Dezenas de afogamentos, escolas fechadas e é só o começo do calor: o que está a acontecer à Europa

CNN , Laura Paddison
24 jun, 08:00
Mulheres protegem-se do sol sob guarda-sóis a 21 de junho, em Sevilha, Espanha. A Europa Ocidental enfrenta a sua segunda grande onda de calor em 2026 (Marcelo del Pozo/Getty Images via CNN Newsource)
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A Europa é o continente que aquece mais rapidamente em todo o planeta e há quem avise: "Isto não é o novo normal, isto é o prenúncio de uma catástrofe absoluta"

O calor implacável e mortífero está a apertar o cerco sobre a Europa, prevendo-se que os recordes de temperatura não sejam apenas batidos, mas sejam pulverizados esta semana. Os cientistas alertam que este calor extremo é um enorme problema para a Europa e um alerta para uma nova realidade.

A Europa é o continente que aquece mais rapidamente no planeta, com um ritmo de aquecimento duas a três vezes superior à média global, e ainda assim está lamentavelmente impreparada. A sua infraestrutura não foi construída para o calor extremo; quando as temperaturas disparam, os carris dos comboios cedem, os cabos de energia rompem-se, as casas transformam-se em verdadeiras armadilhas de calor e milhares morrem.

Esta semana é mais um lembrete brutal de que o calor na Europa está a tornar-se mais severo e mais frequente. Marca a segunda onda de calor recorde em dois meses consecutivos, com o potencial de que os máximos nacionais de temperatura sejam batidos ainda antes de a Europa chegar a julho, tipicamente o seu mês mais quente.

"Isto não é o novo normal; isto é o prenúncio de uma catástrofe absoluta", avisa Hugh Montgomery, professor de medicina intensiva no University College London.

A França, atual epicentro do calor extremo, acaba de registar o seu dia mais quente da história. A temperatura média nacional atingiu os 29,8 graus Celsius, quebrando um recorde alcançado em 2019, segundo dados provisórios da Météo-France. Uma cidade chegou a registar temperaturas acima dos 44 graus Celsius.

O calor rapidamente se tornou mortal. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, anunciou esta terça-feira que 40 pessoas morreram afogadas desde 18 de junho, relacionando os afogamentos com as altas temperaturas e classificando-os como um "flagelo terrível". Três idosos também perderam a vida devido ao calor perto de Bordéus, e duas crianças, de dois e quatro anos, foram encontradas mortas dentro de um carro quente no sul de França.

Um homem sentado numa cama de campismo num centro de emergência para alívio de ondas de calor aberto pela cidade de Bordéus, enquanto França enfrenta uma onda de calor, no dia 22 de junho (Philippe Lopez/AFP/Getty Images via CNN Newsource)
Um homem sentado numa cama de campismo num centro de emergência para alívio de ondas de calor aberto pela cidade de Bordéus, enquanto França enfrenta uma onda de calor, no dia 22 de junho (Philippe Lopez/AFP/Getty Images via CNN Newsource)

No Reino Unido, as temperaturas deverão subir para mais de 37 graus Celsius esta semana, com o Serviço Meteorológico Britânico (Met Office) a emitir um aviso vermelho, algo muito raro, para calor extremo, indicando risco de vida.

Centenas de escolas estão a fechar ou a passar a funcionar em part-time, as pessoas foram aconselhadas a evitar viagens de comboio e o Met Office alertou para impactos severos nos preços da energia e da água. Londres está a "ferver", disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, num discurso na Semana do Clima de Londres, esta terça-feira.

O recorde de temperatura para junho no país, de 35,7 graus Celsius, parece estar prestes a ser batido até 6 graus acima esta semana.

"Bater recordes em vários graus é absolutamente insano", garante Peter Thorne, diretor do Centro de Investigação Climática ICARUS da Universidade de Maynooth, na Irlanda.

Em Espanha, as temperaturas ultrapassaram os 45 graus Celsius em Andújar, município no sul do país, segundo o serviço meteorológico AEMET. Quase todo o país esteve sob alerta de calor esta terça-feira.

Os alertas de calor estão em vigor em 23 países da Europa esta terça-feira, com cinco no nível vermelho, o mais severo: Alemanha, França, Espanha, Suíça e Luxemburgo.

O que está a causar o calor?

As temperaturas muito elevadas são provocadas por uma cúpula de calor - uma vasta área de alta pressão estacionária sobre grandes extensões da Europa, que funciona como uma tampa numa panela, retendo o calor de forma persistente.

A cúpula de calor não é incomum na Europa durante o verão, “mas as temperaturas são”, afirma Richard Allan, professor de climatologia na Universidade de Reading. Estas temperaturas estão a ser intensificadas pelas alterações climáticas, impulsionadas pela queima de petróleo, carvão e gás natural, que eleva a temperatura ambiente, tornando cada onda de calor mais intensa.

