Vem aí a nova época e todos os sinais apontam para um campeonato que pode ser um dos mais equilibrados dos últimos anos. Em momentos diferentes e por razões distintas, Sporting, Benfica e FC Porto fazem os adeptos acreditar na possibilidade de uma luta pelo título
Todos temos aquela sensação de que é sempre melhor quando um reforço marca. Até é assim nos jogos de Playstation - prefiro sempre quando um jogador que contratei se destaca no início -, quanto mais na vida real. O FC Porto encontrou esse reforço em Victor Froholdt, claramente o jogador com mais impacto desde que os clubes trabalham para a nova época, enquanto o Sporting perdeu o seu próprio Viktor e o Benfica contratou um jogador que o FC Porto tentou antes de Victor. É o Richard Ríos, de quem os benfiquistas esperam que seja o mesmo que Victor Froholdt já representa para os portistas. Se possível, que seja até melhor.
Estas três diferenças em relação à época passada são sintomáticas para o que aí vem: um Sporting já sem Viktor Gyökeres e à procura de coisas novas, um Benfica com um meio-campo totalmente renovado e um FC Porto que personifica em Froholdt tudo aquilo que se espera, depois de três épocas longe do título.
Neste mesmo período, o Sporting já perdeu um troféu e perdeu ainda mais do que isso, o Benfica já conseguiu um troféu e está bem lançado para entrar na Liga dos Campeões e o FC Porto entusiasma, mesmo que seja só em particulares e no mercado.
Este é o resumo à partida para a primeira jornada da Liga, que este ano promete ter três candidatos ao título. Resta saber se isso vai acontecer, já que há muito que não vemos três equipas a lutar até ao fim.
Sporting na ressaca
Olhando para o bicampeão, sofreu uma perda perto do irreparável, já que Viktor Gyökeres é um dos melhores jogadores da sua história, seguramente o melhor em mais de 20 anos, apenas rivalizando com Mário Jardel. Além da qualidade futebolística que se vai, é necessário perceber o real impacto de um processo desgastante com acusações de parte a parte e um trabalhador a faltar ao trabalho - foi isso que o sueco fez durante perto de uma semana.
Há muito consciente de que esta transferência ia acontecer, o Sporting antecipou-se a identificar um avançado concreto. Luis Suárez chega do Almería, da segunda divisão espanhola, prometendo ser completamente diferente do que foi o seu antecessor, mas tendo o seu próprio impacto.
Se render o mesmo que outros futebolistas que vieram de divisões secundárias, então o Sporting está assegurado. Basta lembrarmos o próprio Gyökeres (que veio do Conventry), mas também Darwin Núñez (chegado ao Benfica do mesmo Almería).
Claramente mais maduro que Conrad Harder, o colombiano já trouxe notas de acrescento na sua estreia, na Supertaça, com o Benfica. Com as suas caraterísticas é muito provável que faça muitos golos, mas vai exigir ao Sporting que melhore um coletivo que com Rui Borges foi sempre demasiado dependente de Gyökeres.
Quanto ao dinamarquês, o Harder, que é um autêntico protótipo do sueco, falta-lhe fazer a conversão para máquina. É loiro e tem raiva, mas parece não ter a mesma frieza de Gyökeres, que galgava metros como um icebergue no campo. Será sempre uma boa opção para entrar, mas, pelo menos para já, não mais do que isso.
Olhando para o resto da equipa, não há muito a dizer, já que o plantel se mantém na sua espinha-dorsal e até acrescentou com as chegadas de Kochorashvili, Vagiannidis ou Ricardo Mangas.
Há mais uma opção válida para o meio-campo e a lateral-direita pode, finalmente, receber um jogador que venha para agarrar o lugar. Quanto a Ricardo Mangas, é uma incógnita o que pode acrescentar, porque dificilmente vem para ser titular. Mesmo sem sabermos se Rui Borges o vê como um ala ou um lateral, dificilmente ganhará a Trincão/Pedro Gonçalves ou a Maxi Araújo, respetivamente. O mesmo é válido para Jota Silva, se chegar, já que não se vê a entrar de caras no onze com as opções existentes.
A grande dúvida do Sporting reside, portanto, numa única coisa: saber se é mesmo possível manter Morten Hjulmand. O dinamarquês, esteio do meio-campo do bicampeão, está a ser assediado pela Juventus, mas em Alvalade há a noção de que é essencial manter o capitão, para muitos o jogador mais fundamental, até mesmo mais do que Gyökeres. A palavra de ordem é conhecida: para sair terão de pagar a cláusula.
Se Hjulmand não sair, o Sporting parte mais ou menos na mesma base, com a tal diferença de não ter o tanque sueco na frente. Por outro lado, Rui Borges tem agora oportunidade total para trabalhar a equipa como quer e mexer no onze como lhe apetecer, com o que de bom e de mau isso possa ter. Pedro Gonçalves já pode ser o 10, se o treinador assim o entender, e a defesa pode finalmente ser feita de uma linha de quatro.
