FIO DE JOGO || No início da década de 2000, vários equipamentos da seleção africana, desenhados pela Puma, revolucionaram o mundo do futebol. A FIFA, porém, não gostou
Com a expansão para 48 equipas, o continente africano passou a apurar diretamente nove seleções para o Mundial de futebol, com a possibilidade de uma décima através dos playoffs interconfederações.
Perante esta realidade, seria de esperar que algumas seleções habituadas a competir nos mais importantes palcos do futebol mundial pudessem qualificar-se sem grande dificuldade. No entanto, para algumas, a expansão não foi garantia de apuramento. Houve duas grandes desilusões, Nigéria e Camarões. Esta última foi sacrificada a favor de Cabo Verde, que se estreia na competição. Ainda teve a oportunidade de ir ao derradeiro playoff, mas foi eliminada pela República Democrática do Congo.
Este cenário seria impensável nos anos 90 e início dos anos 2000, tempo em que a geração de ouro dos Camarões tomou conta da seleção. Eto’o, Omam-Biyik, Rigobert Song, Marc Vivien-Foé, Roger Milla, Geremi, Lauren, Djemba-Djemba. Tantos nomes lendários. Essa geração qualificou-se para quatro mundiais consecutivos, de 1990 a 2002, e venceu duas edições consecutivas da Taça das Nações Africanas, em 2000 e 2002.
Foi precisamente nesta última competição que os Camarões trouxeram uma inovação ao nível da indumentária. Juntamente com a Puma, os Leões Indomáveis apresentaram no Mali um equipamento nunca visto no futebol: uma camisola de alças. Ao estilo da NBA, os jogadores camaroneses fizeram um percurso invencível na competição e levantaram o troféu em Bamako.
A celebração não foi eterna pois houve quem não estivesse contente com a inovação. A FIFA, em modo party pooper, proibiu os Camarões de utilizar a camisola no Mundial desse ano, na Coreia do Sul e no Japão. A Puma encontrou uma solução, umas simples mangas curtas negras, e a FIFA aprovou. O resultado não foi o melhor e camisola perdeu toda a sua glória.
No entanto, esse equipamento, ou uma versão mais feminina do mesmo, apareceu num local improvável. Serena Williams, então uma jovem tenista de 20 anos com “apenas” um título do Grand Slam no seu palmarés, surgiu em Paris para disputar Roland Garros equipando um vestido com as cores e símbolos dos Camarões. O golpe de marketing da Puma, que patrocinava a americana, durou duas rondas. Após essas primeiras partidas, Serena Williams mudou para uma roupa mais convencional e acabou por conquistar essa edição do Major parisiense, o segundo de 23 torneios do Grand Slam que viria a ganhar.
Mas a coisa não ficou por aí. Na edição seguinte da Taça das Nações Africanas, a Puma inovou mais uma vez e de forma não tão visível. Esqueçam as mangas à cava, o que estava na moda agora eram os macacões. Por fora, parecia que cada peça de roupa era individual: camisola, calções e meias. Na verdade, era tudo uma só.
Mais uma vez a FIFA não gostou e, desta vez, foi mais longe. Multou a federação camaronesa, a Fecafoot, em 154 mil dólares, e tirou seis pontos aos Leões Indomáveis na qualificação para o Mundial de 2006. O castigo acabou por ser revertido após a Puma e a Fecafoot ameaçarem com uma ida à justiça. "Não fizemos nada de errado. Mostrámos os equipamentos tanto à FIFA como à CAF, e ninguém nos disse que não era permitido", afirmou na altura Horst Widmann, assessor especial do diretor executivo da Puma, à BBC Sport.
A ligação entre os Camarões e a marca alemã durou até 2018 e na memória ficam outros excelentes equipamentos. Desde então, a equipa africana vestiu Le Coq Sportif, One All Sports e Fourteen, marca que ainda hoje a patrocina.
