De amante a rainha consorte: a longa caminhada de Camilla (e o que esperar agora do seu novo papel)

11 set, 08:00
Rei Carlos III e rainha consorte Camilla entram no Palácio de Buckingham (YUI MOK/POOL/AFP via Getty Images)

A imagem de Camilla junto do povo britânico mudou muito ao longo dos últimos anos. A nova rainha consorte não entra na linha de sucessão, mas será o apoio do novo rei Carlos III

Determinada, é o mínimo que se pode dizer da rainha consorte britânica, Camilla. É à sua determinação e persistência que deve, em parte, o lugar que agora ocupa na história do Reino Unido. Também a isso não é alheia a cuidadosa campanha para recuperar a sua imagem junto da família real e, de forma muito especial, junto do público britânico que, durante muito tempo, não lhe perdoou ter sido a causa do divórcio de Carlos e Diana e da infelicidade desta. E ainda o facto de os tempos serem outros ou Carlos teria de abdicar para poder casar com Camilla, como teve de fazer o seu tio-avô, Eduardo VIII, para casar com a americana, duas vezes divorciada, Wallis Simpson.

Camilla Rosemary Shand nasceu a 17 de julho de 1947 no hospital King’s College, em Londres. Filha de um militar, que se transformou em empresário após a reforma, viveu no seu Sussex rural - com os seus pais, irmã e irmão – uma infância feliz e livre, onde pontuavam vários animais de estimação (gatos e cães) e, mais tarde, cavalos. Além da sua paixão pelos animais, Camilla tornou-se também uma ávida leitora, influenciada pelo pai que, com frequência, lhe lia histórias. Depois de Inglaterra, a Suíça é a etapa seguinte na educação de Camilla que, depois, opta por estudar e viver algum tempo em Paris, França.

Março de 1965 marca a sua entrada na sociedade londrina e é na capital britânica que, a partir de então, reside, trabalha e faz amizades com filhas de políticos, empresários e nobres. Para além da paixão por cavalos, o que a levava a assistir a atividades equestres, Camilla gostava também de pintar, pescar e de jardinagem.

No final dos anos de 1960, a jovem conheceu Andrew Parker Bowles, militar, oito anos mais velho. E o namoro começou, com altos e baixos, separações e recomeços. Em 1970, a rutura parecia definitiva, daí que Andrew tenha começado a cortejar a princesa Ana, irmã de Carlos.

A namorada não esperou

Camilla e Carlos conheceram-se em 1970 durante um jogo de pólo em Windsor, segundo algumas fontes. A jovem era divertida, despretensiosa e carinhosa e o amor aconteceu. Mas, enquanto o príncipe - um ano mais jovem do que Camilla - acreditava na possibilidade da relação, a sua família não a aprovava, alegando que a jovem era “muito popular”, “inadequada” para o príncipe porque tinha namorado vários dos seus amigos e não era virgem.

Em 1973, o príncipe de Gales teve de deixar o país para desempenhar as funções que lhe competiam na Marinha. Durante esse tempo, Camilla e Andrew retomaram a sua relação amorosa e casaram, uma decisão que surpreendeu muitos e leva, ainda hoje, muitos a questionarem-se: porque não esperou por Carlos?

Camilla Parker Bowles tem dois filhos (um casal) do casamento com Andrew Parker Bowles. O filho mais velho, que nasceu em 1974, é afilhado de batismo do príncipe de Gales, o que revela o grau de proximidade que este mantinha com a família Parker Bowles.

Entretanto, Carlos conhece a jovem Diana Spencer com quem casa, em 1981, numa cerimónia que fazia lembrar um conto de fadas e que a televisão levou a todo o mundo. Poderia dizer-se que o “cerco” de Camilla a Diana começou ainda antes do casamento quando lhe enviou uma mensagem a afirmar-se “curiosa para ver, pessoalmente, o anel de noivado” da princesa. Segundo várias fontes, uma pseudo “amizade” entre as duas terá começado aí.

Diana, mais tarde, terá confessado que não gostou de ver Camilla no seu casamento e que esteve prestes a abandonar o navio onde passou a lua-de-mel com Carlos quando descobriu que este tinha uma joia, oferta de Camilla, onde as iniciais dos dois apareciam entrelaçadas. A jovem princesa de Gales terá mesmo confrontado a rival sobre a sua relação extraconjugal com Carlos. Camilla, mais segura de si, terá retorquido: “Tem todos os homens do mundo a seus pés. Que quer mais?”.

A relação entre o príncipe e Camilla terá começado em 1986 e, seis anos depois, conversas telefónicas entre os dois foram reveladas e mostram até que ponto eram íntimos. Tudo isso bastou para que o povo britânico, que acarinhava a jovem Diana de ar frágil e sorriso tímido, se tivesse insurgido contra a amante do príncipe, que a partir de então é o alvo da imprensa britânica, e não só. “Rotweiller”, “destruidora de lares”, “a outra” são apenas alguns dos epítetos que foram colados à imagem de Camilla. O seu aspeto físico, a sua forma de vestir, tudo era escrutinado, e quase sempre de forma negativa.

