Em terra de Chega, Pedro Nuno bailarica para ser rei. Para Celeste só falta uma coisa a PNS: a “alma de combate de António Costa”

8 mai 2025, 07:10
Pedro Nuno Santos em Faro (José Sena Goulão / Lusa)

Um dia cheio de metáforas bélicas. PS e AD andaram pelas mesmas ruas de Évora na caça ao voto. Spoiler: não se cruzaram. Pedro Nuno desejou boa sorte ao rival, mas garantiu: quer derrotá-lo. “Laranja podre”, diria o cabeça de lista. Antes, por Faro, aprendeu com os idosos a ter “genica” com o baile que deu energia à campanha. No mercado de Quarteira foi bem acolhido. E entre os que são alvo da discriminação alimentada pelo discurso do Chega, convenceu

Quem diria que a campanha do PS havia de ganhar energia num centro de idosos em Faro? Por aqui, garantem, a festa é sempre animada, não era preciso um convidado especial para que o bailarico fosse contagiante. “Apertem com ele, que é bom bailarino”, diz o artista, no palco. E ele, Pedro Nuno Santos, vai-se distribuindo entre os braços das reformadas. Disputado por todas. O voto aqui vale muito. E ele sabe que “é preciso genica” para agarrá-lo – agarrá-las.

Luísa de Velha só tem o apelido - pode espreitá-la na foto abaixo. Foi uma das sortudas, se assim se pode dizer, na pista de dança improvisada em Faro. “Gosto muito dele, vou votar nele.” Sente-se mais segura com o PS quando se fala de reformas. E há dias em que o candidato vem acenando com os perigos, ou melhor, com as intenções escondidas de Luís Montenegro de acabar com o sistema tal como o conhecemos.

foto José Sena Goulão / Lusa

É visita de médico, curtinha, sobretudo para o boneco da televisão, mas cheia de intenção: vem para “sinalizar” quem, afinal, tem uma verdadeira relação da confiança com os pensionistas e acusar Montenegro de não conhecer “a realidade” desta faixa da população quando lhes acena, por exemplo, com reduções no IRS – algo que a maioria não paga porque “recebe pensões muito baixas”.

E está tudo a postos para ver, nas mesmas ruas de Évora, quem leva a melhor. Pedro Nuno ou Montenegro? Medo? “É uma coisa que não me assiste”, reage o socialista.

foto José Sena Goulão / Lusa

Nesta caça houve uma “laranja podre”

Diana, a patrona do templo que torna Évora conhecida em todo o mundo, era a deusa romana da caça. E Évora tornou-se esta quarta-feira terreno fértil para a caça ao voto. O trânsito à entrada da cidade atrasa ainda mais a comitiva de Pedro Nuno Santos. Dá jeito, até porque a esta hora Luís Montenegro está a descer as mesmas ruas que o secretário-geral do PS há de subir.

Este jornalista, que teve de atravessar a arruada da Aliança Democrática para chegar ao ponto de encontro da caravana socialista, está em condições de garantir que, em termos de dimensão, foi ela por ela. Não será pela mancha humana eborense que se pode concluir o resultado de 18 de maio. Há uma diferença a vincar: os sociais-democratas tinham aparelhagem maior para a música.

foto José Sena Goulão / Lusa

Pelo caminho, Pedro Nuno aproveita para acusar o Governo de “colocar culpas nos sindicatos” por não ter conseguido evitar a greve da CP, que paralisou o país.

É então que o espírito combativo – que há quem diga que lhe falta, como vai ver já abaixo – vem ao de cima, quando é questionado se deseja boa sorte para o que ainda falta de campanha a Montenegro, uma vez que não se chegaram a cruzar por aqui: “Desejo boa sorte aos meus adversários, mas quero derrotá-los”.

Por agora, do lado socialista, não há apelos a maiorias absolutas. Apenas o apelo àqueles que possam ter “vergonha” ou estar “zangados” com o que se passou nos “últimos dois meses” – ou seja, o caso Spinumviva – para concentrarem o seu voto no PS.