Um El Niño em fortalecimento está também a formar-se no Pacífico tropical, um fenómeno conhecido por aumentar a frequência e a intensidade das ondas de calor extremas em todo o mundo. No entanto, como acabou de começar, "está a ter pouco ou nenhum impacto" na atual onda de calor, frisa Liz Bentley, CEO da Royal Meteorological Society. Contudo, poderá intensificar o calor no próximo verão.

Uma placa a indicar 42 graus Celsius em Palma de Maiorca, Espanha, no dia 20 de junho (Jaime Rena/AFP/Getty Images via CNN Newsource)
Uma placa a indicar 42 graus Celsius em Palma de Maiorca, Espanha, no dia 20 de junho (Jaime Rena/AFP/Getty Images via CNN Newsource)

Os cientistas afirmam que, mesmo sem o El Niño, as alterações climáticas são a principal causa do calor extremo. "Há uma triste inevitabilidade em tudo isto, com cientistas como eu a repetir as mesmas frases ano após ano", lamenta Friederike Otto, professora de climatologia no Imperial College London. "Sim, são as alterações climáticas, sim, somos nós, não, não é o El Niño".

Porque é que a Europa é o continente que aquece mais rapidamente?

Uma das principais razões pelas quais a Europa é o continente que aquece mais rapidamente no planeta é que partes dela se estendem até ao Ártico. Esta região é o local que aquece mais rapidamente na Terra devido a um ciclo vicioso de retroalimentação: temperaturas mais elevadas derretem a neve e o gelo, expondo superfícies mais escuras por baixo, que, por sua vez, absorvem mais energia solar, amplificando o aquecimento.

A legislação antipoluição, numa ironia cruel, também aumentou o aquecimento porque limpou a atmosfera de pequenas partículas poluentes que, embora prejudiciais para a saúde humana, ajudaram a refletir a energia solar para longe da Terra e de volta para o Espaço.

Também há alterações na circulação atmosférica a afetar o continente, nota Thorne, da Universidade de Maynooth. Estas mudanças "parecem estar a tornar os bloqueios atmosféricos com massas de calor mais frequentes e duradouros", acrescenta à CNN.

A Europa está a aquecer mais rapidamente do que o previsto?

Em síntese, não - o que está a acontecer agora é o que os cientistas têm vindo a alertar há algum tempo. O aumento da intensidade e da extensão das ondas de calor na Europa "é amplamente consistente com o que se espera das simulações computacionais e da teoria física", diz Allan, da Universidade de Reading.

A intensidade e o aparecimento precoce do calor podem ainda surpreender, no entanto. "Alguns impactos podem estar a aparecer no limite superior das expectativas", reforça Bentley.

Por exemplo, um dia com 40°C no Reino Unido foi algo sem precedentes até julho de 2022, quando as temperaturas atingiram os 40,3°C. Isto deveria ter sido um "alerta", sublinha Otto, "mas claramente alguém ignorou".

Este recorde pode ser batido esta semana. Atingir novamente os 40 graus Celsius, "e em junho desta vez, seria extremamente alarmante", afirma Otto.

Porque é que a Europa está tão mal-preparada para o calor?

As temperaturas que a Europa está a enfrentar agora podem não parecer tão extremas para alguns, mas o calor afeta de forma diferente os países onde o ar condicionado é muito raro - presente em apenas cerca de 20% dos lares europeus. Historicamente, o continente tinha menos necessidade de refrigeração artificial, porque o calor extremo e prolongado era menos comum. No norte da Europa, muitas casas foram construídas para reter o calor.

“O calor que realmente prejudica as pessoas é o calor retido dentro das suas casas”, diz Timur Dogan, professor associado de arquitetura na Universidade de Cornell. “Quando as noites permanecem quentes, o calor acumula-se na estrutura dia após dia, as condições internas pioram progressivamente e o corpo nunca recupera”, acrescenta.

Em temperaturas extremas, especialmente com humidade elevada, o corpo começa a perder a capacidade de se arrefecer, podendo provocar exaustão pelo calor ou mesmo insolação, que pode ser fatal. “Este calor não é um incómodo, é uma ameaça crescente à saúde pública”, avisa Otto.

As ondas de calor de maio e junho na Europa podem ser apenas o início de um verão extremo no continente. “Há um consenso generalizado de que os próximos três meses serão anormalmente quentes”, diz Thorne.

A Europa - assim como grande parte do resto do mundo - não se apercebeu de que o clima mudou, alerta o especialista.

“Ninguém está realmente preparado para o que as alterações climáticas trarão. Desenvolvemos tudo - e digo mesmo tudo - para um clima estável do qual nos estamos a despedir rapidamente”, conclui Thorne. “Estamos definitivamente a entrar na fase de descoberta, depois de dois séculos de experimentação com a queima de combustíveis fósseis - e não será nada agradável.”

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