Folhetim de Voto: Isto vai bipolarizar (ainda mais)

20 jan, 06:36
O presidente do PSD, Rui Rio, durante um contacto com a população da Viseu

PSD a subir, PS a descer, diz a tracking poll da CNN Portugal. Conforme o PSD acredita que pode chegar lá, e o PS escorrega, vai aumentar a pressão para o voto útil à esquerda e à direita. O que acabará por reforçar o centrão, contrariando as últimas legislativas, escreve o jornalista Filipe Santos Costa na análise diária à campanha. Faltam 11 dias para as eleições. 

 

Debate. Esta quinta-feira acontece o último debate desta campanha, organizado pelas principais rádios, entre os líderes dos partidos com assento parlamentar. Mas não todos. Rui Rio e André Ventura decidiram faltar, pelas mesmas razões: querem cumprir a agenda de campanha, em vez de fazerem mais um debate. É claro que, estando os debates todos marcados há muito, e tendo os partidos concordado com o calendário, fazer o debate de hoje seria cumprir a agenda de campanha. Haverá outra razão, igual para ambos.

Rio e Ventura querem minimizar os riscos. O líder do PSD, porque ganhou fôlego com os últimos debates, e não quer deitar a perder o que ganhou. Recorde-se que, em 2019, o segundo debate com Costa e o segundo debate com todos não correram bem a Rio. Ventura, porque perdeu terreno com os debates e não quer acentuar ainda mais essa tendência. O discurso da extrema-direita resulta melhor na rua, sem contraditório, do que a ser cortado às postas pelos adversários na tv.

 

Sondagem. Olhando para a evolução da tracking poll da CNN, fica transparente o cálculo político de Rio e de Ventura. O efeito dos últimos debates televisivos do líder do PSD impulsionou uma tendência de aproximação ao PS. Nunca estiveram tão perto desde que a CNN começou a divulgar esta evolução diária. Apenas 8,3 pontos percentuais os separam, pelo efeito combinado dos ganhos do PSD e das perdas do PS. Pode argumentar-se que, ainda assim, são oito pontos de diferença. Mas a utilidade de uma tracking poll, mais do que estimar valores concretos, é identificar tendências. E, nos últimos dias (ou seja, desde que o painel de inquiridos reflete, na íntegra, as opiniões após o debate Costa/Rio) a tendência é clara, e favorece o PSD.

 

António Cavaco. Um exercício de análise como este inclui necessariamente uma boa dose de subjetividade. É uma cabeça a olhar para uma realidade - e, já se sabe, cada cabeça sua sentença. Aqui vai a minha: relaciono a erosão recente do PS com o pedido assumido de maioria absoluta e, sobretudo, a ideia de arrogância que lhe está associado. Talvez não tenha sido uma grande ideia aquele comício pop up após o debate com Rio, em que Costa encarnou Cavaco em registo “deixem-nos trabalhar!”. Não só contrariou décadas de narrativa do PS sobre maiorias absolutas, o que pode ter criado uma perceção de oportunismo, como acentuou uma imagem de autossuficiência arrogante. É um tiro que Costa terá de corrigir.

 

A dois. Por outro lado, a tracking poll atesta a tendência de bipolarização, de que já falei aqui, no Folhetim de Voto. O que terá como resultado o reforço do bloco central. Após quatro eleições legislativas em que a soma dos dois partidos do centro ficou abaixo dos 70%, arrisco apostar que no dia 30 essa fasquia será superada. Talvez com folga. 

Curioso número, como diria Mota Amaral sobre o número que vem antes do 70: desde a estabilização da democracia, nunca a política portuguesa se mostrou tão radicalizada. E, porém, o centro está a caminho de reforçar o seu peso. À medida que o PS assume a ambição maioritária, a direita responde com o voto útil. E, à medida que o PSD capitaliza nas sondagens, haverá uma probabilidade de o PS conseguir também chamar o voto útil da esquerda. Veremos. 

 

Tiro ao PS. Com a aproximação do PSD e com o PS a chamar a maioria absoluta pelo nome, a ameaça do voto útil nunca foi tão presente à esquerda. Compreende-se, por isso, que o alvo de Catarina Martins e de João Oliveira (líder interino do PCP em campanha) seja, quase em exclusivo, o PS. Quando referem o PSD, é quase sempre para por o partido de Rio em paralelo com o de Costa, como sendo farinha do mesmo saco. Oliveira, em Loures, apontou contra a “tralha ideológica do voto útil”, uma curiosa expressão. Martins, em Lisboa, garantiu que “os negócios mais ruinosos para o país” aconteceram com maiorias absolutas de um só partido (um bom soundbite, que tem um problema: indica que, para o BE, os negócios do governo Passos/Portas não foram assim tão ruinosos). Até ao fim, a campanha de PCP e BE será contra a maioria absoluta do PS. O que cria uma assimetria interessante, pois não se vê o mesmo à direita. Até porque Rio já garantiu que não há hipótese de o PSD chegar a essa fasquia. 