O aquecimento do comício em frente ao Templo de Diana é feito por Carlos Zorrinho, Luís Capoulas Santos e pelo cabeça de lista Luís Dias. Este último fala numa “laranja podre”, num “primeiro-ministro a ‘part time’” e dá “um prazo de estabilidade” de um ano a um próximo futuro de Montenegro. Pedro Nuno limita-se a repetir o discurso com promessas de “estabilidade”.

foto José Sena Goulão / Lusa

Pedro Nuno, Maria Celeste tem um recado para si

Este artigo faz agora uma ligeira viagem no tempo. É final da manhã em Quarteira, Faro. Maria Santos aguarda na esquina, com a caixa de plástico laranja repleta de caracóis. O dia aquece e ela faz questão de aproveitar a mais recente arma socialista nesta campanha: os chapéus. “Vamos lá vender o caracol todo hoje.” Pedro Nuno Santos, que está para chegar, é o candidato preferido desta mulher. Cigana, num distrito onde o Chega levou a melhor nas últimas legislativas e onde, diz, sente a discriminação na pele todos os dias. “Este é que é o nosso, domingo lá estamos presentes, vou votar antecipado.” A memória fica para o futuro na fotografia abaixo, onde ela veste padrão leopardo.

O caracol tem os corninhos ao sol. Se na concertina o mar enrola na areia, o que a caravana socialista quer é mergulhar no mercado semanal de Quarteira. Ao fim dos primeiros metros, Pedro Nuno é beijado por Maria Santos. A mulher não cabe em si, segura a rosa oferecida com as duas mãos. “Foi um sonho, vejo-o tanto na televisão.”

foto José Sena Goulão / Lusa

Maria Celeste Tavares prefere não se misturar na confusão, não quer ser filmada pelas televisões. Mas tem um recado que quer fazer chegar a Pedro Nuno Santos – vamos tentar por esta via. Mulher negra, cabo-verdiana de nascimento, portuguesa de coração, país onde vive desde 1976. “Sou portuguesa, em qualquer lado aonde vou tenho saudades é de Portugal.” O problema é que, nos últimos tempos, sobretudo desde que o Chega ganhou no Algarve, os ataques repetem-se: “A culpa é sempre dos imigrantes e dos ciganos”.

“Ele [Pedro Nuno] é nosso. Não é o Chega que luta por nós. E ninguém nos defendeu mais do que o António Costa. O Pedro Nuno tem carisma, tem tudo, mas a minha tristeza é que ele está isolado. Falta a alma de combate do António Costa. Chegou a hora de dar o murro na mesa porque nós estamos com ele”, desabafa, sem dar margem para interrupções. Como se tivesse isto engasgado há muito para dizer.

foto José Sena Goulão / Lusa

“Não queremos mais Solverde.” E ainda: “Baixe lá o IVA do chouriço e do toucinho”

Quando Maria Celeste termina o que tem para dizer, já a comitiva circula entre as bancas do mercado semanal de Quarteira. “Não queremos mais Solverde”, diz um dos elementos da comitiva, numa referência à empresa que pagava uma avença à Spinumviva de Luís Montenegro.

E o sol, quando brilha, pelo menos no Algarve, não é para todos. Pedro Santos tem a família toda a vender. São ciganos, não desgostam de Pedro Nuno Santos. Do Chega é que não. Desde que o partido de André Ventura ganhou na região, sente que a discriminação aumentou. “Muitas bocas disfarçadas.”

E é de imigração que se fala quando a caravana parte. Depois de um beijinho a Pedro Nuno, Cristina Rodrigues – não confundir com a deputada do Chega – puxa o tema. “Quero que ganhe este. É maduro quando fala, o outro nunca gostei dele.” Foi emigrante em França, mas acha que por cá se está a viver uma “invasão”. Tece argumentos que mais a aproximariam do discurso de André Ventura. Só que com o Chega não quer nada: “Esses só para anedotas”.

foto José Sena Goulão / Lusa

Antes da despedida, um último pedido de um feirante, José Correia. “Baixe lá o IVA do chouriço e do toucinho.” Estes enchidos não entram na lista de produtos com IVA Zero com que o PS tem acenado nos mercados. O toucinho está a 8,90 euros o quilo. “Não peço zero, só estar nos 6% ou nos 13%.”

Pedro Nuno faz cara de quem vai ponderar. De Faro sai cheio de confiança, a confiança de que neste distrito “o Chega não venceu nas europeias e não vai vencer nestas eleições”. Para vincar a posição, ao almoço lembra o trabalho feito na eletrificação da ferrovia ou no fim das portagens na Via do Infante.

A despedida é com um aviso a Montenegro: “Há uma batalha a travar ao longo dos próximos dias”.

foto José Sena Goulão / Lusa

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