A certeza: Pedro Gonçalves de regresso e a chegar junto a uma posição que sempre foi a dele. Se já jogava tudo o que jogava fora do sítio, imagine-se bem enquadrado.
A dúvida: Morten Hjulmand fica? Se ficar é uma coisa, se não ficar é outra completamente diferente.
A esperança: Luis Suárez não é Viktor Gyökeres e será sempre odioso fazer essa comparação. Mas o colombiano tem muita qualidade e o mais provável é que tenha impacto no campeonato português.
As teimas são para tirar já esta sexta-feira, em Rio Maior, com o Sporting a defrontar o Casa Pia no jogo inaugural da edição de 2025/26.
Um Benfica de cara lavada
Já estamos habituados a ver o que gira à volta do Benfica como um autêntico carrossel que vai do 8 ao 80 em pouco tempo. No fim da temporada passada era tudo um desastre, Bruno Lage tinha de sair e dificilmente Rui Costa seria eleito como presidente.
Agora começou a nova época, o Benfica já ganhou a Supertaça e mostrou-se com qualidade na entrada na fase de acesso à Liga dos Campeões, derrotando o Nice em França por 2-0.
Logo à cabeça é Franjo Ivanovic a mostrar serviço. Muito se fala do avançado croata, que parece chegar para ser a grande figura da nova época. Mesmo que Vangelis Pavlidis continue no onze - o mais provável parece ser uma dupla de avançados -, Ivanovic será o diferenciador, até porque tem outra pujança, o que no futebol português tem sempre impacto.
E se a dupla vai mesmo avançar para a titularidade, parece haver um desequilíbrio claro no plantel, já que sobra apenas Henrique Araújo como alternativa. Mesmo que o jovem português esteja preparado para o desafio - o que não é claro -, faltam alternativas em número.
É apenas uma das várias mudanças no Benfica, que trocou totalmente o meio-campo, trazendo Enzo Barrenechea e Richard Ríos, claros acrescentos de qualidade, mas que ainda precisam de tempo para ser o elo de ligação de toda a equipa. Este último, vindo do Palmeiras, é para o Benfica o sinónimo de mudança. É para os benfiquistas o que os portistas veem em Froholdt. Se for mais que isso, porque pode sê-lo, ainda melhor. É como que um "Vítor" do Benfica, que de nórdicos até faz o pleno (dois noruegueses, um dinamarquês e um sueco).
De resto, a saída de Álvaro Carreras não parece ter sido propriamente bem colmatada. Samuel Dahl é muito diferente e nem sequer dá para perceber se Obrador está num patamar de exigência deste nível. Em conjunto com a chegada (ou não) de mais um médio, é a grande dúvida do Benfica para esta nova época.
E esse tal médio é a “bomba” que tanto se fala nas redes sociais, a mesma “bomba” que Rui Santos antecipou na CNN Portugal, com o Benfica a tentar fechar uma grande contratação que faça esquecer os falhanços Thiago Almada e João Félix, desviados por Atlético de Madrid e Al Nassr, respetivamente.
Dos rumores levantaram-se três nomes: Brahim Díaz, Paulo Dybala e Isco. Todos grandes nomes, mas também grandes incógnitas. O primeiro nunca conseguiu dar o salto final para ser verdadeiramente preponderante no Real Madrid. Os outros dois carecem de um problema diferente, que deriva mais para o lado físico. O argentino é um craque de mão cheia, mas nunca se sabe se vai conseguir fazer mais de 15/20 jogos de alto nível durante uma época, enquanto o espanhol, que se reencontrou no quase anonimato do Bétis, pode não saber lidar com o peso de ter de voltar a liderar uma equipa que luta por conquistar títulos.
A certeza: nem era preciso o golo em Nice, mas serve que nem uma prova de algodão para garantir que Ivanovic é um claro acrescento ao Benfica.
A dúvida: quem é a tal “bomba”? E ela vem mesmo? Se vier, o Benfica passará a jogar de uma forma. Se não vier, o mais provável é continuar com os dois avançados, o que levanta a dúvida sobre as alternativas no plantel.
A esperança: Richard Ríos chegou como um propalado dínamo, como a contratação mais cara da história do Benfica, sucedendo a Orkun Kökçü. Resta saber se terá melhor sorte que o turco.
No campeonato estas são dúvidas para esclarecer apenas no outro fim de semana. Para já o Benfica concentra-se na Liga dos Campeões, tendo adiado a primeira jornada para setembro.
FC Porto: o que há depois do zero?
