Folhetim de Voto: 55 detalhes que lhe podem ter escapado no debate

18 jan, 07:13
Debate entre partidos com assento parlamentar (PEDRO PINA/RTP/LUSA)

O que nos dizem os detalhes do debate entre todos os líderes dos partidos com representação parlamentar? Provavelmente nada. Mas, depois de duas semanas a olhar para o essencial do que disseram os líderes em 30 frente-a-frentes, o jornalista de política Filipe Santos Costa foca a sua coluna diária de análise e opinião à campanha em... pormenores. Sempre se varia. Faltam 13 dias para as eleições

Acabou ontem à noite o ciclo de debates entre os líderes dos partidos com assento parlamentar. Foi bom enquanto durou, mas tudo o que é demais é moléstia. O grand finale foi todos contra todos que, na realidade, foi todos contra Costa, que isto de ser incumbente não pode ser só vantagens. Quem vai à guerra dá e leva, e ninguém saiu ileso do debate final na RTP. Corrijo: segundo este quadro feito pelo Expresso com a contabilidade dos ataques desferidos ao longo das duas horas de debate, Rui Tavares passou incólume pelo meio do fogo cruzado - ninguém criticou ou atacou o Livre, o que devia dar razões de preocupação ao partido.

A tabela feita pelo Expresso também nos revela outro pormenor importante do debate de ontem: foram muitos mais os ataques da esquerda à própria esquerda do que da direita à direita. O voto útil explica uma parte deste fenómeno: Costa tem apostado tudo na bipolarização e no apelo do voto útil à esquerda, e só ontem Rui Rio tentou fazer o mesmo, o que provocou uma reação enérgica dos partidos à sua direita. Mas é muito mais do que isso. A geringonça dividiu a esquerda, a possibilidade de um entendimento à direita une-a.

Sendo evidente que nesta altura do campeonato já ninguém tem grandes dúvidas sobre o que cada líder quer e promete, revela e esconde, proponho que olhemos para outros pormenores reveladores do debate de ontem. Não as grandes linhas programáticas ou as grandes estratégias pós-eleitorais, mas aqueles detalhes que dizem muito. “São os detalhes que formam a imagem grande”, li numa sábia citação não sei de quem. Há quem diga que deus está nos detalhes. Há quem jure que é o diabo. Provavelmente têm ambos razão, se deus e diabo existirem. Os detalhes, esses, existem mesmo. E não são detalhes, como veremos, nesta série de apontamentos que fui fazendo, de forma mais ou menos aleatória, ao longo das duas horas de debate.

  1. António Costa levou a mesma gravata verde a todos os debates. A mensagem sobre a necessidade de estabilidade começou no guarda-roupa.

  2. Não foi só a gravata: Costa apresentou-se com o mesmo look em todos os debates. O que prova a centralidade de Marcelo Rebelo de Sousa na política portuguesa contemporânea. Para além de ter invocado Marcelo como garantia contra os riscos das maiorias absolutas, Costa inspirou-se em Marcelo na mania de andar sempre com o mesmo outfit.

  3. Rui Tavares, João Cotrim Figueiredo e Francisco Rodrigues dos Santos (a.k.a. Chicão) apresentaram-se sem gravata o que, como se sabe, transmite uma mensagem subliminar de informalismo e liberdade. Pelo menos é o que garante o Google.

  4. João Oliveira e Catarina Martins apresentaram-se como perfeitos burgueses. 

  5. Rui Rio gosta de rir. Mas isso já sabíamos desde a véspera. Rio está nisto “com alegria, e também pelo humor”.

  6. “Aquilo que se vai decidir é se o primeiro-ministro é António Costa ou se sou eu”. Depois de toda uma pré-campanha em que foi incapaz de apelar ao voto útil à direita, optando antes por namorar os eventuais parceiros desse lado, e chegando ao cúmulo de sugerir o voto no CDS como boa alternativa ao voto no PSD, Rio decidiu apostar na bipolarização e no apelo ao voto útil.

