Homem saudável sofre AVC e fica com sequelas permanentes: consumia várias bebidas energéticas por dia

CNN , Sandee LaMotte
4 jan, 11:00
As bebidas energéticas podem conter níveis elevados de cafeína, açúcar e outros ingredientes que aumentam os níveis de açúcar no sangue. (SolStock/E+/Getty Images via CNN)

Médicos alertam para o risco de hipertensão, conhecida como o "assassino silencioso", e para os efeitos do excesso de cafeína e de outros ingredientes destas bebidas

Tinha 54 anos, era saudável e fisicamente ativo, um corredor assíduo, sem vícios - não fumava, não bebia álcool nem consumia drogas. Por isso, quando começou subitamente a sentir fraqueza e dormência no lado esquerdo do corpo, bem como dificuldades de equilíbrio, de marcha, de deglutição e de fala, um familiar levou-o de urgência para uma clínica especializada em AVC.

"A pressão arterial estava extremamente elevada - cerca de 254 por 150 milímetros - e, no entanto, ao olhar para ele, nunca diríamos isso, porque parecia estar muito bem. É por isso que chamamos à hipertensão o assassino silencioso", afirma Sunil Munshi, médico consultor nos Hospitais Universitários de Nottingham, no Reino Unido.

Munshi é o autor sénior de um relatório clínico sobre o caso do homem, um trabalhador de armazém de Sherwood, em Nottingham, cujo nome não foi divulgado para proteger a sua privacidade. O artigo foi publicado na revista BMJ Case Reports.

A pressão arterial considerada normal em adultos é inferior a 120/80 mmHg (milímetros de mercúrio). Valores iguais ou superiores a 180/120 representam uma situação de emergência médica e exigem assistência imediata.

"O lado esquerdo do corpo estava dormente e os exames mostraram que tinha sofrido um AVC numa zona mais profunda do cérebro, o tálamo, o que explica a instabilidade", diz Munshi. "Foi internado e tratámo-lo com cinco medicamentos diferentes até a pressão arterial descer para 170."

De regresso a casa, a pressão arterial do homem continuou a subir, atingindo valores de 220, apesar de estar a tomar vários medicamentos. Durante semanas, Munshi e a sua equipa procuraram respostas, realizando exames exaustivos que não revelaram qualquer causa. Até que, um dia, o homem contou ao médico que tinha o hábito de consumir bebidas energéticas.

"Todos os dias consumia oito bebidas energéticas muito potentes para se manter alerta no trabalho - duas latas em quatro momentos diferentes ao longo do dia", explica Munshi. (A marca não foi identificada no estudo.) "Cada uma das bebidas continha 160 miligramas de cafeína. De repente, o diagnóstico ficou claro."

Algumas bebidas energéticas podem conter até 500 miligramas de cafeína, enquanto o chá tem 30 miligramas e o café 90, informa Martha Coyle, médica interna nos Hospitais Universitários de Nottingham e primeira autora do estudo.

"No Reino Unido, as orientações recomendam um máximo de 400 miligramas de cafeína por dia, o equivalente a duas a quatro chávenas de café", afirma Coyle. "Este homem estava a consumir entre 1.200 e 1.300 miligramas, cerca de três vezes mais."

A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) também recomenda não ultrapassar os 400 miligramas de cafeína por dia.

Apenas algumas semanas depois de ter deixado de consumir a bebida energética, a pressão arterial do homem voltou a valores normais. Hoje, vários anos após o episódio, está saudável, mas continua a viver com as sequelas do AVC.

"Obviamente, não tinha consciência dos riscos associados ao consumo de bebidas energéticas", contou o homem aos médicos. "Fiquei com dormência na mão esquerda e nos dedos, bem como no pé e nos dedos do pé, mesmo passados oito anos."

Combinações de ingredientes "causam estragos"

Não é apenas a cafeína em doses elevadas. Hoje em dia, as bebidas energéticas contêm também ingredientes que aumentam a pressão arterial, como o aminoácido taurina, revela Munshi.

"As bebidas energéticas que combinam cafeína e taurina provocam aumentos da pressão arterial significativamente superiores aos da cafeína isolada", afirma. "Contêm ainda níveis elevados de glicose - sabemos que o açúcar danifica os vasos sanguíneos na diabetes, o que acaba por levar a problemas cardíacos."

As bebidas energéticas contêm também, regra geral, ginseng, que afeta o metabolismo, e guaraná, uma planta que se acredita conter cafeína em concentrações cerca de duas vezes superiores às do grão de café, segundo o estudo. Estimulantes mais suaves, como a teofilina, presente no cacau, e a teobromina, encontrada no chá, são igualmente frequentes, aponta Coyle.

Segundo Munshi, este tipo de bebidas pode provocar arritmias cardíacas, danificar o endotélio- o tecido que reveste os vasos sanguíneos - e favorecer a agregação das plaquetas.

"Quando as plaquetas se agregam, sobretudo num contexto de níveis elevados de glicose, podem formar coágulos", explica. "Os jovens estão muitas vezes dispostos a experimentar bebidas energéticas, sobretudo em combinação com outras drogas, como a cocaína ou a metanfetamina, que têm efeitos semelhantes, e a combinação de todas estas substâncias pode ter efeitos graves."

A literatura médica está repleta de exemplos dos riscos associados às bebidas energéticas, pelo que este caso, embora impressionante, não é um episódio isolado, afirma Munshi.

"Já vimos outros doentes desenvolverem um ritmo cardíaco irregular, o que chamamos fibrilhação auricular", diz. "Outro doente sofreu uma hemorragia intracerebral e houve ainda um caso de AVC causado por um coágulo no cérebro."

Munshi defende que os médicos precisam de estar mais atentos ao impacto das bebidas energéticas e questionar o seu consumo nas consultas de rotina, "sobretudo quando as pessoas surgem em idades mais jovens com problemas cardiovasculares ou AVC".

"A natureza destas bebidas está a mudar. Tornaram-se cada vez mais perigosas e mais potentes", acrescenta. "Defendemos um reforço da regulação da venda de bebidas energéticas e das campanhas publicitárias, que muitas vezes são dirigidas a públicos mais jovens.

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