Quanto café é demasiado café?

CNN , Katia Hetter
16 fev 2025, 12:00
Muitos estudos concluíram que o café tem efeitos positivos para a saúde quando consumido de forma moderada. Halfpoint/iStockphoto/Getty Images
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Com milhões de pessoas a começar o dia com uma chávena de café, um estudo recente despertou um novo interesse sobre os efeitos da cafeína.

Um extenso estudo realizado no Reino Unido, em setembro, revelou que o consumo moderado de cafeína, seja através do café ou do chá, pode reduzir o risco de desenvolver várias doenças cardiometabólicas, incluindo doenças cardíacas, AVC e diabetes. Outro estudo, publicado em janeiro, concluiu que beber café pela manhã é particularmente benéfico para diminuir o risco de doenças cardiovasculares e de morte prematura.

É bom saber, mas quais são as evidências científicas que sustentam esses benefícios? E qual é a base fisiológica subjacente? De acordo com estes estudos, qual é a quantidade ideal de café para a maioria das pessoas - e a partir de que ponto o consumo se torna excessivo? Há pessoas que devem ter especial cuidado com o consumo de café? E para quem não gosta de café, será que o chá ou outras bebidas oferecem benefícios semelhantes?

Para ajudar a responder a estas questões, conversei com a especialista em bem-estar da CNN,  Leana Wen, médica de emergência e professora associada na Universidade George Washington, nos Estados Unidos. Anteriormente, também exerceu funções como comissária de saúde em Baltimore.

CNN: Qual é a evidência dos benefícios do café para a saúde, e qual a base fisiológica subjacente a esses benefícios?

Leana Wen: A evidência é bastante sólida. Para além dos estudos mais recentes, diversas pesquisas realizadas ao longo de décadas demonstraram que o consumo moderado de café está associado a um menor risco de desenvolver várias doenças, incluindo doenças cardíacas, diabetes, alguns tipos de cancro e até demência.

A razão exata ainda não é conhecida, embora existam várias hipóteses. Por exemplo, o café contém substâncias químicas que se acredita terem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, o que pode contribuir para o seu efeito na redução do risco de cancro.

As substâncias presentes no café podem ajudar o organismo a utilizar a insulina de forma mais eficiente e a regular os níveis de açúcar no sangue. Além disso, alguns dos seus ingredientes podem contribuir para um melhor processamento do colesterol, possivelmente ajudando a proteger contra resultados negativos. No entanto, são necessários mais estudos para compreender quais os componentes do café que têm efeitos benéficos para a saúde.

Qual a quantidade ideal de café?

Muitos destes estudos encontraram efeitos positivos na saúde com um nível moderado de consumo, geralmente definido entre duas a quatro chávenas por dia.

No estudo do Reino Unido de 2024, observou-se uma redução de mais de 48% no risco de desenvolver várias doenças cardiometabólicas, entre aqueles que consumiam três chávenas de café por dia, em comparação com os que não bebiam café ou consumiam menos de uma chávena diária.

De acordo com um grande estudo de 2022, a maior redução na mortalidade precoce foi observada nas pessoas que consumiam duas a três chávenas de café por dia. Curiosamente, este estudo concluiu que o café moído foi o que mais reduziu o risco de morte prematura (27%), enquanto o café solúvel teve um efeito menor (11%).

Quanto café é demasiado?

A preocupação com o consumo excessivo de café está relacionada com o elevado consumo de cafeína, que pode provocar palpitações, ansiedade, inquietação e dificuldade em dormir. Segundo o regulador norte-americano, a Food and Drug Administration (FDA), 400 mg de cafeína por dia são seguros para a maioria dos adultos. Esta quantidade corresponde aproximadamente a quatro chávenas de 240 ml de café filtrado.

Muitas pessoas excedem esta quantidade e não sentem qualquer efeito negativo. No entanto, aqueles que têm dificuldades em dormir ou outros problemas relacionados devem estar cientes de que estes podem ser causados pelo consumo excessivo de cafeína.

E quanto à cafeína presente no café expresso, nos chás e nos refrigerantes?

30 ml de café expresso contêm cerca de 60 a 70 mg de cafeína. Uma chávena de chá preto tem geralmente entre 40 a 50 mg de cafeína, mas pode chegar até 90 mg. Os chás verdes e brancos contêm menos cafeína. Quanto aos refrigerantes, o teor de cafeína varia, mas uma dose de 355 ml geralmente contém entre 3 e 70 mg de cafeína.

Outras bebidas que gostaria de destacar são as bebidas energéticas. Estas bebidas podem conter grandes quantidades de cafeína, frequentemente com 200 ou até 300 mg numa dose. É importante que as pessoas estejam conscientes da quantidade total de cafeína que estão a consumir ao longo do dia, através de todas estas diferentes bebidas. Os refrigerantes e as bebidas energéticas podem conter uma grande quantidade de açúcares adicionados, por exemplo, além de outros produtos químicos que não são benéficos para a saúde.

Há pessoas que devem ter especial cuidado com o consumo de café?

Sim. A Academia Americana de Pediatria recomenda que as crianças com menos de 12 anos não consumam cafeína. As crianças com idades entre os 12 e os 18 anos não devem exceder 100 mg de cafeína por dia.

As mulheres grávidas também devem ter cuidado com a ingestão de cafeína. De acordo com o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, consumir menos de 200 mg por dia não está associado ao risco de aborto espontâneo ou parto prematuro; recomenda-se limitar o consumo a esta quantidade durante a gravidez. Pequenas quantidades de cafeína podem passar para o bebé através da amamentação, mas, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, consumir menos de 300 mg por dia é considerado seguro para as mulheres que amamentam.

Outras pessoas que devem ter cuidado incluem aquelas com condições cardíacas e as que tomam medicamentos que podem aumentar a sensibilidade aos efeitos da cafeína, como alguns medicamentos para a tiroide e antidepressivos.

Além disso, pessoas que têm dificuldade em dormir devem considerar limitar o consumo de cafeína às primeiras horas da manhã. Caso tenham dúvidas sobre a sua situação clínica, devem consultar um profissional de saúde.

E as pessoas que não bebem café? Podem obter benefícios semelhantes com chá ou outras bebidas com cafeína?

É uma questão interessante. Não se sabe, neste momento, se os benefícios para a saúde provêm da cafeína presente no café, que poderia ser replicada através de outras bebidas com cafeína, ou se esses benefícios são intrínsecos ao próprio café.

Pode haver benefícios em beber chá, independentemente da quantidade de cafeína que contenha. Alguns estudos sugerem que o consumo de chá também está associado a uma menor mortalidade e a um risco reduzido de algumas doenças. No entanto, este benefício não se aplica a outras bebidas com cafeína, como as bebidas energéticas e os refrigerantes; qualquer benefício que a cafeína destas bebidas possa oferecer será provavelmente anulado pelos impactos negativos dos açúcares adicionados e de outros produtos químicos presentes.

Resumindo, o que retiro destes estudos sobre o café é que nem toda a gente precisa de o beber. Os adultos que o consomem terão, provavelmente, alguns benefícios para a saúde, desde que o façam com moderação. Todos devem estar cientes da quantidade total de cafeína que consomem, e há pessoas - especialmente crianças pequenas - que não devem consumir cafeína.

 

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