  7. O adjetivo “absoluta” depois do substantivo “maioria” já não queima a língua a António Costa.

  8. Após ter citado uma expressão de José Ribeiro e Castro para chamar “interjeição” ao Chega, e depois de ter parafraseado o antigo deputado do CDS Cunha Simões para lançar a Ventura o célebre insulto sobre o “esquadrão de cavalaria”, Rodrigues dos Santos continua a ir buscar frases célebres ao baú do CDS. Ontem foi um aforismo de Adriano Moreira: “o voto só é útil para quem o recebe”.

  9. Ventura garantiu que “se o Chega tiver uma votação expressiva, acima dos 7%, exigirá presença no Governo. Porque olhamos para a experiência dos Açores e não correu bem.” Costa sorriu.

  10. Rodrigues dos Santos admitiu repetir no país a experiência dos Açores, que acha que está a correr bem. Costa sorriu. 

  11. Cotrim Figueiredo acusou Costa de estar a “dramatizar” as eleições, depois de ter repetido várias vezes que quase tudo o que Costa tem dito é de “extrema gravidade” e até “particularmente grave”.

  12. As pessoas dizem coisas estranhas aos políticos em campanha. Segundo Catarina Martins, por exemplo, as pessoas pedem-lhe “entendam-se!” (entendam-se à esquerda, entenda-se). Pena que só lhe tenham pedido agora, depois do caldo entornado à esquerda. Outra curiosidade: também de acordo com Martins, nunca “ninguém vem pedir uma maioria absoluta” ao BE. Vá lá saber-se porquê.

  13. “Estabilidade” e “convergência”: duas palavras que entraram diretamente para o top das mais usadas por Catarina Martins e João Oliveira.

  14. Segundo os cálculos do economista Rui Rio, “a probabilidade de haver uma maioria absoluta seja do PS ou do PSD é muito próxima de zero”. Segundo o que dizem todas as sondagens, o PS está mais próximo da maioria absoluta do que o PSD de ganhar as eleições. 

  15. António Costa foge da hipótese de entendimento ao centro, com PSD, como o diabo da cruz. Não foge no sentido em que garante que tal não acontecerá; foge a falar disso. São coisas diferentes.

  16. Rodrigues dos Santos ganhou o concurso para ser o primeiro a falar em Pedro Nuno Santos. Também foi o último. E o único.

  17. Costa sorriu bastante quando Chicão trouxe Nuno Santos para o debate. Aliás, os planos gerais mostraram a esquerda bastante divertida enquanto Rodrigues dos Santos falava, como se fosse um comic relief do debate. Chicão também pareceu contente consigo próprio.

  18. Cotrim Figueiredo ganhou o concurso para ser o primeiro a falar em José Sócrates.

  19. André Ventura ganhou o concurso para ser o primeiro a falar em Ricardo Salgado e em João Rendeiro. Também ganhou o concurso para ser o último a dizer Sócrates.

  20. “O que é importante é moralizar”, disse o líder do Chega. Ou seja, o líder do partido que foi condenado em tribunal por insultar uma família por ser pobre e negra. O líder do partido cujo candidato a uma autarquia desatou aos tiros na rua. E também o líder do partido que está a ser despejado de uma sede por não pagar a renda. Moralizar, diz ele.

  21. Chicão garante que há uma “ala bolchevique” no PS.

  22. Chicão garante que não fará “arranjinhos com a esquerda nem com a extrema-esquerda”.

  23. Rui Rio surpreendeu tudo e todos com a declaração “eu não concordo muito com a dra. Catarina Martins”.

  24. Segundo Ventura, há muitas “coisas que têm de ser ditas” e há sempre mais “uma realidade que temos de enfrentar”. “E isto ninguém diz”.

  25. Mesmo sem anunciar que ia dizer coisas que têm de ser ditas, Rui Tavares tocou onde dói: o bordão de linguagem de António Costa, aquele irritante “Vamos lá ver”, que o líder socialista repete no início de cada resposta (pronuncia-se “m’lá ver”). Costa riu-se com desvelo.

