Folhetim de Voto: Ontem foi o dia decisivo

21 jan, 06:25
Legislativas: António Costa e Catarina Martins no debate nas rádios

Duas sondagens dão PS e PSD em empate técnico. Pode ser o momento de viragem para os dois maiores partidos, para o bem ou para o mal. Embalada, a direita já fala em lugares no Governo, enquanto a esquerda continua em fogo cruzado. O que reforça a perceção pública de que haverá mais soluções de maioria à direita, e acentua a ideia de esgotamento à esquerda, escreve o jornalista de política Filipe Santos Costa, na análise diária da campanha. Faltam 9 dias para as eleições

 


Inédito. É provável que esta quinta-feira tenha sido o dia decisivo para as eleições de 30 de janeiro. Foi o dia em que mudou a perceção do que está em causa, e da força relativa dos dois principais partidos. PS e PSD estão em situação de empate técnico, segundo a tracking poll diária da CNN Portugal e a sondagem semanal do Público. Ou seja, a vitória do PS não está garantida - e menos ainda a maioria absoluta -, e a derrota do PSD não é uma fatalidade. Sobretudo porque a tendência é de crescimento do segundo e encolhimento do primeiro. 

 

Empate técnico. Numa semana, tudo mudou. Os debates finais e a campanha eleitoral fizeram bem ao PSD e mal ao PS. A tendência mantém-se e reforça-se: segundo a nossa tracking poll, todos os dias a opinião dos eleitores em relação a António Costa piora, e todos os dias a opinião em relação a Rui Rio melhora. O reflexo é a aproximação dos dois partidos. Na sondagem do Público, estão a 4 pontos de distância. Na tracking poll da CNN, apenas 3,6 pontos. Mais: a soma de toda a direita e a soma de toda a esquerda indica que a maioria no Parlamento tanto pode cair para um lado como para o outro, pois a direita está toda a subir (com a exceção do CDS) e a esquerda está toda a descer (com a possível exceção do Livre).

 

Coincidência. Há uma semana, no arranque da tracking poll da CNN Portugal, feita pela Pitagórica, PS e PSD estavam separados por quase dez pontos percentuais - a mesma margem que se tem verificado desde as eleições de 2019; ao fim de sete dias, essa vantagem caiu para menos de metade. Tendo em conta a margem de erro, 3,6 pontos percentuais de distância significa empate técnico, que pode dar vitória a qualquer dos partidos. Apesar da vantagem do PS, o melhor cenário admitido para o PSD dá os sociais-democratas com mais deputados do que os socialistas.

O movimento é semelhante na sondagem do Público, feita da Universidade Católica. A vantagem socialista, que era de nove pontos há uma semana, deu um trambolhão para apenas 4. Também neste caso, embora a probabilidade de vitória do PS seja maior, a conjugação do melhor cenário do PSD com o pior cenário dos socialistas dá o partido de Rui Rio com mais um deputado (100 contra 99).

 

Decisivo. Com uma semana de campanha pela frente, este é o momento decisivo. Costa conseguirá conter os danos e inverter a tendência? Rio será capaz de manter o momentum? Para além do desgaste natural de seis anos de governo e do esgotamento de uma solução de maioria, parece haver algum desnorte tático do lado socialista. Ao contrário dos sociais-democratas, que se apresentam com uma máquina bem oleada e um discurso menos armadilhado do que aquele em que António Costa se embrenhou. A campanha de Rui Rio “é tão profissional que nem parece ser profissional”, notou ontem o Pedro Santos Guerreiro. É uma campanha toda construída em torno da imagem de Rio, quase obliterando a marca PSD (oiça-se o hino de campanha, personalizado até ao limite, que nunca fala do partido e se foca exclusivamente nas qualidades do líder).

Qual o impacto deste empate técnico medido pelas sondagens? Pode mudar tudo. Há muitos indecisos - quase 1 em cada 4 inquiridos -, e a questão é quem será mais capaz de cavalgar esta incerteza e convencer os indecisos: se Rio, para continuar a crescer, se Costa, para inverter a queda. 

A ironia é que este salto do PSD pode ser o estímulo necessário para o voto útil a que Costa tem apelado à esquerda, como ontem notava o Rui Calafate, no programa Decisão 22, da CNN Portugal. “Quanto mais as sondagens derem crescimento e aproximação de Rui Rio e do PSD a António Costa, mais força dão ao cenário de maioria absoluta, porque a esquerda se vai assustar com esse crescimento, e a tendência do eleitorado do BE e do PCP, com medo de que a esquerda não chegue ao poder, e que caia o país à direita, mais facilmente caem no canto da sereia do voto útil.”

