CRÓNICA || Foi com ele o meu primeiro show. E todos os outros seus aqui - foram também meus. Incluindo aquele, que se tornou no concerto (e no conserto) de uma vida, de uma queima, de cerveja a correr pelas costas. Agora voltamos, nós e ele, a um abraçaço em Cascais, no Coala. Temos essa sorte: a de Caetano gostar de nós. Ele sabe que em toda a nossa vida o vamos amar
A 19 de Setembro de 1981, dia em que Caetano Veloso pisou pela primeira vez o palco do Coliseu dos Recreios, ainda não tinha idade para ir a concertos. Nem, em abono da verdade, para ir sozinho a Lisboa. Por essa altura, um e outro eram ainda sonhos longínquos, alimentados muito mais pelas histórias sempre rocambolescas de amigos e primos mais velhos, do que pelas imagens da velha Philco, a preto e branco, a que pouco ligava, excepto às quartas à noite, para as sessões de cinema, a que me foi permitido assistir depois de grandes negociações familiares, que, em boa hora, puseram fim a uma sofrível experiência futebolística.
Mas se os concertos me estavam vedados, a música não. Por isso, coincidência ou talvez não, um exacto mês antes de Caetano Veloso pisar pela primeira vez o palco do Coliseu dos Recreios, ouvi João Gilberto. Foi num início de tarde chuvosa de Agosto, na Figueira da Foz, para onde, por tradição familiar, íamos a veraneio mal as aulas terminavam e o calor de verão se fazia anunciar, na tal velha Philco, a preto e branco, que nos acompanhava religiosamente nessa mudança anual. Fechado em casa, a ler, com a televisão ligada, ouvi de repente, um som dissonante, estranho, mas melodioso e ritmado, acompanhado de uma voz quase inaudível que confiscou toda a minha atenção. Parei a leitura e concentrei-me na TV, onde um homem de fato escuro, sentado num banco de madeira, violão na mão, entoava “pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca...” Durante quase uma hora ouvi atentamente João Gilberto, num show gravado ao vivo para a TV Globo. Meu Deus, o que era aquilo? Que música. Que batida. Que voz suave. Que genialidade. Que perfeccionismo.
João Gilberto canta "Chega de Saudade" com a filha, Bebel Gilberto, ao vivo na rede Globo em 1980
Sei que saí de casa e fui procurar todos os LP’s do João disponíveis no mercado. Comprei dois, os que existiam, "Getz/Gilberto" e "João Gilberto" e, a conselho do dono da loja, num tempo em que nas lojas ainda nos davam conselhos, um outro álbum acabadinho de sair, "Outras Palavras", de Caetano Veloso e foi um verão inteiramente dedicado à Bossa Nova e à descoberta da MPB. Um verão que mudou a minha vida.
Por essa altura ainda não sabia que, enquanto na Figueira da Foz ouvia repetidamente João e Caetano, a uns milhares de quilómetros de distância, fechados num apartamento de Ipanema, os dois, com Gilberto Gil, preparavam a gravação de "Brasil", um dos álbuns míticos da música brasileira. Sobre ele, Caetano diria mais tarde ao Jornal do Brasil: "Todo o trabalho foi na verdade um exercício que nos preparou para dizer uma oração pelo Brasil. (...) Não era uma questão bairrista, regionalista. Não era o fato de sermos baianos que importava. Era o fato de sermos poetas. João dizia: "Como é lindo Aquarela do Brasil com nós três cantando, três poetas brasileiros, cada um se levantando e dizendo sua versão do Brasil." Mas essa versão do samba de Ary Barroso eu só ouviria bastante tempo depois, até porque, Brasil, filho único dos três génios baianos, teve gestação lenta, e demorou mais de nove meses para ser editado.
Entretanto, mergulhei de cabeça em Caetano.
Depois de "Outras Palavras", o seu primeiro disco a vender mais de 100 mil cópias, ouvi "Muito" e "Cinema Transcendental", a trilogia de álbuns gravados com A Outra Banda da Terra, e fiquei absolutamente conquistado. Caetano entrava definitivamente no meu Olimpo musical, ombreando com Bowie, Brel, Waits e, sobretudo, com o deus supremo, Dylan.
