Encontrou o amor, teve um filho e adotou um cão durante uma caminhada de seis anos

CNN , Tamara Hardingham-Gill
4 jun 2023, 15:00

Depois de anos a lutar contra a ansiedade e a depressão, Christian Lewis, um ex-paraquedista do País de Gales, chegou a um ponto sem retorno e percebeu que precisava de fazer algumas mudanças drásticas na sua vida.

Na iminência de se tornar um sem-abrigo pela segunda vez, o pai solteiro tomou a decisão de deixar tudo para trás “numa fração de segundos".

Poucos dias depois, com apenas 11 euros no bolso, Lewis despediu-se da sua filha Caitlin, que tinha saído de casa recentemente, e partiu, em agosto de 2017, de Llangennith, em Swansea, País de Gales, com o objetivo de percorrer toda a costa do Reino Unido. 

Antes de partir, criou uma página de angariação de fundos para a instituição de caridade das forças armadas SSAFA, à qual tinha pedido ajuda quando deixou o exército em 2004.

Quase seis anos depois, Lewis, atualmente com 42 anos, está a poucos meses de completar uma caminhada de 14.000 quilómetros e arrecadou mais de 370.000 euros. Mas ele já não caminha sozinho. Agora tem três companheiros.

Durante a viagem, Lewis conheceu e apaixonou-se pela ex-professora Kate Barron, 36 anos, que se juntou a ele, e também a cadela Jet, que encontrou na Irlanda do Norte há cerca de nove meses. E, desde aí, o casal teve um filho, Magnus.

"Agora caminhamos como uma pequena família", diz Lewis à CNN. "Somos um grupo muito unido".

A viagem que mudou a sua vida 

Chris Lewis conheceu sua companheira, Kate Barron, enquanto caminhava pelo litoral do Reino Unido. A sua cadela Jet, e o seu filho, Magnus, juntaram-se a ele ao longo do caminho. Cortesia Chris Lewis and Kate Barron

À medida que se aproxima da parte final da caminhada, com Barron, Magnus e Jet a seu lado, Lewis, que tem documentado a viagem através da sua página de Facebook, Chris Walks The UK, não pode deixar de refletir com absoluta admiração sobre o que tem sido uma aventura verdadeiramente transformadora. 

Dizer que houve muitas reviravoltas ao longo da sua viagem é um eufemismo.

Depois de subir a costa oeste em direção à Escócia, a partir de Swansea, Lewis fez um breve desvio para a Irlanda do Norte, onde devolveu uma mensagem numa garrafa que tinha sido lançada ao Mar da Irlanda há mais de duas décadas e que tinha encontrado ao largo da costa escocesa. 

Decidiu então caminhar pela costa da Irlanda do Norte, antes de regressar à Escócia a pensar nas Ilhas Shetland, localizadas a cerca de 160 quilómetros a norte do continente.

Lewis estava perto de completar o arquipélago de Shetland, que tem 300 ilhas e recifes, dos quais apenas 16 são habitadas, quando em março de 2020 a pandemia de covid-19 chegou e o Reino Unido entrou em confinamento.

Ficou preso na remota ilha de Hildasay, localizada ao largo das ilhas Shetland, que tem menos de 800 metros quadrados.

"Eu estava a mais de metade da minha viagem", diz. "Na altura, pensei que faltava cerca de um ano para a terminar, mas, obviamente, as coisas mudaram." 

Depois de passar três meses em Hildasay, as restrições impostas pela covid-19 foram atenuadas e Lewis pôde continuar, passando cerca de três semanas e meia a percorrer o resto das ilhas Shetland. Depois, apanhou um barco de volta ao continente e começou a dirigir-se para sul. 

Embora a sua sobrevivência se baseasse principalmente na pesca e nos alimentos que encontrasse pelo caminho, Lewis também dependia da boa vontade de pessoas que lhe davam comida, água e equipamento. 