Há outra possibilidade, como atalhou, no mesmo programa da CNN Portugal, a Inês Serra Lopes: a insistência de Costa na maioria absoluta pode alimentar o crescimento do PSD, e ter o efeito contrário para os socialistas: “Quanto mais vezes António Costa fizer questão de maioria absoluta, mais está a dizer aos eleitores ‘não vale a pena votarem em mim se eu não tiver maioria absoluta’.”

 

Absoluto não. A improbabilidade (para não dizer impossibilidade) de uma maioria absoluta é um dos dados claros de todas as sondagens, reforçado com a evolução recente. A contravapor com esses indicadores, Costa diz ao Expresso de hoje que vê a maioria absoluta mais próxima do que nunca. “Pela primeira vez, acho que é possível.” É, como diria Rui Tavares, “uma fezada”, e nada mais do que isso. Com uma agravante: uma após outra, Costa vai dinamitando alternativas de maioria à esquerda, como voltou a fazer ontem no debate das rádios (já lá vamos). Nesta frente, quando se discutem eventuais entendimentos ou coligações, o discurso de Rio é bastante mais claro (apesar de continuar nebuloso o que fará com o Chega, parece evidente que aceitará negociar com o partido, mas sem o meter no Governo). 

 

“A esquerda é burra?” A pergunta é feita no título de um texto de opinião de Boaventura Sousa Santos, no Público de hoje. E faz sentido, olhando para o sarilho em que a esquerda se meteu: os mesmos partidos que se juntaram ao longo de seis anos estão agora em guerra civil; apoucam os resultados destes seis anos e, em muitos aspetos, dão gás a narrativas lançadas pela direita. Olhando para os ataques de todos contra todos do lado esquerdo do espectro político, alguém se espanta que uma parte do eleitorado procure à direita a capacidade de entendimento que não vê à esquerda? Se a estabilidade - tão louvada por Costa - só for possível com entendimentos de vários partidos, quem se mostra melhor posicionado para esse processo? Parece óbvio.

 

Lugares à direita. A confiança à direita é tal que Rui Rio até já fala no Governo que fará depois de dia 30. Tem “a estrutura do Governo na cabeça, e até alguns nomes”, disse ontem no Norte do país, onde esteve em campanha em vez de ir ao debate das rádios. Não revelou nem a estrutura nem nomes, mas mostrou abertura para dar ministérios ao CDS e à IL. Rio até admitiu que Francisco Rodrigues dos Santos poderá concretizar o sonho de ser ministro da Defesa, tendo em conta que já no passado dirigentes centristas ocuparam esta parte (Paulo Portas e Adelino Amaro da Costa). Chicão nem queria acreditar: “Ele disse isso?”. Cotrim Figueiredo revelou mais sangue frio, mas aos poucos as peças vão encaixando para um eventual governo à direita. Só André Ventura fica de fora, uma opção que - segundo disse em direto na CNN Portugal - é uma fantasia que Rio terá de explicar aos portugueses.

 

Guerra civil à esquerda. Enquanto a direita arruma a casa e distribui assoalhadas, a esquerda vai partindo o que sobra da geringonça. O debate das rádios foi sobretudo um debate das esquerdas, deixando bem à vista a guerra civil em que caíram os antigos parceiros. E até os novos - nem com o Livre e o PAN António Costa foi capaz de estabelecer bases de diálogo. Pelo contrário. Apesar de se apresentar como o campeão do diálogo, com créditos estabelecidos nos tempos em que governava Lisboa ou negociava entendimentos no Governo de Guterres, o secretário-geral do PS vai dinamitando todas as vias de entendimento possíveis. “Ele rebenta as pontes todas. Como é que este homem vai governar?”, questionava-se ontem à noite a Ana Sá Lopes, na CNN Portugal.