Dos três álbuns, "Muito" ficou o meu favorito. No Brasil, foi um fracasso de vendas e, incompreensivelmente, bastante fustigado pela crítica, mas para mim era um primor. Da belíssima fotografia da capa, com Caetano debruçado sobre o colo de Dona Canô, (que só mais tarde viria a saber ter sido tirada no camarim de Bethânia, durante um show), à versão de "Eu sei que vou te amar", passando por "Sampa", "Tempo de Estio", "Muito Romântico", escrita para Roberto Carlos, mas neste álbum cantada por Caetano, com um belíssimo arranjo de Perna Fróis, a Terra, tudo era quase perfeito.
Depois, fui ouvindo outros álbuns, aleatoriamente, como sempre gostei de fazer, e tudo se tornou mais claro.
Primeiro "Bicho", a minha introdução a "Tigresa" e "Leãozinho", e o belíssimo "Cores Nomes" entretanto editado. Depois "Domingo", onde cantava com Gal, o primeiro, e talvez por isso, o mais joãogilbertiano dos seus discos, com arranjos de Dorival Caymmi, Francis Hime e Roberto Menescal, mas onde já se antevia o caminho do Tropicalismo, o mais importante movimento cultural do Brasil dos últimos 60 anos, que Caetano iniciaria logo a seguir, em 1967, no Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, quando apresentou "Alegria, Alegria" acompanhado pelo som das guitarras eléctricas do grupo Beat Boys e Gilberto Gil, Domingo no Parque, com Os Mutantes.
Com Caetano e Gil à cabeça, o movimento incluía nomes como Gal Costa, Rita Lee, Arnaldo Batista, Tom Zé, Torcato Neto, Rogério Duprat, Hélio Oiticica e Glauber Rocha, uma verdadeira amálgama de músicos, jornalistas, cineastas e intelectuais, unidos pela urgência de transformação do panorama cultural brasileiro sob a influência do Cinema Novo e, sobretudo, do Manifesto Antropófago, do poeta modernista Oswald de Andrade.
“Queríamos urgentemente retomar o aspeto rebelde da bossa nova e não continuar a imitar suas aparências estilísticas. Também produzir uma arte que expressasse a violência da situação que vivíamos no Brasil, conectando-nos com a onda contraculturas que, concomitantemente, explodia no mundo.” explicaria Caetano, 50 anos depois, ao jornalista do Diário de Notícias João Almeida Moreira.
Também por essa altura, o crítico do Público António Pires, definia, de forma quase definitiva o movimento. “Há 50 anos, um grupo multicolor de jovens brasileiros cabeludos, excessivo, às vezes debochado, derrubou os muros que separavam o luxo do lixo através do disco Tropicália ou Panis et Circencis, o manifesto definitivo do tropicalismo, movimento que reuniu música pop e concretismo, guitarra elétrica e berimbau, brega e psicadélico, muita criação e nenhum preconceito.”
A verdade é que se o movimento arrebatou um país toldado pela Ditadura Militar, não conseguiu acabar com o preconceito, nem com o policiamento que a elite intelectual dominante gostava de fazer à cultura brasileira. Exemplo disso, a vaia que Caetano sofreu, no ano seguinte, no Festival Internacional da Canção da TV Globo quando apresentava "É Proibido Proibir" e a que respondeu com um discurso histórico contra a plateia.
“...Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores!...”
Esse grito improvisado de revolta, fazia antever um aperto do cerco por parte do regime e, um ano depois, em Dezembro de 68, Gil e Caetano são presos em São Paulo e levados para o Rio de Janeiro, onde ficaram encarcerados por 54 dias, findos os quais foram sujeitos a prisão domiciliária por mais quatro meses. Em Julho de 1969 eram obrigados ao exílio.
Preparava-me, entretanto, para me aventurar pelos discos editados em Londres, durante esse exílio forçado, quando uma notícia ecoou na minha cabeça como uma bomba. Caetano ia regressar a Portugal e, desta vez, com passagem por Coimbra, para uma actuação na Queima das Fitas de 83.
