O verão europeu está a chegar mais cedo, mais quente e mais difícil de suportar. A vaga de calor de junho bate recordes, aproxima cidades dos 40 graus e agrava o risco para a saúde quando a noite deixa de arrefecer e a humidade prende o calor ao corpo. Para os cientistas, este episódio carrega a marca das alterações climáticas provocadas pela atividade humana. E Portugal, depois de um maio extremo, volta a entrar no mesmo mapa de risco
Primeiro veio o calor. Depois veio a noite, e a noite não arrefeceu.
É essa a parte mais perigosa da vaga de calor que atravessa a Europa: não são apenas os picos da tarde, os recordes nacionais, os termómetros fotografados nas praças, ou nas farmácias ou nas estações de comboio. É a persistência, é o corpo que chega ao fim do dia cansado e não encontra descanso, é a casa que acumulou calor durante horas e continua quente quando já devia devolver algum alívio.
O jornal económico britânico Financial Times escreveu esta sexta-feira que a vaga de calor mais severa e mais alargada alguma vez registada na Europa em junho foi agravada precisamente por isso: noites demasiado quentes e humidade elevada. A conclusão dos cientistas é ainda mais direta. Este episódio, pela forma como se espalhou e pela temperatura que atingiu, teria sido praticamente impossível sem as alterações climáticas provocadas pela atividade humana.
A meteorologia explica o caminho do calor. A climatologia explica por que motivo esse caminho chega agora mais longe.
O ar quente subiu do Norte de África e entrou pela Europa ocidental e central, empurrado por um padrão de circulação que não é estranho ao verão. Houve alta pressão, céu limpo, sol forte e pouca margem para dissipar energia. O fenómeno, em si, não é novo. A novidade está no fundo sobre o qual acontece: a mesma circulação que há décadas produziria uma vaga de calor difícil encontra hoje uma atmosfera já aquecida por gases com efeito de estufa. O resultado é outro: dias mais quentes, noites mais difíceis de suportar e cidades onde o calor se torna mais perigoso.
“Esta vaga de calor é a mais severa alguma vez registada na região estudada”, concluiu a World Weather Attribution, rede internacional de atribuição meteorológica que analisa a influência das alterações climáticas em fenómenos extremos. A análise, ainda não revista por pares, comparou o episódio atual com vagas de calor do passado e com cenários simulados de um mundo menos aquecido. A diferença é a assinatura humana no termómetro.
Em 1976, ano que ficou na memória britânica como um verão interminável, um episódio semelhante teria sido cerca de 3,5 graus mais fresco durante o dia. Em 2003, ano da grande tragédia térmica europeia, o calor diurno desta semana ainda teria sido raro e as noites agora registadas seriam muito menos prováveis. Não é apenas que esteja calor: é que o calor mudou de escala.
A Organização Meteorológica Mundial disse-o de outra forma, pela voz de John Kennedy, responsável pela informação climática da agência das Nações Unidas. “Ondas de calor como esta são aquilo que esperamos ver num clima em mudança”, afirmou. E acrescentou: “Nos 50 anos desde a vaga de calor histórica de 1976, a Europa como um todo aqueceu cerca de dois graus.”
Dois graus podem parecer pouco na escala ínfima de um dia, mas não são pouco no sistema climático. São a diferença entre uma estação dura e uma estação que começa a testar hospitais, escolas, transportes, redes elétricas, casas antigas e bairros sem sombra; são a diferença entre uma noite quente e uma noite em que o corpo não recupera.
Foi isso que aconteceu em França, um dos países mais atingidos. Em alguns pontos, os termómetros mal desceram durante a noite. Paris aproximou-se dos 41 graus e os telhados de zinco, parte da beleza arquitetónica da cidade, ajudaram a reter o calor dentro dos apartamentos. A França registou também, segundo a Organização Meteorológica Mundial, o dia mais quente de sempre em média nacional, a 24 de junho, e chegou aos 43,8 graus em Pulluau, no oeste do país.
No Reino Unido, o recorde nacional de junho foi quebrado em dias sucessivos. Em Itália, havia cidades ainda acima dos 30 graus ao início da noite. A Alemanha preparava-se para máximas perto dos 41. A Áustria admitia que Viena pudesse aproximar-se dos 40. Em Espanha, os dias 23 e 24 de junho foram os mais quentes de sempre para este mês, e Bilbau chegou aos 42,7 graus, novo máximo local para junho.
