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Sustentabilidade: obrigação, oportunidade ou a nova linguagem da competitividade?

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19 mai, 18:06
Guimaraes
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O futuro económico constrói-se apenas com crescimento? Ou será que o verdadeiro desenvolvimento começa precisamente quando crescimento, inovação e sustentabilidade deixam de caminhar lado a lado e passam finalmente a fazer parte da mesma estratégia?

Foi esta a grande reflexão lançada no encontro “Sustentabilidade & Desenvolvimento Económico”, promovido pelo Infocus by CNN Portugal e integrado no Versa Forum, iniciativa promovida pelo Grupo Versa no âmbito da Guimarães Capital Verde Europeia 2026, que reuniu em Guimarães decisores públicos, líderes empresariais, especialistas e responsáveis institucionais para criar um espaço de reflexão sobre o papel da sustentabilidade enquanto motor de transformação económica e social.

Ao longo do encontro ficou evidente que a sustentabilidade já não é uma tendência, nem um elemento acessório de reputação empresarial. É hoje uma condição de competitividade, um critério de investimento e, acima de tudo, um fator decisivo para a capacidade de crescimento das empresas e dos territórios.

Guimarães quer liderar pelo exemplo

O presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, assumiu uma visão particularmente pragmática sobre o tema, defendendo que a sustentabilidade tem de ser encarada como uma ferramenta de valorização económica e não como um entrave ao desenvolvimento. “A sustentabilidade não pode ser uma desvantagem competitiva. Tem de ser encarada como uma tecnologia que acrescenta valor às empresas, aos produtos e aos processos.”

Num território fortemente marcado pelas pequenas e médias empresas, Ricardo Araújo destacou o papel do “Laboratório da Paisagem”, criado precisamente para apoiar o tecido empresarial local no cumprimento das metas ambientais e dos critérios ESG (Environmental, Social and Governance). Segundo o autarca, enquanto as grandes empresas conseguem recorrer a consultoras especializadas, muitas PME continuam a precisar de apoio técnico e estratégico para conseguirem adaptar-se às novas exigências do mercado.

Mas foi no tema da mobilidade que deixou um dos anúncios mais marcantes do debate. "Até ao final deste ano vamos ter transportes públicos gratuitos em Guimarães." Mais do que uma medida ambiental, Ricardo Araújo apresentou esta transformação como uma questão de qualidade de vida e de mudança de mentalidades. “Não conseguimos convencer ninguém a deixar o automóvel se o transporte público não resolver os problemas reais das pessoas”, sublinhou.

“A sustentabilidade não é uma opção”

A frase pertence a Gonçalo Regalado, CEO do Banco Português de Fomento, e acabou por resumir uma das mensagens mais fortes do encontro. Perante uma audiência composta maioritariamente por empresários e investidores, Gonçalo Regalado explicou que o mercado mudou definitivamente e que as empresas que não integrarem sustentabilidade na sua estratégia correm o risco de perder competitividade, financiamento e capacidade de crescimento.

Os números apresentados reforçaram essa visão. Só no último ano, o Banco Português de Fomento mobilizou 6.500 milhões de euros para a economia portuguesa, sendo que mais de 1.500 milhões foram destinados a investimentos ligados à sustentabilidade. Mais de 95% desse apoio teve como destino pequenas e médias empresas.

Ao longo da intervenção, o CEO apresentou exemplos concretos daquilo que considera ser o novo posicionamento estratégico do país. Falou da produção do novo veículo elétrico da Autoeuropa em Portugal, da candidatura nacional para acolher uma das maiores infraestruturas europeias de inteligência artificial e do reforço da indústria têxtil sustentável no Norte do país. “Portugal tem vantagens competitivas únicas: energia renovável, talento, estabilidade e capacidade industrial.” Num discurso marcado pelo otimismo, deixou ainda um apelo à confiança coletiva. “Temos de deixar de pensar no Portugal pequenino. Somos muito maiores do que isso.”

Também Álvaro Beleza, Presidente da SEDES, destacou aquilo que considera ser uma oportunidade histórica para Portugal, defendendo que a localização geográfica do país, aliada à capacidade energética renovável, coloca o território numa posição estratégica à escala europeia. “Hoje somos abençoados pela geografia”, afirmou. Mas o responsável da SEDES alertou igualmente para a necessidade de reduzir burocracias, simplificar processos e criar condições reais para que as empresas possam crescer com maior escala e ambição. “O que falta a Portugal são grandes marcas globais. Temos talento, temos empresas, falta escala.”

Sustentabilidade já influencia investimento e financiamento

Ao longo do debate tornou-se claro que a sustentabilidade já não pode ser analisada apenas do ponto de vista ambiental. A dimensão económica, financeira e social domina agora grande parte das decisões empresariais.

Cristina Melo Antunes,  Diretora de Sustentabilidade do Banco Santander, explicou precisamente que o setor financeiro passou a olhar para os chamados riscos não financeiros com a mesma relevância atribuída aos indicadores económicos tradicionais. “Falar de sustentabilidade é gerir melhor uma empresa.” Segundo a responsável, fatores como alterações climáticas, adaptação tecnológica ou impacto social passaram a influenciar diretamente o risco de crédito e as decisões de financiamento. “Os dados financeiros e não financeiros são hoje inseparáveis”, afirmou.

A necessidade de transformar sustentabilidade em visão estratégica também foi defendida por Daniel Carvalho,  Presidente do Grupo Versa, que considerou existir ainda uma leitura demasiado superficial sobre o tema. “Não é filantropia, nem reputação. É visão de futuro.”

Na mesma linha, André Almeida Santos, Partner da Indico Capital Partners,  lembrou que os investidores procuram hoje soluções sustentáveis que consigam responder a problemas reais, mas com viabilidade económica e capacidade de crescimento. “A sustentabilidade não pode viver apenas de boas intenções. Tem de ser competitiva.”

José Silva Almeida, ESG & SHEQ Director do Grupo Mota-Engil, recordou que muitas empresas portuguesas transportam há décadas preocupações ligadas ao impacto social e ao desenvolvimento das comunidades, mesmo antes da popularização do conceito ESG. “O reporte é apenas a consequência. O verdadeiro objetivo é gerar impacto positivo.”

O futuro pertence a quem agir primeiro

No final do encontro, ficou uma ideia impossível de ignorar: sustentabilidade e desenvolvimento económico deixaram definitivamente de ser conceitos separados.

Hoje, falar de competitividade é falar de energia, inovação, talento, mobilidade, financiamento, indústria, tecnologia e qualidade de vida ao mesmo tempo. É perceber que as empresas mais preparadas para o futuro não serão necessariamente as maiores, mas sim aquelas que conseguirem adaptar-se mais depressa, inovar com mais inteligência e responder com maior responsabilidade às exigências de um mercado em profunda transformação.

Guimarães quis posicionar-se como exemplo dessa mudança. E talvez seja precisamente essa a grande conclusão deste encontro: o futuro já não pertence a quem espera. Pertence a quem consegue transformar visão em ação, ambição em estratégia e sustentabilidade em crescimento real.

 

Assista à conferência completa aqui.

 

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