Lewis estava a acampar perto dos Whaligoe Steps, uma escadaria de 365 degraus que desce por um penhasco até a um porto natural, quando conheceu Barron, que tinha estado a fazer campismo selvagem na North Coast 50, uma rota de 830 quilómetros ao longo da costa norte da Escócia, depois de deixar o seu emprego como professora numa escola de Londres.

"Estava a fazer caminhadas e a acampar e, por acaso, desci até ao fundo do penhasco no meu último dia de viagem", conta Barron. "E foi aí que conheci o Chris."

Barron ficou imediatamente intrigada com Lewis, que estava a arrumar a sua tenda enquanto conversava com um grupo de pessoas, e decidiu aproximar-se dele.

Encontro no penhasco 

Lewis, a acampar em St. Abbs, na Escócia, iniciou a sua caminhada épica em agosto de 2017. Cortesia Chris Lewis and Kate Barron

"E apareceu esta rapariga, toda alegre e animada", recorda Lewis. "E tivemos um encontro muito, muito breve."

Lewis ficou estupefacto quando Barron regressou sozinha, cerca de 40 minutos depois, com fish and chips (peixe e batatas fritas) e duas latas de cerveja.

"Ela disse: 'Tenho andado à procura de um sítio para acampar. Importas-te que acampe ao teu lado?", relata. "E foi isto. O resto é história."

Os dois passaram cerca de quatro dias juntos na natureza selvagem a procurar comida, a fazer fogueiras, a destilar água do mar e a falar até de madrugada, e rapidamente se aperceberam de que havia uma forte ligação entre eles.

"Passámos juntos quatro dias mágicos na natureza", diz Barron. "Tínhamos tanto em comum."

Barron partiu, entretanto, para uma viagem ao Afeganistão, mas os dois mantiveram contacto constante enquanto ela esteve ausente.

Quando regressou ao Reino Unido, cerca de seis semanas depois, depois de ter terminado os seus compromissos de trabalho, Barron voltou a juntar-se a Lewis e perguntou-lhe se podia "desfrutar do resto da aventura" com ele. 

"Assim que regressei ao aeroporto de Londres, apanhei um voo direto para Inverness [uma cidade nas Terras Altas da Escócia]", conta Barron. "Nunca mais voltei para casa."

O casal, juntamente com Jet, continuou a percorrer a costa leste da Escócia e depois Inglaterra.

"Foi bastante surreal ter alguém comigo", admite Lewis. "Mas a Kate adora fazer todas as coisas de que eu gosto. Tudo se conjuga na perfeição."

Cerca de nove meses depois, enquanto dormiam em estábulos de cavalos em Yorkshire, no norte de Inglaterra, souberam que estavam à espera de um filho.

Com muitos quilómetros de viagem ainda pela frente, o casal disse que nunca discutiu a hipótese de regressar a casa e, simplesmente, continuou a andar.

"Acampámos durante toda a gravidez", observa Barron. "Caminhei todos os dias, até às 37 semanas [de gravidez]."

"Tive sorte no sentido em que, no primeiro trimestre, não tive enjoos matinais. Sentia-me apenas cansada. Às vezes, dormia uma sesta debaixo de uma árvore durante as caminhadas."

Apesar de Barron ter achado mais complicado acampar durante o terceiro trimestre, conseguiu continuar mesmo assim.

"Foi desconfortável, mas consegui", acrescenta. 

Quando um dos apoiantes de Lewis ofereceu um yurt em Dorset, um condado no sudoeste de Inglaterra, como potencial local para o parto, aceitaram de imediato, e Barron tratou de todos os preparativos com as parteiras locais. Eles deram as boas-vindas ao filho Magnus em maio de 2022. 

Nova chegada 

Lewis e Barron deram as boas-vindas ao seu filho Magnus em maio de 2022. Cortesia Chris Lewis and Kate Barron

O casal fez então uma pausa na caminhada e passou algum tempo com amigos e familiares, que viajaram até Dorset para os visitar.