Não podia faltar! Caramba, Coimbra era ali ao lado e 13 anos não eram 10. Claro que, avisados, os meus pais não pensavam bem assim, mas a verdade é que após duras e longuíssimas negociações, consegui levar a minha avante e numa manhã de quinta-feira lá embarquei num autocarro da Rodoviária Nacional, carregado com todos os vinis de Caetano debaixo do braço, não fosse cruzar-me com ele e conseguir uma dedicatória.
A dedicatória não consegui, os discos não sei onde ficaram, mas, ainda hoje, esse é o concerto da minha vida.
Lembro-me das filas intermináveis para entrar no Parque da Cidade e de um mar de gente comentar que se tratava da maior enchente de sempre da Queima das Fitas. Lembro-me dos empurrões constantes e do frio da cerveja entornada em cascata nas minhas costas. Lembro-me de haver um atraso enorme para o início do espectáculo e de Caetano começar a cantar já tarde. Lembro-me do palco, estrategicamente colocado junto ao Mondego. Lembro-me do alinhamento, com algumas músicas novas, que viriam a fazer parte do álbum "Uns", que seria editado nesse ano, e de tantas outras, de vários discos anteriores. Lembro-me de Leãozinho trauteado por uma mar de gente e de Caetano anunciar Geninha Melo e Castro e, juntos, cantarem Argonautas. “Navegar é preciso...” e o meu olhar preso no Mondego e numa Lua Cheia que começava a agigantar-se para os lados da nascente. “Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante....” e a lua cada vez maior. Lembro-me de ouvir os primeiros acordes de Terra e da voz de Caetano sussurrar: “Quando eu me encontrava preso/Na cela de uma cadeia...” e milhares de pessoas iluminadas por uma das mais belas luas cheias que já presenciei. “Terra, Terra/Por mais distante/O errante navegante/quem jamais te esqueceria?”. A apoteose. E o meu rosto coberto de lágrimas. E na minha cabeça o poema de Vinicius
“São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão
Principalmente quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher”
....e andava.
Nunca mais falhei um concerto de Caetano em Portugal.
Logo em 85, no Coliseu, apresentando o extraordinário álbum "Velô", com Amália na primeira fila, aplaudindo, de pé, a sua interpretação de Foi Deus.
Dois anos depois, sozinho em palco, com o violão, durante a tournée de "Totalmente Demais", o seu primeiro disco ao vivo, gravado no Golden Room do Copacabana Palace, onde me apaixonei por Vaca Profana. Depois "Circuladô" e, logo de seguida, "Fina Estampa", onde interpreta Cucurrucucu Paloma, que lhe valeria um convite de Pedro Almodovar. Mas, essa história, vale pena ser ser ouvida pela voz de Caetano que a relatou na entrevista “À moi la liberté” aos Cahiers du Cinéma.
“No Fina Estampa Ao Vivo eu gravei Cucurrucucú Paloma. Isso encantou o Pedro Almodóvar que terminou botando essa gravação num filme dele que se chamava A flor do Meu Segredo, mas o Wong Kar-Wai também usou a mesma gravação sem me pedir permissão no filme Happy Together, na mesma época. Aí o Pedro retirou do filme dele, botou a minha gravação de Tonada de Luna Llena, que é do Fina Estampa de estúdio, e deixou para anos mais tarde botar o Cucurrucucú Paloma em Fala com Ela, mas ele pediu para que eu fizesse aparecendo no filme cantando mesmo. Isso teve uma presença internacional bastante considerável porque o filme fez sucesso e o Pedro é muito louvado, justamente. Muita gente se ligou em mim por causa de eu ter cantado esse Cucurrucucú Paloma no filme de Pedro." Palavras para quê?...
No início do século, Caetano voltou ao Coliseu para apresentar "Prenda Minha", sentado em palco, óculos na ponta do nariz, com o livro Verdade Tropical, que acabara de editar, no colo, lendo com uma dicção perfeita, pausada , “Caetano, venha ver aquele preto que você gosta” e na minha cabeça a imagem de Dona Canô a cantar Último Desejo de Noel Rosa no filme Cinema Falado que Caetano realizara em 1986.
