Não é só no Airbnb: há casos de câmaras ocultas em hotéis e residenciais. "É comum acontecer no nosso país, lamento dizer"

CNN Portugal , DCT
11 jul, 17:15

Há casos relatados na Associação de Alojamento Local Portuguesa em que são os próprios proprietários que encontram material de gravação escondido nos quartos

Há câmaras implantadas em carregadores de telemóvel, outras colocadas em relógios despertadores digitais ou até em tomadas. Todas passam despercebidas, mas todas captam imagens - muitas delas íntimas - de forma não consentida e totalmente ilegal. A CNN Internacional denunciou uma série de casos nos Estados Unidos, mas esta é uma realidade também em Portugal, conta Nuno Mateus-Coelho, professor de Cibersegurança na Universidade Lusófona e diretor do Laboratório de Cibersegurança LAPI2S

É comum acontecer no nosso país. lamento dizer isto para quem não sabe. É comum acontecer no nosso país, em particular em zonas onde há um turismo muito mais ligado a jovens, de massas, que recebe pessoas que querem vir passar três, quatro dias de festas e de álcool e que estão completamente distantes de qualquer cuidado, de verificar o que é que o quarto tem ou deixa de ter”, diz o especialista em Cibersegurança.

Mas, se a reportagem da CNN Internacional se foca no Airbnb, a verdade é que esta prática é comum noutros tipos de alojamento e, muitas vezes, escapa aos próprios proprietários, sendo os hóspedes a esconder o material de filmagem.  “Há casos até relatados na Associação de Alojamento Local Portuguesa em que são os próprios proprietários que encontram este tipo de material”, continua Nuno Mateus-Coelho.

Em março, a Airbnb determinou a proibição de câmaras de vigilância dentro dos alojamentos alugados através da sua plataforma, com o objetivo de proteger a privacidade dos seus clientes. A plataforma de alojamento local permitia, até então, câmaras de vigilância em áreas comuns, como corredores ou sala de estar, se estivessem claramente visíveis no anúncio. Mas a verdade é que a captação de imagens sem consentimento continua a acontecer, porque, salienta o especialista, este tipo de situações “passa além do anfitrião” e que, por vezes, são os próprios hóspedes “não só Airbnb, como também hotéis e residenciais low cost, aquelas casas de partilha e camarata, inclusivamente alguns hotéis de alguma categoria” que “instalam dispositivos dentro dos quartos, escondidos, alimentados por energia, muitas vezes alimentados por lâmpadas, nos tectos falsos”, onde pode ser instalado “um pequeno router 4G que, por sua vez, está ligado a uma câmara que tem um cartão pré-pago que é carregado nestas payshops, completamente omissas das autoridades”. 

Nuno Mateus-Coelho diz que a captação de imagens sem consentimento “é uma violação” e garante ter o conhecimento de casos em que familiares ligam “a dizer que viram um vídeo A, B, C em X site”. E quanto ao facto de a Airbnb ter conseguido não levar a tribunal os casos denunciados nos Estados Unidos, o especialista é taxativo: “eu diria que é uma vergonha, digo com uma forma muito natural”. 

Acho que nos dias de hoje continuarmos a esconder o lixo debaixo do tapete, não só é uma vergonha, como é nefasto tanto para a organização, como quem vive desta organização, que são muitos portugueses e muitos americanos. E é uma política que parece ser comum nestas grandes empresas de intermediação de serviços”, vinca.

Mas como é que os hóspedes e os donos dos Airbnb ficar protegidos deste tipo de cenários? O primeiro passo, diz Nuno Mateus-Coelho, é mudar a password dos routers do alojamento, “preferencialmente diariamente, porque se alguém montou lá algum sistema depende da Internet para se alimentar”. Depois, há que estar atento a tudo o que brilha e que não é suposto brilhar ou dar luz e usar “aquele rolinho de fita preta, começar a colocar em cima”, porque, esclarece, “aquela luz serve para ocultar a câmara e inclusivamente para parecer que é normal haver ali qualquer coisa com uma luz ligada”. Segundo o especialista, estes são “pequenos passos que podem não resolver na totalidade, mas que ajudam a mitigar qualquer coisa”.

Crime e Justiça

Mais Crime e Justiça

Patrocinados