  26. Sem anúncios grandiloquentes de que há “uma realidade que temos de enfrentar”, Rui Tavares enfrentou uma realidade que temos de enfrentar: “Às vezes temos a sensação de que o País é como a Seleção, joga para o empate.”

  27. Há que dizê-lo com frontalidade (e isto ninguém diz): Costa recorre a toda a sua capacidade zen sempre que Catarina Martins está a falar. Mas mesmo assim por vezes não consegue esconder a irritação.

  28. Chicão fala sempre como se tivesse ingerido cinco bebidas energéticas antes dos debates. E quando não está a falar, está em sofrimento por não poder interromper os “colegas de debate”.

  29. Só Inês Sousa Real e Catarina Martins foram interrompidas quando estavam no uso da palavra. Quase sempre por Ventura e Chicão, que falavam por cima das duas mulheres em estúdio. Pode ser coincidência. Também pode ser machismo e misoginia.

  30. Sempre que mandava bocas para a geral, Ventura olhava para o lado, a ver se os parceiros de trincheira alinhavam. Rodrigues dos Santos foi apanhado várias vezes a rir-se com as proezas do líder do Chega.

  31. Por vezes a realização mostrou Chicão e Ventura a bichanar. Não pareciam os mesmos que quase arrancaram olhos quando estiveram frente-a-frente.

  32. João Oliveira diz rigorosamente aquilo que diria Jerónimo de Sousa, mas como se fosse um Jerónimo cafeinado. Ganhou-se em energia o que se perdeu em ditados populares.

  33. Rui Rio não está agarrado ao poder no PSD. A garantia é do próprio. “Se eu estou muito agarrado [ao cargo]? Não estou.” Então, sai se perder outra vez as legislativas? “Logo se vê. Depende da minha vontade, da vontade do partido, do resultado eleitoral, que tem um leque alargado, não me parece que vá ser uma diferença muito grande entre os dois”. Para além disso, lembrou que ainda agora recebeu “um mandato de mais 2 anos”. Uma garantia pode dar: “No dia [das eleições] à noite não saio, isso é uma manobra teatral.” Aposto que não sai nem nessa noite, nem nos dias, semanas e meses seguintes. Se ficar acima de 30%, Rio não sai pelo seu pé. E talvez até se ficar abaixo.

  34. Inês Sousa Real, que não é de direita nem de esquerda mas apoiou todos os orçamentos do PS, ficou do lado esquerdo do friso, entre Rui Tavares e João Oliveira.

  35. Sobre cenários pós-eleitorais, a líder do PAN não consegue escolher entre o rosa e o laranja. Mas traçou uma linha vermelha: acabar com os apoios às touradas, e acabar com as próprias touradas. 

  36. Costa é um expert a fugir às perguntas. Rio é especialista em “enquadrar a questão.”

  37. Rio tem um registo de mestre escola, enfatizando as palavras, nalguns casos quase soletrando-as: “ne-go-ciar”; “va-lor abso-luto”, “im-po-ssí-vel”; “maaaaais”; “or-ga-ni-zarmos”; “ra-cio-na-li-zarmos”; “a-ti-tu-de”; “re-for-mis-ta”.

  38. Ventura falou em “décadas de bandidos a roubar o nosso país”, “o país em que todos gamam e ninguém vai para prisão”- a realização não mostrou o palito no canto da boca, mas estava lá de certeza.

  39. Rui Rio levou para o debate uma folha do programa do PSD que, em duas páginas, refere duas vezes a defesa do SNS “tendencialmente gratuito”. Não levou a folha da proposta de revisão constitucional em que, sobre o SNS, o PSD fez desaparecer a expressão “tendencialmente gratuito”.

