Recordes estão a ser batidos diariamente um pouco por todo o continente, havendo até alertas de países que foram construídos "para um clima que já não existe"
Os recordes de temperatura estão a ser batidos em toda a Europa, enquanto partes do continente sofrem com uma onda de calor que traz temperaturas extremas alarmantemente cedo no ano.
O continente está a lidar com uma poderosa cúpula de calor, um sistema persistente de alta pressão que atua como uma tampa numa panela, aprisionando o ar quente e empurrando-o para baixo. Pode permanecer no local durante dias ou até semanas e é um fenómeno meteorológico que se torna mais provável e mais intenso devido às alterações climáticas provocadas pelo homem.
Esta segunda-feira, o Reino Unido registou o dia mais quente de maio da sua história, com as temperaturas a atingirem os 34,8 graus Celsius nos Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, quebrando o recorde anterior em 2 graus Celsius. Normalmente, os recordes de calor são batidos por apenas frações de grau.
Já esta terça-feira, o recorde foi novamente batido, com as temperaturas a atingirem os 35 graus. A temperatura máxima média em Londres no final de maio é de cerca de 20 graus Celsius.
Com o aumento do calor nesta segunda-feira, um incêndio florestal deflagrou perto de Arthur's Seat, uma colina em Edimburgo, na Escócia, e centenas de propriedades no sudeste de Inglaterra ficaram sem água devido ao aumento repentino da procura.
A noite foi curta para o Reino Unido, que viveu uma "noite tropical" com temperaturas que não desceram abaixo dos 20 graus.
Estas temperaturas podem não parecer extremas, mas são muito desconfortáveis - até mesmo perigosas - no Reino Unido, onde a maioria das casas não tem isolamento térmico adequado e apenas cerca de 5% dos lares têm ar condicionado. Um relatório divulgado na semana passada pela Comissão das Alterações Climáticas do Reino Unido alertou que o país foi "construído para um clima que já não existe".
"Embora tenhamos ocasionalmente períodos de calor em maio, o que estamos a ver agora é sem precedentes", diz Stephen Dixon, porta-voz do Met Office. As alterações climáticas estão a aumentar as hipóteses de bater recordes de temperatura em maio, acrescenta Dixon à CNN. "O que antes era um evento que ocorria a cada 100 anos, agora ocorre a cada 33 anos."
O Reino Unido não é o único lugar a sofrer. Grande parte da Europa Ocidental enfrenta temperaturas de 10 a 15 graus Celsius acima do normal esta semana.
França está a registar um calor “sem precedentes” para esta altura do ano, segundo o serviço meteorológico Météo France, tendo esta segunda-feira sido o dia mais quente de maio de que há registo.
As temperaturas extremas estão a ter consequências mortais. Registaram-se “sete mortes direta ou indiretamente ligadas ao calor, incluindo pelo menos cinco por afogamento, bem como mortes relacionadas com o calor extremo durante eventos desportivos”, disse Maud Bregeon, porta-voz do governo francês, à cadeia de televisão TF1.
No domingo, um homem de 53 anos morreu durante uma corrida em Paris e uma mulher morreu num evento desportivo da Hyrox na cidade de Lyon, segundo a Associated Press, que cita notícias da imprensa local.
Ainda não foi confirmado se as mortes estiveram relacionadas com o calor, mas a ministra dos Desportos de França, Marina Ferrari, pareceu estabelecer uma ligação, afirmando que as mortes são “um forte lembrete de que a prática de desporto em calor extremo exige vigilância absoluta”.
Espanha está também a enfrentar “temperaturas extraordinariamente altas para esta altura do ano”, segundo o serviço meteorológico AEMET, com as temperaturas previstas no sul do país a atingirem os 40 graus na segunda quinzena da semana, tal como em Portugal.
O calor é um dos sinais mais claros da crise climática. Os gases que aquecem o planeta, expelidos pela queima de combustíveis fósseis, envolvem a Terra como um cobertor. Os cientistas são unânimes em afirmar que as alterações climáticas estão a alimentar ondas de calor mais extremas - e a Europa é o continente que está a aquecer mais rapidamente.
“Sabemos, sem sombra de dúvida, que ondas de calor como estas se tornaram mais prováveis e mais severas devido às alterações climáticas”, disse Peter Thorne, diretor do Centro de Investigação Climática ICARUS da Universidade de Maynooth, na Irlanda. “Mas, mesmo assim, muitos dos recordes que estão a ser batidos, principalmente no Reino Unido e em França, são inacreditavelmente absurdos”, acrescentou.
As consequências são mortais. Mais de 62 mil pessoas morreram de causas relacionadas com o calor na Europa durante o ano mais quente alguma vez registado no planeta, em 2024. O El Niño emergente, um padrão climático natural que pode trazer temperaturas globais acima da média, pode tornar 2026 e 2027 ainda mais quentes.
Os cientistas alertam para ondas de calor ainda mais extremas nos próximos anos e décadas. Este ano promete ser um dos mais quentes de que há registo, mas ainda assim é provável que seja um dos mais frios que iremos viver durante as nossas vidas.
Taylor Ward contribuiu para esta reportagem
