Ondas de calor vão obrigar-nos a "reorganizar a forma como trabalhamos" e Espanha pode ser um exemplo para Portugal

3 jul, 11:11
Calor no Reino Unido (AP Photo/Matt Dunham)
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Segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde, cerca de 2,4 mil milhões de pessoas estão expostas a calor excessivo no trabalho

As vagas de calor cada vez mais frequentes e intensas em Portugal e na Europa estão a tornar-se um desafio não apenas para a saúde pública, mas também para a organização do trabalho e para a própria economia. Para Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC Portugal, as temperaturas extremas são um sinal do que será o futuro e exigem uma transformação profunda na forma como as empresas funcionam.

“O calor e as vagas de calor são um acelerador da necessidade de reinventar o trabalho e a forma como nós trabalhamos”, começa por defender o gestor em declarações no CNN 20 Horas, com Ana Sofia Cardoso.

Segundo o responsável, o modelo que dominou o século XX, assente em horários rígidos, presença física e condições climáticas previsíveis, deixou de corresponder à realidade atual. “Vamos ter de reorganizar a forma como trabalhamos”, sublinha, defendendo que a resposta passa por modelos mais inteligentes e flexíveis, e não por trabalhar menos.

“Trabalhar de forma inteligente é precisamente isso: perceber que aquilo que era uma realidade no século XX, em que era necessário sincronizar horários e trabalhar presencialmente, hoje pode ser feito de forma mais coordenada. A grande questão é saber quando é que as pessoas devem estar presentes e trabalhar em conjunto e quando isso não é necessário”, sublinha.

Desporto já resolveu o problema

Jorge Portugal considera que vários setores já começaram a adaptar-se à nova realidade. Um dos exemplos é o desporto, onde foram introduzidas pausas para hidratação durante as competições em períodos de calor intenso.

“No Mundial de Futebol, por exemplo, o problema já começou a ser enfrentado com pausas para hidratação”, lembra, salientando que “a questão não passa apenas por dar mais água às pessoas”. “O que está em causa é um novo modelo de organização do trabalho. Já existem exemplos concretos, seja nas pedreiras ou na agricultura, com cabines climatizadas, drones, máquinas de automação e armazéns automatizados. Hoje, a tecnologia permite trabalhar de forma a que as pessoas estejam menos expostas ao calor”, refere Jorge Portugal.

Segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde, cerca de 2,4 mil milhões de pessoas estão expostas a calor excessivo no trabalho, enquanto se registam 22 milhões de acidentes laborais relacionados com estas condições. Por isso, defende o diretor-geral da COTEC, “o desafio é conciliar dois objetivos: proteger os trabalhadores e, ao mesmo tempo, preservar a produtividade.”

Economia portuguesa em risco

Mas não é só o bem-estar e a saúde dos trabalhadores que se vê em risco com a subida das temperaturas por estes dias. O diretor-geral da COTEC defende também uma reflexão sobre o impacto das ondas de calor em setores estratégicos da economia portuguesa, em particular o turismo.

“É evidente que temos de repensar o turismo enquanto setor vital, porque as cidades estão cada vez mais afetadas pelo calor. Há temperaturas mais elevadas, mais pessoas e, por isso, teremos de encontrar novos modelos para que as cidades continuem a ser visitadas”, sublinha o gestor.

Perante a perspetiva de vagas de calor mais frequentes em Portugal, Jorge Portugal considera que será necessário encontrar novos modelos para manter a atratividade do país, incluindo alternativas em espaços climatizados.

“Se queremos que os turistas continuem a visitar o país com temperaturas de 40 graus, teremos de criar alternativas em ambientes com menor exposição ao calor”, alerta Jorge Portugal, lembrando que Espanha “tem conseguido encontrar soluções, como circuitos turísticos que não obrigam as pessoas a estar na rua sob calor extremo”. “Talvez seja preciso começarmos a pensar nisso com algum sentido de urgência”, salienta.

Esta sexta-feira o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) elevou de 10 para 12 o número de distritos de Portugal continental que estão já sob aviso vermelho devido ao calor, situação que se mantém até domingo.

Segundo o IPMA, o aviso vermelho, o mais grave numa escala de três, está esta sexta-feira ativo nos distritos Portalegre, Évora, Beja, Santarém, Lisboa, Viana do Castelo, Porto, Braga, Coimbra, Aveiro, Leiria e Setúbal.

O aviso vermelho surge numa altura em que Portugal continental atravessa num período de temperaturas elevadas, com máximas que podem chegar aos 44 graus Celsius (ºC) e mínimas entre os 24ºC e os 28ºC.

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