Tudo isto antes da concretização de um sonho. Aterrar em Salvador e viajar pelo Recôncavo Baiano até Santo Amaro da Purificação. Sonho antigo, depois de já ter cumprido outro, o de deambular pelo Rio pelas mãos de Vinicius e Drummond, de Garcia-Roza e Rubem Fonseca, de Ruy Castro e Nelson Rodrigues, de Machado de Assis e Lima Barreto. O objectivo era chegar ao número 179 da Rua do Amparo, casa de Dona Canô.
A viagem decorreu numa quase madrugada de domingo, percorrendo uma estrada ladeada de palmeiras, com um céu intensamente azul como pano de fundo. E, quase de repente, chegara. Para grande surpresa, Santo Amaro estava em festa. A praça cheia de gente, numa azáfama de preparativos. Procurei a casa de Dona Canô, mas era impossível abeirar-me. Um manto de baianas vestidas de branco e dourados, carregando vasos com água de cheiro, ocupavam toda a rua da Matriz. Uma espécie de cortejo foi-se formando, ao som das charangas, dirigindo-se para a Igreja de Nossa Senhora da Purificação, edifício típico dos inícios do século XVIII, onde as baianas começaram a lavar a escadaria com a água de cheiro. No final, todos os participantes que quisessem (e eu quis, obviamente), lavavam a cabeça com a água de cheiro sobrante, como forma de purificar o corpo e a mente e pedir protecção para o ano que se inicia. Não podia ser mais Bethânia, lembro-me de pensar.
Era a Lavagem da Purificação, inteirei-me entretanto. Uma tradição secular que ocorre no último Domingo de Janeiro e que se enquadra na Festa da Purificação, uma das maiores a ter lugar em Santo Amaro, todos os anos, entre 24 de Janeiro e 2 de Fevereiro.
Cumprida a parte religiosa, a festa começou. Botequins abertos vendendo espetinhos e cerveja estupidamente gelada, panos coloridos nas janelas, balões brancos pendurados por toda a parte, cadeiras nas ruas, ladeando mesas com toalhas bordadas. Agora já era possível chegar ao número 179 da Rua do Amparo, uma casa térrea de fachada branca e janelas azuis. Monumento histórico, com placa alusiva e um mar de memórias no interior.
Enquanto no coreto se começavam a ouvir os sons de uma marcha de roda, veio-me à memória a imagem de Caetano, Bethânia, Dona Canô, Jaime Allen e Mariene de Castro, sentados nesta mesma rua, cantando: “Tirei a renda da naftalina/Forrei cama, cobri mesa, fiz uma cortina/Varri a casa com vassoura fina/Armei rede na varanda enfeitada com bonina”...
Nessa noite aprendi a dançar samba de roda, o mesmo que Caetano ensinou, com orgulho, ao filho Moreno. Um samba muito diferente do carioca, dançado sempre em roda, e tendo como base o miúdinho, passos muito curtos e num ritmo acelerado, e o rebolado, um movimento circular do quadril. Uma maravilha. Não foi Caetano que me ensinou - e daí, talvez tenha sido.
No próximo Sábado, dia 30 de Maio, é Caetano Veloso que nos visita de novo pela enésima vez. Nem a Inteligência Artificial, supostamente tão infalível, é capaz de nos dizer com exactidão a quantidade de vezes que Caetano veio a Portugal. Temos essa sorte. De gostar de nós, sabendo que gostamos dele. Da doçura desconcertante da sua voz. Da ousadia das suas composições. Da forma como gosta de “sentir a sua língua roçar a língua de Luís de Camões”. Mesmo quando nos descontrói os mitos ou nos inquieta com a lembrança dos erros passados, gostamos dele. É a nossa benção!
No poema The Ballad of Reading Gaol, Oscar Wilde escreveu:”Yet each man kills the thing he loves”. Talvez por isso, por tantas vezes lhe terem decretado a morte musical, para em cada uma dessas vezes provar que estavam enganados, ou melhor, que “não estavam entendendo nada”. Caetano sempre esteve um passo à frente. Na criação do Tropicalismo, na originalidade de "Transa", na liberdade experimental de "Araçá Azul", na genialidade de "Cores Nomes", na carga de intervenção política de "Velô", na beleza pungente de "Caetano", na intensidade poética de "Livro", na ousadia quase juvenil de "Cê".
