurar o que melhor se enquadra para esse fim.
E sobre este ponto, a médica aconselha as pessoas a “certificarem-se de saber o que pretendem fazer com canábis/canabinóides antes de comprar algo”. “E sejam honestos convosco mesmos”, aconselha ainda Gruber, que também é diretora do
Núcleo de Neuroimagem Cognitiva e Clínica e do Programa de Investigação da Marijuana para Descobertas Neurocientíficas, ambos no McLean Hospital em Belmont, em Massachusetts.
Uma forma de saber o que se pretende fazer com canábis/canabinóides é responder a esta questão: gostaria de usar canábis para fins medicinais, recreativos ou uma mistura de ambos? E isto porque escolher cuidadosamente o produto certo com um objetivo em mente terá impacto na experiência — seja um benefício clínico ou um efeito colateral.
Confiar, mas verificar
Também importante, diz a médica, é certificar-se sobre o que contém exatamente o produto que pretende ou está a comprar. “Se vai comprar, esteja ciente”, sugere Gruber. “Saiba o que deve procurar num produto e não confie apenas no rótulo do mesmo — peça certificados de análise para os produtos nos quais tem interesse, de modo a confirmar exatamente o que contém e em que quantidade”.
E Gruber deixa uma dica: análises laboratoriais independentes são melhores.
Ter em consideração a idade
“A canábis traz riscos potencialmente maiores para crianças/adolescentes e jovens adultos, especialmente quando expostos a grandes quantidades de THC [Tetrahidrocanabinol - substância psicoativa encontrada na canábis e plantas do mesmo género] e produtos de maior potência, pois estão numa fase crítica do desenvolvimento cerebral”, adverte a médica Staci Gruber, que explica ainda que adultos mais velhos - com um metabolismo mais lento - também podem ser sensíveis a produtos canabinóides. “Mas muitos adultos experimentam benefícios únicos dos canabinóides”, observou.
Mas independentemente da idade, o uso de canábis tem sido associado a potenciais riscos à saúde .
Não ignorar o histórico pessoal e clínico
Staci Gruber sugere que cada pessoa leve em consideração o histórico pessoal e clínico.
“Não somos todos criados de forma igual”, vincou a médica, pois “cada pessoa irá provavelmente responder à canábis e aos produtos canabinóides de forma diferente”.
E isto acontece porque as respostas individuais dependem de uma série de fatores, incluindo quais compostos que estão no produto, como o produto é usado, qual experiência anterior com canabinóides, a idade do consumidor, o seu metabolismo, o uso de outras substâncias, a genética e o histórico familiar de certas condições clínicas, exemplifica a médica, que diz também que outro fator importante é o uso de medicamentos convencionais. “Interações medicamentosas são uma potencial preocupação, pois os canabinóides, particularmente o CBD [canabidiol], quando usado oralmente, podem interagir com enzimas hepáticas e aumentar ou diminuir os níveis séricos de outros medicamentos”.
Por fim, Gruber deixa ainda um conselho: “Lembre-se - usar canábis para fins medicinais não significa que precisa ficar alterado ou de se sentir alterado. Esteja atento ao conteúdo de THC [substância psicoativa] e certifique-se de começar com uma dose baixa e ir devagar [no consumo]”.