"Parámos dois meses para deixar a Kate recuperar e depois decidimos continuar", explica Lewis.

"Tivemos de fazer algumas mudanças e adaptações, obviamente, por razões de segurança para o Magnus."

Com um recém-nascido a acompanhá-los todo o tempo, o casal viu-se com uma carga mais pesada de bens essenciais para transportar e decidiu comprar uma carrinha como "backup de contingência".

Desde então, tiveram de adaptar ainda mais a sua rotina, uma vez que Jet tem achado as constantes caminhadas mais difíceis.

"A Jet está a ficar mais velha", observa Lewis. "Ela já fez muitos quilómetros. E começo a perceber que está a abrandar o ritmo.”

"Por isso, faço todos os esforços para garantir que ela caminha o menos possível."

Embora continuem a fazer o percurso a pé, Lewis e Barron às vezes caminham separadamente, para que um deles possa ficar com a Jet. 

De acordo com Barron, Lewis costuma a ir à frente nestas ocasiões. Depois, ela vai buscá-lo de carrinha mais à frente, conduz até onde ele começou e faz o mesmo percurso com Magnus, enquanto Lewis fica para trás com a Jet, antes de regressar para se juntar a eles.

O seu filho Magnus, que passou grande parte da vida ao ar livre, está "a evoluir imenso".

"Ele vive no exterior. Por isso, consegue ver tudo e está muito feliz", garante Lewis. "Já dá para perceber que ele vai ser aventureiro."

Dizem que normalmente caminham entre oito a 12 quilómetros por dia.

Sem surpresa, caminhar e acampar com um bebé tem sido uma experiência totalmente diferente para ambos. 

Lewis explica que têm tido mais dificuldades desde que entraram em Inglaterra, onde existem regras mais rigorosas em relação ao campismo selvagem.

"Na Escócia, temos aquilo a que se chama o 'direito de vaguear', o que significa, basicamente, que estamos legalmente autorizados a acampar onde quisermos", indica. "Essas regras não se aplicam em Inglaterra."

"Por isso, a parte mais difícil para nós tem sido encontrar locais onde possamos acampar e onde não sejamos expulsos, o que já nos aconteceu muitas vezes.”

"Fazer fogueiras é ilegal e nós precisamos de fogo durante o inverno."

Tempos desafiantes

Magnus, aos cinco meses de idade, nasceu num yurt em Dorset, no sudoeste de Inglaterra. Cortesia Chris Lewis and Kate Barron

Ele admite que a combinação das preocupações típicas de novos pais com a preocupação acrescida de ter de se manter quente ao ar livre foi incrivelmente difícil durante algumas das noites mais frias de inverno.

"O Magnus dormia melhor do que qualquer um de nós", recorda. "Estava sempre bem agasalhado e aquecido."

O casal disse que tem sido muito mais difícil encontrar alimentos nesta etapa da viagem, pelo que normalmente já levam a comida consigo e usam um fogão de campismo para cozinhar ao ar livre.

Lewis lançou, no início deste ano, um livro, "Finding Hildasay", que relata os primeiros anos da sua caminhada, e têm vivido das receitas, juntamente com donativos de comida, equipamento e roupa, dados por empresas e pessoas comuns.

O pai de dois filhos está prestes a lançar um novo livro, onde irá relatar os desenvolvimentos significativos na sua vida desde que deixou a ilha e conheceu Barron.

Apesar dos desafios, a família continua alegre e perseverante e está ansiosa por chegar à praia de Llangennith, no extremo ocidental da Península de Gower, o ponto final da sua viagem e o mesmo local de onde Lewis partiu.

"É provável que vá ser um pouco avassalador", admite, lembrando-se de quando estava na praia, antes de começar a sua caminhada, e se questionava sobre como seria a vida quando finalmente "cruzasse aquela linha".

"Ver aquele local de novo, acho que vai haver muitas lágrimas e muito orgulho", acrescenta.