Portugal não estava no centro da fornalha europeia, mas estava dentro do mesmo mapa de risco: o IPMA antecipava máximas entre 35 e 40 graus, ou mesmo acima dos 40 em alguns pontos do interior, sobretudo no Alentejo, no Vale do Tejo e no Douro interior.
A Europa aqueceu cedo este ano. Junho ainda não é, por tradição climática, o centro do verão europeu, mas a tradição deixou de ser um guia suficiente. Em grande parte da Europa ocidental, junho é hoje o mês que aquece mais depressa. Segundo a rede de atribuição meteorológica, os extremos diurnos de temperatura na Europa estão a subir cerca de três vezes mais depressa do que o aquecimento médio global, e as temperaturas noturnas extremas cerca de duas vezes mais depressa.
É por isso que falar apenas da máxima já não chega. O número mais alto do dia impressiona, mas a mínima pode matar mais devagar. Quando a temperatura não baixa dos 20 graus, fala-se de noites tropicais. Quando fica acima dos 25, ou perto dos 30, sobretudo em casas mal isoladas e cidades densas, a noite deixa de ser pausa e passa a ser continuação.
"É realmente agora uma questão do tipo de futuro que queremos"
A Organização Meteorológica Mundial recorreu a Armel Castellan, especialista em calor extremo no gabinete conjunto da OMM e da Organização Mundial da Saúde, para explicar o risco. “A noite é quando o corpo deve recuperar”, afirmou. Durante o sono, explicou, a temperatura interna baixa, o sistema cardiovascular repousa e o esforço acumulado num dia de calor começa a aliviar. Quando a noite também fica quente, essa recuperação falha e o corpo permanece sob pressão durante 24 horas. “É por isso que, ao avaliar o impacto de uma vaga de calor na saúde, as temperaturas mínimas podem dizer mais do que o pico máximo da tarde”, acrescentou.
É aqui que a humidade entra como inimigo silencioso. Se a noite quente impede o corpo de recuperar, o ar húmido dificulta o mecanismo que ainda lhe resta para arrefecer: a transpiração. Quando o ar está quente e carregado de humidade, o suor evapora menos. Deixa de ser uma defesa eficaz e passa a ser apenas sinal de esforço.
Por isso os cientistas olharam para um indicador que combina temperatura, humidade, radiação solar e vento, a chamada wet bulb globe temperature, ou temperatura de globo de bolbo húmido. O nome é técnico, mas a ideia é simples: mede o calor que o corpo sente e não apenas o calor que o termómetro marca.
Segundo a rede de atribuição meteorológica, cerca de 45% das cidades analisadas em 30 países europeus ultrapassaram, ou deverão ultrapassar durante este episódio, níveis de sobrecarga térmica perigosos para a saúde humana. Não se trata de desconforto: trata-se da capacidade física de uma pessoa continuar a trabalhar, dormir, respirar, cuidar de uma criança, atravessar uma cidade, esperar por um autocarro ou ficar num quarto sem ar condicionado.
Nas cidades, o calor ganha paredes. O alcatrão acumula energia, o betão liberta-a devagar, as árvores fazem diferença, mas nem todos os bairros têm árvores. A ventilação faz diferença, mas nem todas as casas a permitem. A sombra faz diferença, mas nem todas as ruas a oferecem. E a desigualdade, que parece uma palavra social, torna-se meteorológica quando há corpos mais expostos do que outros.
É por isso que a adaptação deixou de ser uma discussão distante sobre urbanismo e passou a ser saúde pública.
Uma cidade preparada para o calor não é apenas uma cidade com mais árvores: é uma cidade onde as casas conseguem impedir que o calor entre durante o dia e libertá-lo à noite, onde as escolas não se transformam em salas fechadas e abafadas, onde os hospitais continuam a funcionar quando a procura aumenta. Onde há sombra, água e transportes capazes de resistir a temperaturas extremas. Onde os horários de trabalho podem mudar quando trabalhar ao sol deixa de ser seguro.
A Europa construída para conservar calor no inverno está a descobrir que precisa também de aprender a expulsá-lo no verão.
Mas a adaptação não responde a tudo. Os cientistas insistem que há uma diferença entre preparar melhor as cidades e continuar a alimentar o problema. A vaga atual nasceu de uma situação meteorológica normal para esta época do ano, mas o salto de temperatura não nasceu do acaso. A rede de atribuição meteorológica diz que o El Niño, o aquecimento cíclico das águas do Pacífico que pode elevar temporariamente a temperatura média global, não teve papel nesta vaga de calor europeia. O fator decisivo foi outro: o aquecimento global provocado sobretudo pela queima de carvão, petróleo e gás.