Amor com amor se paga. João Oliveira, o líder interino do PCP na campanha, denunciou um suposto “acordo tático” entre PS e PSD, apesar da evidente fratura entre os dois grandes partidos. Catarina Martins continua a ter o PS como principal alvo das suas críticas. E ambos, bloquistas e comunistas, acentuam o contraste com Costa, manifestando disponibilidade para voltar à geringonça que já não existe. Oliveira, que se tem mostrado bastante inspirado nestas funções de liderança interina, garante mesmo que o que Costa diz não se escreve, porque “uma coisa é aquilo que o PS diz e outra coisa é o que o povo vai decidir”: “Por muito que o PS queira limitar as suas possibilidades e opções apenas à hipótese de uma maioria absoluta ou de haver entendimentos com o PSD, o povo português pode dar uma resposta diferente dessa”. 

 

Três revelações do último debate. Ontem, no derradeiro de todos os debates eleitorais, organizado pelas rádios, Rui Rio e André Ventura faltaram, e o debate fez-se essencialmente entre as esquerdas. Nesta altura do campeonato já dificilmente há novidades, mas registei três revelações: uma por parte da IL, e duas do lado socialista.

 

  1. “Nunca pensei nisso”. A Iniciativa Liberal defende um governo mais pequeno, com menos ministérios. Sendo assim, que ministérios extinguiria? João Cotrim Figueiredo tentou fugir à pergunta direta, e acabou por confessar que não faz ideia. “Nunca pensei nisso.” Sabe apenas que “o número de ministérios é excessivo” e “há aí vários que poderíamos [extinguir]”, mas só conseguiu dar um exemplo - o Ministério da Coesão Territorial.

  2. “Foi o que foi”. António Costa tem dito que, se não tiver maioria absoluta nem conseguir a maioria com o PAN ou o Livre, irá governar “à Guterres”, com acordos pontuais com quem estiver disponível - o que reabre a possibilidade de conversas com a direita, pois Costa até lembrou que o primeiro Orçamento de Guterres foi viabilizado pelo CDS. “Se foi um bom modelo?”, perguntou Costa, e respondeu: “Foi o que foi.” É uma resposta extraordinária, que mina uma parte da sua narrativa: a alternativa que o líder socialista apresenta ao país, no caso de não conseguir uma maioria absoluta sozinho ou com novos parceiros sem PCP e BE, é algo que o próprio Costa acha que é uma má solução. Nem disfarça. Mas é o que tem. Assim fica difícil…

  3. “Bomba atómica”. Apesar de já ter acenado com acordos com o PAN e o Livre, no debate de ontem Costa parecia apostado em inviabilizar esses caminhos. O desaguisado com Rui Tavares foi particularmente inesperado, até por ter partido de uma acusação com pressupostos falsos. Costa encontrou uma “linha vermelha” no relacionamento com o Livre, relacionada com a suposta abertura do partido à energia nuclear. “Vamos divertir-nos um bocadinho”, reagiu Tavares, antes de explicar o básico: estar aberto à evolução da fusão nuclear nada tem a ver com a construção de centrais nucleares, a que o Livre se opõe. Foi um momento embaraçoso para Costa, que mereceu o melhor comentário de todo o debate, pela boca de João Oliveira. O representante comunista viu ali uma “bomba atómica” a destruir a “ecogeringonça” que Rui Tavares se tem esforçado por promover entre as forças da esquerda. 

 

A star is born? Se faz parte dos que ficaram bem impressionados com a prestação de Renata Cambra, do MAS, no debate dos pequenos partidos, pode ficar a conhecê-la melhor neste trabalho da Andreia Miranda, que foi a Coimbra conhecer melhor este novo rosto da esquerda. 

 

Recusa. Quase não dei por isso, mas o Público tinha ontem uma notícia muito relevante, praticamente perdida no meio de um texto sobre Pedro Nuno Santos. O ministro tem sido agitado pela direita como um papão, com o perigo de este suceder a António Costa e tentar fazer uma nova geringonça mesmo que o PS perca estas eleições. Segundo o Público, mesmo que Costa saia de cena e a esquerda tenha maioria no Parlamento, Pedro Nuno recusa a possibilidade de formar governo sem antes “ir a votos com o seu programa”. Ou seja, se Rio ganhar as eleições, o PS irá viabilizar esse governo e o seu primeiro orçamento, mesmo que esteja em processo de mudança de líder e mesmo que Pedro Nuno seja o senhor que se segue.

 

Frase do dia. "Eu não abandonaria o cargo de ministro das Finanças durante a pandemia."

Teixeira dos Santos, sobre o abandono de Mário Centeno, em entrevista ao Observador

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