 

A questão. Há uma questão que o provável reforço do centro necessariamente coloca. Perante os resultados de 2019, com o crescimento do PS e o reforço da maioria de esquerda, António Costa concluiu que o eleitorado estava a pedir aos socialistas que continuassem a liderar o entendimento de toda a esquerda - sabemos que não foi isso que aconteceu (desde logo porque o PCP se colocou de fora de uma nova geringonça), mas foi essa a leitura do líder socialista. E se, no dia 30, a grande mensagem do eleitorado for o reforço dos partidos do centro, sem maiorias absolutas? Costa, que há três anos concluiu pelo incentivo ao entendimento das esquerdas, concluirá agora que os eleitores pedem um entendimento de bloco central?

Rui Rio responde que sim, por isso tem defendido que o segundo partido deve viabilizar a governação do que ganhar. Costa nada diz sobre isso. Neste ponto, a mensagem de Rio é mais clara e coerente. Costa limita-se a fugir à questão. 

 

Fungagá. Outra prova de que Rio está em alta é que lançou uma tendência no Twitter: a dos políticos que publicam fotos dos seus animais de estimação. Sabe-se que vídeos e fotos de gatinhos são tiro e queda, sempre com sucesso garantido nas redes sociais. Mas os políticos nem sempre exploram esse filão. Rio já o tinha feito há uns dias, e voltou a fazê-lo ontem, publicando uma foto do gato Zé Albino, aparentemente “desolado com esta aproximação do PAN ao PS”. Inês Sousa Real não se ficou e respondeu, na mesma rede social, que o Zé Albino vota no PAN. Os tweets com fotos do Zé Albino são dos mais populares no feed de Rio e, talvez por isso, Rui Tavares mostrou o seu gato Camões, João Cotrim Figueiredo publicou uma foto com a cadela Bala, e Ventura foi buscar a coelha Acácia.

 

Nós, pimba. A dinâmica que o PSD parece mostrar nas sondagens também se nota na rua. As imagens da campanha laranja deste ano nada têm a ver com as de 2019. A campanha esquálida e triste, sem máquina partidária, quase sem notáveis, sem alegria nem ponta por onde se lhe pegasse, arrastando-se de norte a sul como cão sem dono, que Rio protagonizou há três anos, não podia contrastar mais com o que se vê agora. O Miguel Santos Carrapatoso escreveu no Observador esta reveladora reportagem mostrando as diferenças entre uma campanha e outra. Até com fotos de Rio nos mesmos lugares, num caso um homem só, noutro um homem bem acompanhado. Há gente na rua, há alegria, parece haver crença nas hipóteses de vitória. Há, acima de tudo, a encenação mediática da bolha partidária - aquilo de que Rio diz ter horror, mas a que este ano está alegremente a recorrer. O líder que diz recusar a política-espetáculo vai ter o cantor Emanuel a animar ações de campanha do PSD. Pimba!

Com tanta gente na rua a criar uma onda laranja, que já se viu em Barcelos e em Lisboa, na Guarda e em Castelo Branco, não há como escapar à ironia: Rio no meio de uma multidão de gente a acotovelar-se, sem sombra de distanciamento, como se já não houvesse pandemia, enquanto denuncia de falta de segurança sanitária para o voto dos que estão em isolamento no dia 30.

 

Por falar em ironia. André Ventura foi a Viseu, onde andou num jogo do gato e do rato com Rio, que também por ali andava - e aproveitou para fazer fogo sobre o líder do seu antigo partido. Ventura, recorde-se, foi militante do PSD até sair para criar o seu partido de extrema-direita. Estava no Conselho Nacional do PSD durante a liderança de Passos Coelho, e foi Passos quem o escolheu para candidato à câmara de Loures, contra tudo e contra todos. Por esses tempos, Rio não fazia parte de nenhum órgão do PSD e era um dos críticos internos de Passos. Ontem, em Viseu, Ventura quis reescrever essa história, imputando a Rio responsabilidades pelo governo de PSD-CDS, aquele que Ventura apoiava e Rio criticava. O Chega não precisa de contratar cantores pimba para ter grandes artistas em palco. 

 

Última hora. Está resolvido o imbróglio: quem no dia 30 estiver em isolamento por causa da covid-19 poderá sair de casa para votar. Mas só mesmo para votar. E de preferência na última hora do período de votação, entre as 18h e as 19h. Não é uma imposição - porque não há lei que respalde essa regra - mas é uma recomendação. Uma solução à portuguesa, depois de a Assembleia da República, o Governo e o Presidente da República terem sido incapazes de antecipar o problema. Cada país tem os políticos que merece. Somos portugueses, estranho seria se tivéssemos políticos suecos ou alemães.

 

Frase do dia. 

“É evidente que é uma piada, e acho bem, isto tem de ter algum humor.”

Rui Rio, sobre a disponibilidade de Ventura para ser vice-primeiro-ministro de um Governo com o PSD

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