Em todo o mundo, a "chocoflação" está a deixar um sabor amargo nos amantes de chocolate.
Grandes marcas como a Lindt e a Hershey aumentaram os seus preços em percentagens de dois dígitos no ano passado. Esta inflação é impulsionada, em grande parte, pela subida do preço do cacau, que atingiu um máximo histórico em 2024, altura em que as colheitas na África Ocidental, responsável por 80% da produção mundial, sofreram com secas agravadas pelas alterações climáticas.
Desde então, os preços caíram drasticamente, mas continuam muito acima dos valores de há cinco anos e, segundo os especialistas, a volatilidade do mercado veio para ficar. A Prefer, uma startup sediada em Singapura, está a tentar reduzir o peso na carteira dos consumidores, criando cacau em pó sem cacau.
"Muito simplesmente, conseguimos criar sabores e ingredientes de cacau sem as sementes de cacau", explica Jake Berber, que cofundou a empresa de tecnologia alimentar em 2022.
O PreferChoc é produzido através da fermentação e torra de sementes e cereais. O produto pode depois ser utilizado numa variedade de aplicações, desde chocolate para beber até à pastelaria e confeitaria.
Berber espera que os produtos da empresa, que incluem um substituto de café sem grãos de café, outra matéria-prima cujos preços dispararam devido a condições meteorológicas adversas, permitam aos consumidores continuar a desfrutar de alimentos ameaçados pelas alterações climáticas.
O responsável vê como mercado principal o fornecimento a grandes fabricantes de chocolate, com o objetivo de criar produtos onde o PreferChoc seja misturado com cacau em pó tradicional.
"A recetividade tem sido bastante forte, especialmente por parte dos consumidores de massas, para quem o preço é extremamente importante", refere Berber. O fundador garante que, para uma taxa de inclusão do PreferChoc "entre 30 a 50%" em produtos de chocolate híbridos, "não há alteração no sabor".
Berber prevê o lançamento comercial do PreferChoc para 2026. O empresário aponta para o café da empresa, lançado no mercado em 2025 e atualmente disponível em Singapura, no Vietname e nas Filipinas, como prova do potencial para alternativas mais baratas.
"Conseguimos ajudar até as maiores empresas de café do mundo a reduzir o custo do café em cerca de 50%", afirma. "Acreditamos que também podemos ajudar os fabricantes de chocolate a reduzir os seus custos com cacau em pó até 50%."
Benefícios ambientais
O cofundador acrescenta que o PreferChoc acarreta também benefícios de sustentabilidade.
A produção de chocolate preto e de café tem uma grande pegada de carbono. Segundo Berber, uma análise independente do ciclo de vida do café da Prefer demonstrou que a sua produção emite quase nove vezes menos gases equivalentes a dióxido de carbono do que o café tradicional. O responsável espera que o seu chocolate apresente reduções de emissões semelhantes.
Em algumas regiões, a produção de cacau impulsiona também a desflorestação. A investigação mostra que nos maiores produtores mundiais, a Costa do Marfim e o Gana, o cultivo de cacau é responsável por mais de 37% e 13% da perda florestal em áreas protegidas, respetivamente.
Mirte Gosker, diretora-geral para a região Ásia-Pacífico do Good Food Institute (GFI), entidade que promove sistemas alimentares globais sustentáveis, defende que a produção de ingredientes de cacau por fermentação "poderia reduzir alguns dos impactos ambientais do seu cultivo".
A responsável descreve o setor dos alimentos derivados da fermentação como "uma oportunidade enorme para produzir mais alimentos com menos recursos naturais".
"Os biorreatores utilizados para produzir alimentos derivados da fermentação são muito eficientes em termos de espaço", acrescenta. "Quando as instalações são ampliadas, a fermentação pode produzir muitas toneladas de biomassa a cada hora."
Ingredientes "não novos"
Jake Berber afirma não poder revelar os ingredientes utilizados para fazer o PreferChoc enquanto este se mantiver em desenvolvimento, mas explica que são semelhantes aos utilizados no café da marca: arroz e grão-de-bico. Acrescenta ainda que os reguladores consideraram os seus ingredientes como "não novos" (non-novel) e que a empresa ainda não sabe se existem diferenças nutricionais em comparação com o cacau ou o café convencionais.
"Utilizamos produtos básicos do nosso sistema alimentar", diz, referindo-se a "ingredientes que são realmente escaláveis e cuja utilização não alteraria substancialmente o preço ou a disponibilidade".
Outras empresas que produzem alternativas ao chocolate sem sementes de cacau incluem a alemã Planet A Foods, que utiliza sementes de girassol, aveia e outros ingredientes, e a britânica Nukoko, que recorre a favas.
Mirte Gosker destaca o mercado asiático como uma área de oportunidade particular para alimentos alternativos derivados da fermentação, como o PreferChoc.
"Dada a longa história da fermentação tradicional como método de produção em várias cozinhas asiáticas, estamos otimistas de que os consumidores gravitarão em torno de produtos criados através da fermentação, se estes acertarem no sabor, textura, preço e nutrição", sublinha.
"Os centros tecnológicos asiáticos também serviram de plataforma de lançamento para muitos produtos inovadores de edição limitada feitos através da fermentação", diz a responsável, acrescentando que, em 2022, Singapura foi o primeiro país a conceder aprovação regulamentar à Solar Foods. Esta empresa finlandesa alimenta micróbios com dióxido de carbono, hidrogénio e oxigénio para criar proteínas.
No entanto, Gosker alerta para a necessidade "urgente" de mais investimento público e privado no setor, particularmente para financiar a investigação sobre a perceção dos consumidores relativamente a estes alimentos e a infraestrutura de fabrico necessária para os produzir.
"Como nem os ingredientes de fermentação de precisão nem os de biomassa foram implementados em grande escala, ainda não dispomos de dados para mostrar quais os ingredientes ou produtos (se é que existem) que acabarão por despertar um interesse significativo nos consumidores", adverte.
"Em termos de aumento da produção, será necessário um investimento significativamente maior em infraestruturas de fermentação na Ásia-Pacífico", acrescenta. A investigação do GFI mostra que a capacidade existente de biorreatores de fermentação está concentrada predominantemente na Europa (47%) e nos EUA (34%).
A Prefer angariou sete milhões de dólares em investimento privado e público, mas ainda não apresenta lucros. Berber adianta que a empresa pretende angariar mais financiamento este ano para construir uma fábrica e aumentar a produção.
O empresário espera também expandir a atividade para a produção de outros ingredientes que enfrentam perturbações na cadeia de abastecimento, como a baunilha e a avelã.
Berber sublinha que quer trabalhar com a indústria do chocolate e não contra ela. "Os consumidores não estão a pedir uma alternativa ao café ou ao chocolate, estão a queixar-se de que o café e o chocolate estão mais caros", conclui.
"Uma forma de resolvermos esse problema, para que possamos movimentar mais volume e, por sua vez, criar mais impacto, é criar produtos híbridos que tenham o mesmo sabor para o consumidor, mas custem menos."