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Comentador da CNN Portugal. Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE. Diretor do European Observatory on Illiberalism and Culture Wars. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, na polarização e nos impactos nos direitos fundamentais. Analisa, ainda, questões de geopolítica contemporânea

As Guerras Culturais na Universidade: o caso Jason Arday 

10 ago, 10:58
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Jason Arday tornou-se, em 2023, o mais jovem professor negro da história da Universidade de Cambridge. A sua biografia parecia conter tudo aquilo que as universidades britânicas gostariam de contar sobre si próprias no século XXI. Negro, autista e proveniente de um contexto social desfavorecido, Arday teria aprendido a falar apenas aos 11 anos e a ler e escrever aos 18. Aos 37, chegava a professor numa das universidades mais prestigiadas do mundo. 

Uma história extraordinária de superação pessoal, do racismo dito estrutural e dos entraves intersecionais entre raça, classe e neurodivergência.

 Era também uma história extraordinariamente adequada ao seu tempo.

Três anos depois, Arday demitiu-se de Cambridge, no meio de acusações graves de plágio e de dúvidas sobre partes da sua produção académica e da sua biografia pública. Há alegações que merecem investigação séria, incluindo sobreposições textuais extensas e questões relativas à proveniência de material apresentado em investigação qualitativa. Houve investigações anteriores que não concluíram pela existência de má conduta; surgiram posteriormente novos elementos e Cambridge voltou a investigar o caso.

É importante começar aqui porque quase toda a discussão pública parece ter começado noutro lugar.

Arday tornou-se rapidamente numa cápsula das guerras culturais contemporâneas.

Para uma parte da direita, o caso demonstra aquilo que há anos procura demonstrar: que a chamada cultura woke tomou conta das universidades, substituiu o mérito pela representatividade e transformou raça, género e identidade em critérios de promoção académica. Arday seria o resultado previsível de uma universidade mais interessada em encontrar um professor negro, ativista e simbolicamente representativo do que em verificar suficientemente a qualidade do seu percurso científico.

Para uma parte da esquerda, a história é praticamente inversa. Arday seria mais um académico negro submetido a um escrutínio que os seus colegas brancos não enfrentariam, perseguido por adversários das políticas de diversidade e transformado em alvo de uma campanha que pretende restaurar antigas hierarquias raciais sob a linguagem aparentemente neutra do mérito.

Ambas as narrativas podem conter elementos verdadeiros. Nenhuma delas resolve o caso.

É perfeitamente possível que Jason Arday tenha sido alvo de racismo e que tenha cometido plágio. É possível que alguns dos seus críticos estejam menos interessados na integridade académica do que em destruir as políticas de diversidade e, simultaneamente, que tenham encontrado problemas reais na sua produção científica. É até possível que Cambridge tenha tido boas razões para procurar corrigir a sub-representação de académicos negros e que, nesse processo, tenha permitido que a força simbólica de uma biografia diminuísse o escrutínio que uma contratação académica desta importância exigia.

As guerras culturais têm dificuldade em conviver com estas possibilidades simultâneas. Precisam de transformar acontecimentos complexos em histórias moralmente simples e lineares. Seja qual for o lado da batalha cultural, a história não tem complexidades, diferentes ângulos ou múltiplas verdades; a história é simples e confirma teses. Nesse jogo político, o facto concreto é selecionado, enquadrado e finalmente incorporado numa narrativa anterior e mais abrangente do que o próprio acontecimento. Arday deixa então de ser Arday. Torna-se “DEI”, “woke”, “racismo estrutural”, “mérito”, “privilégio” ou “perseguição”. O indivíduo converte-se em símbolo.

Há, contudo, uma razão histórica para que Arday pudesse adquirir tamanha importância simbólica. Durante demasiado tempo, as grandes universidades europeias foram espaços profundamente desiguais na distribuição da representação e do prestígio. As suas elites reproduziram-se dentro de círculos sociais, económicos e raciais relativamente estreitos. A universidade supostamente neutra nunca foi inteiramente neutra. As condições de acesso, as redes sociais, os códigos culturais e os mecanismos informais de reconhecimento favoreceram determinados grupos durante décadas: homens brancos, de classe média-alta ou alta, heterossexuais e, não raras vezes, conservadores. 

A procura contemporânea de representatividade não nasceu, portanto, de uma fantasia ideológica, mas da tentativa legítima de corrigir exclusões reais. O problema começa quando a correção da invisibilidade produz uma nova necessidade narrativa, um novo paradigma ideológico assente no conjunto das teorias pós-modernas. 

As universidades passam a ter de mostrar que são diversas. A qualquer custo. 

Nesse ambiente, determinadas biografias adquirem um valor que ultrapassa a produção científica do indivíduo, para afirmar a própria virtude da instituição que o contratou.

A celebração de Arday como o mais jovem professor negro de Cambridge é exemplar desta transformação. A sua raça era simultaneamente uma característica pessoal, um facto historicamente relevante e uma mensagem institucional. A universidade podia apresentar a sua chegada como evidência de que Cambridge estava finalmente a tornar-se diferente da instituição que fora durante séculos.

Mas existe uma armadilha nesta política simbólica. Se fazemos do sucesso individual a demonstração do progresso de um grupo, tornamos possível que o fracasso individual seja utilizado como demonstração do fracasso desse mesmo grupo. Enquanto Arday triunfava, a sua identidade servia como prova de inclusão. Quando Arday caiu, os seus adversários utilizaram exatamente a mesma associação para fazer dele uma prova contra a inclusão.

Queiramos ou não, a operação intelectual é igualmente problemática nos dois sentidos: um professor negro brilhante não demonstra que as políticas de diversidade produzem excelência, tal como um professor negro que plagia não demonstra que essas políticas produzem mediocridade. Da mesma forma, a existência de racismo contra um académico não transforma automaticamente em racistas as acusações concretas feitas ao seu trabalho.

Há aqui uma consequência particularmente perversa. Quanto mais as instituições apresentam determinados académicos como representantes de categorias identitárias, maior é o risco de que os seus comportamentos individuais sejam posteriormente atribuídos às próprias categorias que deveriam representar. Os primeiros prejudicados poderão ser precisamente outros académicos negros, sobre os quais passa a pairar a suspeita injusta de que a sua presença numa instituição de elite resulta de políticas de diversidade e não do mérito do seu trabalho.

É por isso que o caso Arday deveria obrigar a universidade contemporânea a pensar para além das duas trincheiras. Regressar a uma universidade que ignorava desigualdades históricas em nome de uma suposta neutralidade seria esquecer que essa neutralidade frequentemente conviveu muito bem com estruturas sociais profundamente desiguais. Mas substituir essa cegueira por uma universidade obcecada com a produção de símbolos identitários também não resolve o problema.

E o mérito também importa. Mas não pode ser recuperado apenas quando serve como arma contra as políticas de inclusão.

Jason Arday deverá responder por aquilo que fez. Cambridge deverá responder pelas decisões que tomou. Os seus críticos deverão ser avaliados pelos argumentos e provas que apresentam, não pelas batalhas políticas em que participam. Parece uma conclusão banal. Tornou-se, contudo, extraordinariamente difícil aplicá-la.

Porque talvez seja precisamente isto que as guerras culturais fazem aos acontecimentos: não necessariamente inventam os factos, mas retiram-lhes o direito de significarem por si próprios. 

Jason Arday já quase não é uma pessoa no debate público. É uma cápsula onde cada campo procura encontrar a confirmação da história que já contava antes de ele aparecer. E talvez seja essa a parte mais reveladora de todo o caso.

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