Caetano já tinha avisado:“Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista/O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece.” Por isso não é de estranhar esta força que faz com que, depois dos 80, esteja mais activo do que nunca, com um registo impressionante de mais de 30 shows, entre os quais os da premiada tournée "Caetano & Bethânia" e os do surpreendente (ou talvez não) Caetano nos Festivais. Pelo meio foi o principal entrevistado de “Cahiers du Cinema” na comemoração dos 130 anos do Cinema, editou “Cine Subaé” onde reúne os seus textos críticos sobre letras e cinema desde os tempos do Jornal “Archote”, e ainda se sentiu impelido a promover Ato Musical 2: o Retorno contra a tentativa de amnistiar os golpistas do 8 de Janeiro de 2023.
Aos 83, vem caetanear entre nós, desta vez para dois espectáculos. Um no Porto, no dia 27 de Maio, na Super Bock Arena. O outro, no dia 30, em Cascais, no Hipódromo Manuel Possolo, enquadrado no Coala Festival, que comemora a sua terceira edição em Portugal e tem crescido, “como uma onda”, como diria Lulu Santos que actua no dia 31.
O Coala não é bem um festival, é um estado de espírito. Uma mescla maravilhosa de cores, nomes, cheiros, modas, idades, todos comungando o gosto comum pela diversidade da nossa língua. Coala é , como diria Caetano, o festival dos Uns...
Uns mãos
Uns cabeça
Uns só coração
Uns amam
Uns andam
Uns avançam
Uns também
Uns cem
Uns sem
Uns vêm
Uns têm
Uns nada têm
Uns mal
Uns bem”
“Uns vão
Uns tão
Uns são
Uns dão
Uns não
Uns hão de
Uns pés
Uns mãos
Uns cabeça
Uns só coração
Uns amam
Uns andam
Uns avançam
Uns também
Uns cem
Uns sem
Uns vêm
Uns têm
Uns nada têm
Uns mal
Uns bem”
Digam lá se não é uma benção!
Adenda: 1981, a nossa primeira vez
Jornal do Brasil, 22 de setembro de 1981 - transcrição da notícia, assinada por Juarez Bahia
"LISBOA — Duas horas antes de seu primeiro show (ele esteve no país, há 10 anos, por pouco tempo, como exilado político) em Portugal (“Isto aqui é lindo, fala a mesma língua da gente, né?”), Caetano Veloso pôde constatar, na porta larga do Coliseu dos Recreios, a tradicional casa de espetáculos da Baixa Lisboeta, o desusado interesse do público pela sua apresentação. Já havia uma longa bicha (fila). Dentro, quando cantou Alegria, Alegria, abrindo a noite que se tornou memorável, sentiu o calor dos aplausos de 6 mil pessoas congregadas num clima frenético, semelhante aos dos frevos do compositor ou, quem sabe, a lembrar o contagiante ambiente dos trios elétricos.
“É formidável, é alucinante. Assim é que eu gosto” — dizia Caetano ao microfone, dando a sua resposta, conversando, dialogando com o público. “É um barato” — gritavam da plateia no melhor sotaque português. “É um barato, muito legal, mesmo” — replicava Caetano. E, um por um, foi desfiando seus velhos e novos sucessos. Até que as pessoas começaram a ensaiar Menino do Rio, o tema da telenovela que se transformou no maior êxito da televisão portuguesa, Água Viva. Então, para Caetano, só restou seguir a cantoria geral. O espetáculo continuou. A Outra Banda da Terra também é aplaudida.
O cantor e compositor brasileiro já domina literalmente o Coliseu dos Recreios. Repete-se nas portas de Santo Antão, nesse mesmo local, o que aconteceu com Chico Buarque, Milton Nascimento e Gal Costa. Com a diferença de que o público trouxe para o Coliseu dos Recreios, na noite de Caetano, toda a energia do calor do final do verão europeu — quase 30 graus de temperatura, o ar condicionado não chega para as 6 mil pessoas, conspira a favor do artista. Depois de Menino do Rio, todas as canções têm o acompanhamento voluntário dos assistentes. “É uma glória”, diz Caetano, e de facto é uma glória esta noite de música popular brasileira. Uma surpresa: Sônia Braga está na plateia.
