Alguns cães conseguem aprender palavras novas apenas a ouvir conversas

CNN , Amarachi Orie
15 fev, 15:00
dogs

dotado, talentoso

comunicação indireta

(Foto acima: Bryn, um Border Collie macho de 11 anos do Reino Unido, reconhece os nomes de cerca de 100 brinquedos. Helen Morgan)

As crianças pequenas conseguem aprender novas palavras apenas ao ouvir conversas. Agora, uma nova investigação sugere que alguns cães mais inteligentes também podem ampliar o seu vocabulário da mesma forma.

De acordo com um estudo publicado na revista Science, crianças a partir dos 18 meses conseguem aprender os nomes de objetos apenas ao ouvir conversas entre outras pessoas. Fazem-no observando o olhar dos interlocutores, captando sinais comunicativos e extraindo palavras-chave das frases.

Investigadores da Universidade Eötvös Loránd (ELTE), na Hungria, quiseram perceber se os cães talentosos na aprendizagem de nomes de brinquedos também seriam capazes de aprender novas palavras a ouvir conversas alheias.

Estes cães dotados foram avaliados e identificados depois de os seus donos, ao verem publicações nas redes sociais ou anúncios, terem contactado os investigadores, por acreditarem que os seus cães conheciam os nomes dos brinquedos.

Para o estudo, os donos de dez cães talentosos começaram por apresentar dois novos brinquedos, atribuindo-lhes nomes e repetindo-os enquanto interagiam diretamente com os seus animais.

Estas interações decorreram em várias sessões de alguns minutos, ao longo de vários dias.

Os investigadores descobriram que, “oito minutos foram suficientes para os cães aprenderem o nome de dois brinquedos novos”, diz à CNN a investigadora cognitiva e treinadora de animais Shany Dror. Sete dos dez cães identificaram e foram buscar de forma consistente os novos brinquedos sempre que os donos lhos pediam.

Dror liderou o estudo ao longo dos últimos anos, inicialmente enquanto concluía o seu doutoramento na ELTE e, posteriormente, como investigadora de pós-doutoramento no Clever Dog Lab da Universidade de Medicina Veterinária de Viena.

Os investigadores repetiram o teste em condições de “escuta passiva” com os mesmos pares de donos e cães. Os donos incluíam o nome do novo brinquedo em frases e iam passando o brinquedo entre si, mas não podiam olhar para os cães nem comunicar com eles, e os cães não podiam interagir com os donos nem tocar no brinquedo.

Para impedir que cada cão tentasse alcançar o brinquedo, os donos sentavam-se à mesa de jantar ou no chão, enquanto o cão permanecia atrás de um portão de segurança para crianças, ou numa cama ou almofada para cães.

Sete dos dez cães conseguiram, mais uma vez, identificar e ir buscar de forma consistente os novos brinquedos após ouvirem os seus nomes — seis deles pertenciam ao grupo que tinha tido um bom desempenho no primeiro teste.

Isto demonstrou que cães dotados “podem aprender os nomes de novos objetos ao ouvir interações, de forma funcionalmente semelhante” às crianças pequenas, afirmaram os investigadores.

Profundidade de compreensão

Interessados em testar se os cães também recorriam a pistas sociais para aprender os nomes de novos objetos, tal como os bebés, os investigadores realizaram um terceiro teste com oito cães, quatro dos quais pertenciam ao grupo original de dez.

Desta vez, os donos mencionavam o nome do brinquedo dentro de frases apenas depois de o colocarem num balde, quando o objeto já se encontrava fora de vista.

Mais uma vez, quando testados, a maioria dos cães identificou corretamente os novos brinquedos — e ainda se lembravam dos nomes duas semanas depois.

“O que concluímos com isto é que os cães são capazes de aprender em condições muito diferentes e fazem-no de forma bastante flexível”, afirma Dror, acrescentando que “isto demonstra a profundidade da compreensão que estes cães têm das nossas interações humanas”.

Shira, uma cadela resgatada de 9 anos, conhece os nomes de mais de 300 brinquedos para cães (Tres Hanley)
Shira, uma cadela resgatada de 9 anos, conhece os nomes de mais de 300 brinquedos para cães (Tres Hanley)

Os resultados sugerem ainda que as complexas capacidades cognitivas e sociais que permitem aos humanos aprender ao ouvir os outros provavelmente “evoluíram antes da linguagem, e é por isso que os cães também conseguem fazê-lo”, acrescenta.

Durante o processo de domesticação, “os cães que melhor comunicavam e compreendiam os humanos eram os que se reproduziam”, indica Dror. “E é isso que vemos hoje: eles são tão bons a interpretar a comunicação humana que alguns cães até conseguem aprender quando não estamos a falar com eles, apenas observando-nos passivamente.”

Cães talentosos vs. cães comuns

Embora estes cães talentosos consigam aprender palavras de várias maneiras, os investigadores alertam que os resultados “não devem ser generalizados a toda a população canina”.

Realizaram, por isso, um teste semelhante de escuta passiva com dez Border Collies que não tinham aprendido previamente nomes de objetos e descobriram que cães domésticos comuns não aprendem novos nomes de brinquedos da mesma forma que os cães dotados.

Dror e a sua equipa têm trabalhado com este grupo de “cães muito especiais que conhecem nomes de brinquedos” ao longo de vários anos.

Conhecidos como Gifted Word Learner (Talentoso Aprendiz de Palavras, na tradução livre), estes cães, segundo estudos anteriores, têm a capacidade de aprender os nomes de brinquedos após os ouvirem apenas quatro vezes, conseguem aprender até 12 brinquedos “ou mais” por semana e lembram-se dos nomes dos brinquedos durante mais de dois anos, segundo Dror.

Embora os investigadores identifiquem “muitos Border Collies” entre estes cães dotados, a capacidade continua a ser “muito rara”, segundo Dror. Outras raças que participaram no estudo incluíam um Pastor-alemão, um Labrador retriever, um Pastor-australiano miniatura, um Blue Heeler australiano e um cruzamento de Pastor-australiano.

Embora seja “interessante” que os cães possuam “capacidades semelhantes às humanas”, os resultados do estudo “não são assim tão surpreendentes, porque não se trata do primeiro estudo nesta área”, diz à CNN Juliane Bräuer, psicóloga e investigadora de pós-doutoramento na Universidade Friedrich Schiller Jena, na Alemanha.

Uma capacidade semelhante de aprender palavras ao ouvir outras pessoas foi documentada em dois bonobos (chimpazé-pigmeu), assim como num papagaio-cinzento – embora, no caso do papagaio, a aprendizagem também tenha envolvido algum ensino direto.

Um estudo de 2025 revelou que cães domésticos conseguem reconhecer palavras de comando como senta e deita em conversas que não lhes são dirigidas. No entanto, apenas os cães dotados demonstraram a capacidade de aprender espontaneamente os nomes dos objetos ao brincar com os seus donos, e a sua capacidade de aprender estas palavras ao ouvir conversas entre outras pessoas não tinha sido testada até agora.

Os investigadores ainda não compreendem exatamente por que razão alguns cães possuem esta capacidade especial. Apesar de os cães dotados conseguirem aprender novas palavras de forma semelhante às crianças pequenas, é provável que fatores diferentes estejam na origem de comportamentos e resultados semelhantes, explica Dror.

“É como comparar uma bicicleta a um carro. Ambos se movem e cumprem a mesma função, mas o que os impulsiona para a frente é muito diferente.”

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