Tive colegas que me disseram que este não era um guilty pleasure. Falta-lhe alguma extravagância, não é algo que faça corar de vergonha e, com a produção em massa que hoje existe, já não é uma coisa de nicho.
O vício começou há cerca de dez anos. Ao longo da minha infância e adolescência, comprei, muito pontualmente, camisolas do meu clube e da seleção nacional. Nada que se assemelhasse a uma coleção. Mas, algures em 2016, achei piada a uma camisola do Pumas UNAM e comprei-a. Depois tirei as medidas a uma camisola do Spartak de Moscovo. Comprei-a. Depois a uma do Kaizer Chiefs. Comprei-a também.
Hoje tenho 180 no meu roupeiro. Não é uma coleção suficientemente grande para impressionar outros colecionadores, mas compreendo que uma pessoa normal solte uma exclamação quando lê este número. A febre tornou-se de tal modo grave que só o futebol não chegou e passei também a colecionar maillots de ciclismo, o meu desporto favorito.
Há umas pelas quais tenho especial estima, como a camisola principal do Arsenal de 2005/06, o último ano do clube de Londres a jogar no Highbury, o equipamento de tributo a Ayrton Senna que o Corinthians lançou em 2018, e a alternativa do Benfica de 2004/05, o ano de Trappatoni e do autêntico milagre que foi a conquista desse campeonato.
A esta altura alguns leitores podem questionar-se: onde está esse prazer culpado? Não disse propriamente que vejo Love Island, que adoro observar outras pessoas ou que gosto de cheirar o meu suor após uma corrida matinal. A parte da culpa reside noutro lado: o dinheiro.
Já me perguntei várias vezes o que poderia ter feito com o dinheiro que gasto em camisolas se o aplicasse em outras coisas. Talvez já pudesse ter passado umas tão desejadas férias na Califórnia, ter investido mais dinheiro em ações da Leonardo, ter comprado um carro melhor ou ter juntado dinheiro para a entrada de uma casa. Ok, esta última é irrealista, a não ser que queira viver numa garagem reconvertida em T0 algures na Margem Sul.
Também já me questionei sobre se vale mesmo a pena comprar camisolas reais em vez de falsas. Seria bem menos dispendioso. Não faltam vendedores espalhados pela internet fora com camisolas a 20 euros, bem como jovens empreendedores que têm no dropshipping de produtos contrafeitos o seu ganha-pão. Não censuro quem compre falsas. Uma réplica de Nike ou Adidas chega ao mercado a 100 euros. As iguais às de jogo aparecem a 150. Sim, repito: 150 euros. É um valor completamente absurdo para a realidade atual, especialmente a de Portugal, onde uma boa parte das famílias chega ao final do mês de bolsos vazios ou mesmo no vermelho.
No mercado das camisolas clássicas, os valores são ainda mais pornográficos. Camisolas do Benfica do início dos anos 90 podem chegar aos 400 euros. Queres o terceiro equipamento do Inter de Milão da época 2004/05 com nome e número do Adriano? Prepara-te para largar não menos de 1000 euros. Valores incomportáveis para o comum dos mortais.
Nunca gastei nem perto desses valores, mas há camisolas que já fizeram a minha carteira andar à roda. E com isto vem o sentimento de culpa. Porque é que estou a gastar dinheiro nesta futilidade? 100, 120, 140 euros gastos em algo que, realisticamente, não faz nem nunca me fará falta. Há exatamente zero probabilidades de eu dizer “bolas, o que me faz mesmo falta agora é a camisola principal da Zâmbia de 2012”.
Na maior parte das vezes, a compra acaba por ser muito ponderada. Fico semanas e meses a olhar para ela num qualquer site de referência, a pensar se deva mesmo gastar o dinheiro. Por vezes elas desaparecem: alguém no mesmo limbo mental concluiu a reflexão mais cedo. Noutras ocasiões, somos mesmo nós quem ajuda ao negócio.
No entanto, há compras que são quase instantâneas. Num minuto ela aparece à venda e noutro já está paga e a caminho da sua nova casa. Os colecionadores sabem do que estou a falar. Parece que nos é lançado um feitiço e desligamos qualquer filtro de contenção. Passei recentemente por isto com a quarta camisola do PSG da época que agora terminou. Estava quase permanentemente esgotada em todo o lado. Mal vi uma de mangas compridas à venda, só tive tempo de pedir a estampagem do nome do Dembélé e fazer o pagamento a correr.
É inevitável sentir alguma culpa e questionar se ter tantas camisolas vale mesmo a pena. Mas depois olhamos para elas, penduradas no roupeiro, e todos os sentimentos negativos desaparecem. Cada camisola tem um valor sentimental difícil de substituir por outros bens materiais. Cada uma delas conta uma história. De uma equipa, de um jogador, de quem a compra. E eu gosto de ter muitas histórias para contar.