Theodore Keeping, investigador do Imperial College London e um dos autores da análise da World Weather Attribution sobre esta vaga de calor europeia, resumiu o risco de futuro ao Financial Times numa frase que não precisa de dramatização: “Há futuros climáticos em que isto pode tornar-se um evento de dois em dois anos”. Depois foi mais longe: “Devemos esperar que um verão médio seja mais quente do que isto”.
A frase é o contrário de uma exceção. É uma deslocação da normalidade: o que hoje parece extremo pode ser, dentro de algumas décadas, uma memória moderada.
Friederike Otto, climatóloga, e também do Imperial College London, uma das principais referências mundiais em atribuição climática, avisou, numa declaração divulgada com a análise da rede de atribuição meteorológica, que a repetição destes extremos começa a soar como um disco riscado. “Sim, isto são alterações climáticas, sim, somos nós, não, não é o El Niño, sim, temos as soluções, não, não as estamos a aplicar suficientemente depressa”, afirmou. E fechou com a escolha política que a ciência já não consegue evitar: “É realmente agora uma questão do tipo de futuro que queremos para nós próprios, e se estamos dispostos a fazer o que é preciso para o garantir.”
Das Termas de Monfortinho à Amareleja: e Portugal?
Portugal entra nesta história por duas portas: pela geografia e pela memória recente.
Pela geografia, porque está na faixa que recebe ar quente vindo do Norte de África e do interior da Península Ibérica; pela memória recente, porque o país ainda vinha de um maio que já tinha deixado aviso. A onda de calor iniciada a 20 de maio em Portugal continental ficou entre as mais relevantes desde que há registos, segundo o IPMA. Foi a terceira mais longa quando se olha para o número médio de dias em onda de calor e a segunda com maior magnitude média. Em Mora, no distrito de Évora, os termómetros chegaram aos 40,3 graus no dia 27, um novo extremo absoluto para maio em Portugal continental. O anterior máximo mensal, 40 graus, vinha das Termas de Monfortinho em 2001 e do Pinhão em 1953.
Maio foi também quente e seco. A água disponível no solo diminuiu em grande parte do território, com maior expressão no interior Centro e Sul, no Alentejo e no Algarve. O calor não chega, portanto, a uma folha em branco: encontra solos mais secos, vegetação mais vulnerável e um risco de incêndio que se agrava sempre que a temperatura sobe, a humidade desce e o vento decide colaborar.
Depois veio junho. A partir de dia 20, o IPMA previa uma subida mais significativa da temperatura, com valores entre 35 e 40 graus e possibilidade de mais de 40 em alguns locais do interior. Maria João Frada, meteorologista do instituto, explicou então à Lusa que o cenário parecia “bastante provável”, porque os modelos vinham a convergir há vários dias. “Estamos a falar já para o início da próxima semana de valores que rondam sensivelmente os 35 a 40 graus”, disse, com os 40 mais confinados “às regiões do interior, parte interior do Vale do Douro, Vale do Tejo, interior do Alentejo”.
A mesma meteorologista avisou também para a subida das mínimas, com noites tropicais da ordem dos 20 graus em grande parte do território. E deixou uma nota importante: o tempo quente estava acima da média, mas não autorizava, por si só, previsões alarmistas sobre um episódio histórico em todo o país. O IPMA teve de travar leituras precipitadas sobre cenários extremos, lembrando que ainda havia incerteza na intensidade, na distribuição geográfica e na duração do episódio.
Essa cautela é importante. O recorde absoluto de temperatura máxima em Portugal continental continua a ser 47,3 graus, registado na Amareleja a 1 de agosto de 2003. Não é preciso que esse recorde caia para que o risco aumente: o risco também cresce quando há mais dias muito quentes, mais noites tropicais, mais episódios próximos uns dos outros e mais pressão sobre pessoas e sistemas que não recuperam entre vagas.
As alterações climáticas não inventaram o calor em Portugal. Não inventaram o verão europeu, nem as massas de ar africanas, nem os bloqueios atmosféricos. O que fizeram foi deslocar a linha de partida.
A mesma situação meteorológica joga agora num campo mais quente; o extremo começa mais cedo, sobe mais depressa e demora mais a aliviar.
É essa a mensagem que atravessa a Europa nesta sexta-feira. Não há uma fronteira clara entre Paris e Lisboa, entre Bilbau e o Alentejo, entre as noites francesas que não arrefecem e as mínimas portuguesas que deixam de descer o suficiente. Há graus diferentes do mesmo aviso.
O tempo muda de cidade para cidade. O clima é a história que as une.