Lewis espera que alguns dos muitos apoiantes que o acompanharam ao longo dos anos estejam lá para os cumprimentar e disse que está ansioso por desfrutar de "algumas cervejas e alguns whiskies".

Quanto a Barron, está incrivelmente grata por ter dado um "salto de fé" e ter escolhido juntar-se a ele apenas algumas semanas depois de se terem conhecido na Escócia.

"Tive de abdicar de tudo", lembra. "Mas eu sabia que era o que queria. Senti que valia a pena. Esta aventura. Este compromisso. Este esforço."

Ela descreveu a experiência como "sangue, suor e lágrimas", mas incrivelmente gratificante de muitas maneiras diferentes.

"Tornar-me mãe nesta viagem. Isto foi algo incrivelmente poderoso", considera.

Família de aventureiros

"Somos um pequeno grupo muito unido", diz Lewis sobre a sua família. Cortesia Chris Lewis and Kate Barron

Depois de percorrerem a costa norte de Devon, começarão a subir em direção a Swansea, onde termina a viagem. Calculam que serão necessários mais três meses para completar esta última etapa.

"O Magnus terá um ano quando terminarmos", aponta Barron. "Portanto, o seu primeiro ano terá sido passado nesta viagem."

Lewis manteve-se em contacto com a sua filha Caitlin durante toda a viagem e refere que ela está extremamente orgulhosa do caminho que ele percorreu.

"Ela foi o catalisador para eu começar [caminhada]", assume. "Penso que não se pode dar a uma criança uma maior lição de vida do que partir e pensar em grande."

"Sonhar em grande e ir em busca disso, em vez de ficar a arrastar-se pela vida fora."

Ele está muito feliz por ter conseguido angariar fundos para a instituição de caridade SSAFA, que o ajudou a reerguer-se quando estava a viver nas ruas, depois de deixar o Regimento de Paraquedistas do Exército Britânico, e passava por momentos difíceis enquanto "regressava à vida civil".

"Tive muita ajuda da SSAFA, por isso era óbvio partir e fazer algo para os ajudar", justificou Lewis à CNN.

Perguntam frequentemente a Lewis e a Barron se planeiam "regressar a casa e assentar" depois de concluírem a caminhada, mas eles dizem que não pensam fazê-lo tão cedo.

"Porquê consertar o que não está estragado?", questiona Lewis. "A Kate e eu adoramos o que estamos a fazer. Adoramos o facto de podermos ajudar outras pessoas e é isso que queremos continuar [a fazer]."

"Vamos ser uma família de aventureiros e criar o Magnus de forma a que ele possa conhecer diferentes países e diferentes culturas."

Então, qual será a próxima grande aventura da família? De acordo com Lewis, as coisas estão muito no ar neste momento.

"É uma posição muito estranha para se estar", reconhece. "Kate e eu não temos dinheiro nem nada do género. Mas sabemos que podemos fazer com que as coisas resultem se nos empenharmos."

"Por isso, o que quer que seja que sonhemos para a próxima aventura, pode ser absolutamente tudo o que nos apetecer. Porque não temos casas e não temos compromissos. Não estamos presos a nada."

"Temos uma folha de papel em branco. Por isso, não ter nada é, na verdade, a maior dádiva para nós."

Quando pensa na pessoa que era quando deixou a praia de Llangennith, Lewis diz que a diferença é impressionante.

"Tenho um objetivo sério [agora]. Apercebi-me, ao fazer esta caminhada, que não são as coisas materiais da vida que me fazem feliz. E há pessoas por aí, como a Kate, por exemplo, que sentem o mesmo. Ter este tipo de ligação, em que ambos temos exatamente os mesmos sonhos e os mesmos objetivos, é uma coisa muito rara. Não preciso de ter casas grandes ou carros caros. Só preciso de ter estas pessoas fixes à minha volta e podemos ir para onde quisermos. Desde que tenha isso, sou um homem feliz."

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