Caetano Veloso reservou cinco dias para ficar em Portugal. É mais tempo do que outros grandes nomes da MPB deram a este país. E não cometeu o equívoco, por exemplo, de Milton Nascimento, de chegar a Lisboa, ir para o Coliseu e na mesma noite sair correndo para embarcar no avião de volta ao Brasil. Quase que todo o Coliseu ia atrás de Milton Nascimento, pedindo bis. Caetano bisou à vontade e ainda sobrou tempo para um segundo espetáculo, que encerrou a temporada. Houve tempo também para o lançamento de um álbum, A Arte de Caetano, compilação de textos antigos do compositor feita por uma editora discográfica portuguesa.
Uma espécie de Eu Sou Caetano resulta dos contactos, conversas e entrevistas que o cantor e compositor deu em Lisboa, desde a sua chegada quarta-feira. Não deixou no guarda-roupa o seu macacão de flores coloridíssimas nem abandonou por um momento seu violão. E sorriu sempre. — Seu último LP já está à venda em Portugal? — quis saber. E com a resposta afirmativa, concluiu: — Adoro Outras Palavras. Montei meus espetáculos aqui com base nesse LP. As muitas entrevistas derivam para um perfil de Caetano por ele mesmo. Aqui vai o resumo:
— Eu sou um cara sem preocupações. Meu show é bandalho, mesmo. Eu entro e canto. Não tenho roupa fixa nem nada. Só não trouxe foi meu leque de penas que minha mulher Dedé me deu. Era um leque grande, lindo, todo de penas de pavão. Mas roubaram na Bahia. Eu tenho outro pequeno mas não sei se veio na mala. Eu fiquei com muita pena, porque eu gostava de entrar no palco com aquele leque.
— O tropicalismo não foi enterrado nunca, mas acho que ele esfriou mesmo a partir de 68. Foi só uma fase. Porque todo mundo estava criticando determinado tipo de música, eu, o Gil, a Gal e o resto do pessoal resolvemos pegar nela, vê-la de um jeito diferente. Foi bom porque estava todo mundo alucinado com aquele rock do Roberto Carlos.
— Eu gosto de rock and roll, viu? De jazz eu gostava mais quando era adolescente. O jazz me chegou pela bossa nova. O rock português? Não, não conheço nadinha mesmo. O fado, não sei tocar, pois o meu instrumento é o violão.
— Li num jornal português uma biografia toda errada da minha vida. Dizia que eu era um contestatário, um opositor. Eu nunca fui isso. Eu nem gosto de política. Eu não sei pensar politicamente. Só tenho sonhos, ideias. Para mim, por exemplo, o Prefeito de Curitiba é o melhor político do Brasil, mas só porque eu acho Curitiba a melhor cidade do Brasil atualmente. Sei lá, há coisas políticas que me impressionaram, como o Presidente Geisel. O Glauber Rocha fazia muita fé nele e o Glauber foi muito importante para a minha cabeça. A morte dele foi traumática para mim e para todo o Brasil.
— Falar da morte? Eu tenho medo da morte, sim, como todo mundo. Mas não fico pensando nisso, não. Eu vou é muito à praia e brinco com Moreno, meu filho. Talvez porque tenha crescido numa família católica. Minha irmã Bethânia já é toda ligada nesses negócios de religião, o que é natural, porque na Bahia as religiões afro-brasileiras têm um papel muito forte.
— Eu já não pinto. Eu não faço nada. Nem ioga nem macrobiótica. Eu fico em casa tocando violão, vendo novela. Eu adoro novela. Minha preferida foi Dancin’ Days, que era espantosa. E gosto muito da abertura de Água Viva, é linda, linda, linda. É, eu só faço música mesmo, e mal.
— Eu não sei o que penso da heterossexualidade, quanto mais da homossexualidade. Eu não sei nada sobre sexo, é um assunto misterioso.
— Eu tenho uma identificação feminina. Quando eu nasci, já havia 15 mulheres morando na minha casa. Eu cresci, assim, cercado de muitas mulheres. É natural que haja uma identificação.