Em 1994, Carlos assumia ter um romance com Camilla; mais tarde e em entrevista à BBC, Diana confirmaria a infidelidade do marido – “éramos três no casamento; uma autêntica multidão” – e a sua. Um ano depois, acontece o divórcio de Camilla – que desaparece da vida pública -; em 1996 é a vez de Carlos e Diana, que conta com o apoio da imprensa e do público.

A travessia do deserto de Camilla vai ser longa, e nada fácil. A CNN sublinha que a simpatia transbordante de Diana fez aumentar o sentimento anti-Camilla que se agravou quando a “princesa do povo” – título que lhe foi dado pelos britânicos – morreu, em 1997, num acidente de carro em Paris.  E, 25 anos após esse fatídico dia, Camilla continua a ser uma figura fraturante no Reino Unido.

Resiliência

Camilla não desistiu do seu objetivo: casar com Carlos. A família real acaba por aceitar o namoro entre os dois e, em 1999, começa uma campanha cuidadosamente preparada para o regresso de Camilla à vida pública. A sua primeira aparição acontece a 28 de janeiro, no dia do aniversário da sua irmã, no hotel Ritz, de Londres: à saída, Camilla é fotografada com o príncipe quando abandona o hotel. Quatro anos depois, Camilla muda-se para Clarence House, a residência de Carlos, e começa a aparecer em papéis oficiais.

O ano de 2005 marca o casamento de Carlos e Camilla em Windsor, com o aval da rainha que está presente na cerimónia da bênção religiosa e oferece uma receção aos noivos e convidados. Camilla, que tem direito então a usar o título de princesa de Gales, tem uma atitude que sensibiliza muitos britânicos: opta por usar o título de duquesa da Cornualha, a que também tem direito, por respeito a Diana, a princesa de Gales por todos reconhecida. A decisão de Camilla também terá sensibilizado os filhos de Diana, ciosos da memória da mãe, e de alguma forma ajudou ao relacionamento entre a duquesa da Cornualha e os príncipes.

Aquando do casamento, muitos elementos da casa real recusavam que um dia mais tarde Camilla usasse o título de rainha consorte. Levou algum tempo a que também essa situação mudasse. No seu discurso, aquando do Jubileu de Platina em fevereiro último, a então rainha Isabel II fez questão de afirmar o seu “sincero desejo” de que, quando o momento chegasse, Camilla use o título de rainha consorte. Para Carlos, este desejo de sua mãe é “uma honra”.

Como rainha consorte, Camilla é coroada como o rei mas não entra na linha de sucessão. Cabe-lhe, sim “ser sua companheira, dar-lhe apoio moral e prático”, algo que a duquesa da Cornualha já o faz desde o seu casamento ao acompanhar e apoiar o marido nos seus compromissos oficiais, inclusive no estrangeiro, apesar do seu enorme medo de voar. Fontes próximas do casal real revelam que a agora rainha tem uma especial habilidade para dissipar as tensões.

“É sempre bom ter alguém do nosso lado”, disse o então príncipe Carlos à CNN em 2015. “É um apoio enorme. O melhor é que rimos muito porque ela vê o lado divertido da vida, graças a Deus. Isso faz uma grande diferença”.

Camilla também definiu o seu próprio papel, ao defender causas que lhe são caras como a leitura para as crianças e o apoio às vítimas de violência doméstica. Em 2017, durante uma visita a um abrigo para mulheres em Bristol, afirmou à CNN que poderia usar a sua posição para realçar a situação das “mulheres corajosas” que tinham sofrido às mãos dos seus parceiros. A luta contra a osteoporose, uma doença que afetou a sua avó como a sua mãe, é outra das suas preocupações.

Carlos, que sublinha o quanto a sua esposa defende a literacia e procura animar os clubes de leitura para crianças, não esconde o orgulho que tem no trabalho desenvolvido por Camilla. “Estou muito orgulhoso dela e de tudo o que tenta fazer para me apoiar, o que é maravilhoso da sua parte”, disse em declarações à CNN.

Mas Camilla desenvolveu outra paixão à medida que o tempo passa e a família aumenta: os netos. ´É uma avó profissional”, confessou uma auxiliar da agora rainha consorte.

Apenas uma sombra: segundo fontes próximas da família real, citadas pelo The Daily Express, Camilla receia o livro de memórias que o príncipe Harry, filho mais novo de Carlos, irá publicar. Teme que a sua imagem, “cuidadosamente trabalhada, desmorone com as revelações” de Harry.

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