  40. Cotrim Figueiredo elogiou as políticas liberais da Alemanha e da Holanda, o sistema de Saúde da Alemanha e da Holanda e o desempenho da Alemanha e da Holanda durante a pandemia. Os liberais da Alemanha e da Holanda queixam-se dos seus sistemas de saúde, os holandeses denunciam o excesso de restrições às liberdades dos cidadãos por causa da pandemia, e os alemães assistem horrorizados à imposição da vacinação obrigatória na Alemanha.

  41. O líder do CDS falou de um “Manel que está há 4 anos à espera de uma consulta de oncologia e não a tem no SNS”, porque é pobre e não tem escolha. Espera-se que a comunicação social entreviste esse Manel, e que o Livro Guiness de Recordes lhe dê o reconhecimento merecido.

  42. Denúncia de João Oliveira: “O SNS está a ser alvo de um processo de desmantelamento dia a dia, serviço a serviço, médico a médico”. Por quem? Pelos “grupos privados” que “cirurgicamente (boa escolha de palavra) retiram os médicos dos hospitais públicos”. Porque querem ter os melhores profissionais? Não. Apenas “para garantir que a resposta não exista no público e tenha que ser dada no privado”.

  43. Cotrim conhece o relatório da OCDE que valida a boa resposta do SNS português. Apesar desses factos, alertou que “gerir e fazer política é pensar no futuro e vamos para um sítio que não é bom”. Portugal compara bem com os outros países, mas Cotrim sabe que isto vai correr mal.

  44. Promessa de Rui Rio: “Eu não quero fazer uma revolução, eu não quero partir tudo. Eu quero mudar o rumo.”

  45. Chicão defende “critérios objetivos, transparentes, que têm de ser definidos” para que todos os alunos possam aceder às melhores escolas. Naturalmente não explicou quais são esses critérios.

  46. O líder da IL acusou Costa de fugir às perguntas do moderador. Carlos Daniel perguntou ao líder da IL se a taxa fixa de IRS que defende não irá beneficiar sobretudo os mais ricos. Cotrim respondeu “Nós estamos relativamente pouco importados com aquilo que se passa nos escalões muito altos de rendimentos”. E fugiu à questão.

  47. Rui Tavares acusou Cotrim de fugir à questão. E respondeu: “a resposta é sim”, a taxa fixa de IRS que a IL defende favorece sobretudo os mais ricos.

  48. Cotrim fez propaganda ao simulador fiscal que a IL criou no seu site (até levou uma folha para mostrar na tv o endereço do site). Nem o simulador fiscal da IL desmente que quem mais ganha com a taxa fixa de IRS proposta pela IL são os mais ricos.

  49. “Aqueles quatro dirigentes da direita que ali estão” - disse Catarina Martins, apontando-lhes o dedo - “estão os quatro implicados, ou porque tinham cargo de responsabilidade nos partidos, ou cargo de nomeação dos partidos PSD e CDS, no tempo da troika, em que houve os maiores cortes no SNS, os maiores cortes das pensões, disseram que havia professores a mais, cortaram nos salários da função pública”. Não é verdade. Rio foi dirigente nacional do PSD, mas não no tempo de Passos - era, aliás, crítico interno de Passos. Ventura nunca foi ninguém no PSD, a não ser quando Passos o escolheu para candidato autárquico - e já Passos não governava. Cotrim foi presidente do Turismo de Portugal no Governo PSD-CDS, e nada indica que tenha tido responsabilidades na Saúde, Segurança Social ou função pública. Chicão não tinha idade.

  50. Chicão fala em “escravatura fiscal” e “overdose de impostos”. Desta vez não usou a palavra “pornografia”.

  51. Ventura está tão preso ao passado que acha que ainda existe a Checoslováquia. 

  52. Cotrim fez alguns dos ataques mais violentos do debate contra Costa. Tavares fez as críticas mais violentas contra Cotrim. Ninguém atacou Tavares.

  53. Rui Tavares diz “fezada”.

  54. Chicão, que está com intenções de voto perto de 1%, usou a sua declaração final para dar pancada no PAN, um partido que tem cerca de 2% das intenções de voto.

  55. Costa queixou-se de “levar pancada de todos”.

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