opinião
Diretor de Assuntos Públicos na ALL Comunicação e ex-adjunto nos Governos de António Costa

Testosterona a mais, política a menos

6 mai 2025, 17:56

Acabaram os debates. E no rescaldo confirmou-se o principal receio desta campanha: o país está a repetir-se. Um ano depois, cá estamos outra vez. Os mesmos protagonistas, os mesmos programas com ligeiras emendas e um eleitorado a ouvir tudo pela segunda vez, com menos paciência e mais desconfiança.

Em parte, tudo isto é natural. Ninguém reinventa uma democracia em 12 meses – e nem é aconselhável fazer uma revolução programática em tão pouco tempo. O mundo e o contexto político mudaram bastante neste ano que passou, mas estes não são temas de que os partidos gostem de falar em campanha eleitoral. Falar da contração da economia, dos riscos sistémicos ou das crescentes tensões militares não atrai votos e pode ter um efeito alarmista, pouco recomendável nesta fase. Infelizmente, também era antecipável que estes temas iam ficar de fora da campanha.

Contudo, entre repetições e omissões, houve uma coisa que mudou – e muito – desde as últimas eleições legislativas: a relação entre os únicos dois partidos que podem ambicionar governar. E mudou para pior. Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos estão hoje mais longe de entendimentos, ainda que pontuais, do que estavam há um ano. O que seria apenas mais um dado político se não fosse, neste momento, o maior obstáculo a qualquer solução de estabilidade.

Luís Montenegro partia para esta campanha com dois fatores a seu favor para se manter no cargo. Primeiro, não está desgastado – um ano de governação é curto para deixar rasto ou lastro. Segundo, conseguiu instalar a narrativa de que foi injustiçado por um sistema que “não o deixou trabalhar”. É certo que foi ele quem provocou a dissolução, que foi ele quem preferiu eleições e que foi ele quem optou por não esclarecer mais cedo todas as dúvidas sobre a Spinumviva. No entanto, conseguiu capitalizar politicamente a queda do Governo, como se tivesse sido de facto empurrado para a demissão contra a sua vontade. É um truque antigo, mas, aparentemente, ainda funciona. 

Pedro Nuno Santos, por sua vez, chega à sua segunda campanha legislativa mais cedo do que desejaria. Começou por prometer uma oposição exigente, mas construtiva – e foi-o. Ajudou a eleger o Presidente da Assembleia da República, não se colocou ao lado de quem quis rejeitar o Programa do Governo logo no início da legislatura, apoiou o Orçamento do Estado, e votou contra as moções de censura. Fê-lo com titubeações a mais, hesitando entre a imagem de um líder rebelde e um candidato credível à chefia do Governo. Mas lá foi tentando fazer a tal “oposição responsável”. Quando se preparava para levantar a voz, ganhar espaço e autonomia e começar com os sempre adiados Estados Gerais, caiu-lhe uma crise política em cima. O resultado? Um líder que foi demasiado ponderado quando era preciso romper e demasiado comedido quando era preciso afirmar-se.

Os debates serviram para pouco mais do que evidenciar isto mesmo: mostraram um Montenegro pouco desgastado e que se ausentou de quase metade deles – um luxo perigoso para quem lidera o governo menos apoiado da nossa democracia – e um Pedro Nuno Santos que tenta virar a página sem ter acabado de escrever a anterior.

O caso da empresa de Montenegro poderia tê-lo fragilizado. Mas a oposição julgou mal o tom - e o eleitorado, como quase sempre, parece condenar o comportamento do Primeiro-Ministro, mas não ao ponto de mudar o seu sentido de voto. Em resumo, os portugueses parecem considerar o caso Spinumviva condenável, mas irrelevante em termos eleitorais, como se fosse apenas mais um episódio numa longa série de escândalos a prazo.

É essa a razão pela qual, segundo nos vão revelando as tendências das sondagens, voltaremos a ter um Parlamento fragmentado, um Chega forte e sólido no terceiro lugar e uma impossibilidade quase aritmética de governar sem diálogo entre PS e AD. E é aí que os sinais que saem deste arranque de campanha e desta ronda de debates são verdadeiramente preocupantes:  a animosidade entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos cresceu ao ponto de a relação entre ambos ter chegado a aparente ponto de não retorno. Há mais ressentimento do que estratégia, mais rancor do que tática, mais testosterona do que política.

O país não precisa de que os dois principais líderes partidários sejam amigos. Mas precisa de que se falem, não que se antagonizem, que dialoguem, não que se hostilizem.  No dia 19 de maio, respeitando os votos populares que lhes irão ser confiados, vão ter de estar a discutir o futuro do País um com o outro. Ora, com a conjuntura internacional a mudar de forma drástica, com a provável fragmentação parlamentar, com o PRR a entrar na fase final, com a possibilidade de vivermos uma recessão global e com a impossibilidade de termos novas eleições até maio do próximo ano, o mais preocupante, neste momento, não é mera hipótese de ingovernabilidade. É mesmo perceber que, para ambos, um país parado parece ser um preço aceitável, desde que seja o outro a pagar.

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