Ponto um: o FC Porto está a entusiasmar. Ponto dois: qualquer coisa entusiasmaria depois da deprimente época anterior. Os dragões estão a fazer um mercado de excelência e têm um treinador que parece saber o que faz e que também tem o desprendimento necessário para conseguir fazer o seu trabalho. Por esta ordem, foi o que faltou a Martín Anselmi e a Vítor Bruno, já que o primeiro claramente não percebeu a dimensão do que lhe foi pedido, enquanto o segundo teve, desde o primeiro dia, anticorpos complicados dentro e fora de campo.
Com aura renovada, o FC Porto contratou muito, mas de forma cirúrgica. Faltando ainda ver o que sai dali em concreto, todos os reforços parecem ser isso mesmo, reforços.
Dos oito jogadores apresentados, cinco parecem ter lugar garantido no onze base, enquanto os outros três têm razões atendíveis para serem contratados. Vamos a estes últimos primeiro: Luuk De Jong chega para marcar golos quando mais ninguém conseguir. Quando a bola teimar em não entrar, chama-se um dos melhores cabeceadores do mundo para fazer o que faz melhor; Dominik Prpic é um jovem desconhecido de investimento futuro, mas as indicações que tem dado deixam no ar uma possível titularidade a médio prazo, sobretudo se Nehuén Pérez continuar sem se afirmar; João Costa chega para trazer Porto ao balneário. Sabe que não vai jogar muito, se calhar nem vai jogar de todo, mas já se percebeu que tem um papel muito específico no seio do grupo.
Voltando ao início, os outros cinco reforços cheiram a qualidade. Uns mais que outros, claro, até porque um deles aparece como o jogador com mais impacto de todos os que chegaram a Portugal neste mercado de transferências. Falamos de Victor Froholdt, claro, que está a rebentar tudo no meio-campo, aparecendo como um jogador que parece fazer três posições ao mesmo tempo. Apesar de ter apenas 19 anos, é claramente reforço e, a jogar assim, arrisca-se a ter uma passagem fugaz, ainda que de sucesso, pelo Dragão.
Quanto aos restantes, Jan Bednarek traz a segurança e a calma necessárias, depois da perda total de referências no centro da defesa - e que sentido faz falar da perda de referências na defesa do FC Porto por estes dias.
Alberto Costa parece ter sido um excelente negócio de oportunidade. Em condições normais terá a concorrência de Martim Fernandes, mas pode perfeitamente afirmar-se como titular no sistema de Francesco Farioli, mesmo que o treinador não dê um grande destaque ofensivo aos laterais.
Gabri Veiga acrescenta, como só podia deixar de ser, mas ainda estamos todos à espera que expluda e mostre o que é mesmo capaz de fazer. A definição que dá a cada jogada é, contudo, essencial para elevar o futebol dos dragões.
Quanto a Borja Sainz, é um irrequieto espanhol que também vai trazer golo. Parece precisar mesmo de mostrar o que vale, mas tem de ter calma e esperar.
Mesmo apesar de todas estas aparentes boas notícias, o FC Porto parte muito mais frágil, já que há muitos problemas e muitas dúvidas. Apesar das contratações, parece claro que ainda falta um grande central, um lateral esquerdo para competir com Francisco Moura e um avançado mais condizente com a ideia do treinador do que Samu. Fossem verdade os rumores de que o Newcastle estará interessado no espanhol, um bom negócio - ali a rondar os 60 milhões de euros - e a chegada de um novo ponta de lança podiam ser uma mais valia.
Nota ainda para as duas maiores joias da coroa. Diogo Costa não pode mesmos sair. Se isso acontecer, o FC Porto fica com um problema bicudo em mãos, já que existem dúvidas sobre se Cláudio Ramos chega para a tarefa. É um bom guarda-redes, mas não chega aos calcanhares do titular da Seleção.
A outra questão é Rodrigo Mora. Até pode fazer-lhe bem não ter de assumir toda a responsabilidade de levar a equipa às costas, desde que o jovem tenha a cabeça no sítio certo e perceba que se trabalhar terá sempre lugar. Numa época longa e com competições europeias pelo meio, certamente que haverá tempo para todos jogarem.
A certeza: é inevitável que seja Froholdt. Mesmo que tenha apenas dois jogos transmitidos na televisão, o jovem que ainda tem vestígios de acne é um reforço claro e óbvio.
A dúvida: ainda vai sair alguém? E quem? Se for Diogo Costa há um problema, e dos grandes. Se for outro jogador até pode ser uma oportunidade.
A esperança: será mesmo o treinador, que parece já ter conseguido impor as suas novas ideias no Dragão. Para ver se lhe dão tempo e espaço se as coisas não começarem logo a correr bem.
O primeiro teste de fogo é contra uma das equipas mais difíceis. O FC Porto recebe o Vitória Sport Clube na segunda-feira, num jogo que será envolto pela consternação em torno da morte de Jorge Costa.