CRÓNICA CABO VERDE 0 - 0 ARÁBIA SAUDITA || Equipa africana empatou três vezes na fase de grupos do Campeonato do Mundo. Os três pontos foram suficientes para o apuramento às eliminatórias
Os heróis de Cabo Verde mostram porque é que o futebol é o desporto mais amado do mundo. Vozinha, aos 40 anos, tornou-se ídolo multinacional numa estreia que será lembrada para sempre contra a Espanha. Kevin Pina talvez nunca mais consiga caminhar livremente pelas ruas da sua cidade natal após marcar o primeiro golo do país na história dos mundiais.
O plantel pouco prometia quando garantiu a classificação para o Campeonato do Mundo. A presença nos Estados Unidos já foi em si uma vitória que justificaria textos sem fim. Nas eliminatórias para o Mundial 2026, o pequeno país africano estava num grupo difícil com Camarões - que já teve lendas como Milla e Eto’o - e Angola – que também fala português. Ficou em primeiro e carimbou ali o passaporte para a América do Norte.
É normal torcer pelas seleções com menos potencial durante o Mundial, e em contrapartida é comum recebermos puras doses de entretenimento. Mas isso foi pouco para Cabo Verde. Os 180 minutos da fase de grupo entregaram a tensão de uma estreia difícil contra a campeã europeia, a euforia de um empate enérgico com o tradicional (e bicampeão) Uruguai, até chegar às lágrimas de emoção com uma classificação merecida em mais um grupo que tinha tudo para ser complicado.
E isso já é motivo de festa. O resultado nem sempre é o mais importante. A Holanda de 1974 e o Brasil de 82 mostram que é possível perder em campo e ganhar no imaginário coletivo. A Costa Rica de 2014 ou a Gana de 2010 demonstraram que, para equipas menores, não é preciso ganhar uma medalha para fazer história no Mundial e viver para sempre nos corações de quem ama esse desporto com corpo e alma.
E assim os heróis cabo-verdianos saíram da África para entrarem na história. A partida contra a Arábia Saudita pareceu ser apenas uma formalidade. Em campo, todos sabiam o desfecho que teria, independentemente do resultado.
Não importava se ia perder, empatar ou ganhar, Cabo Verde já é um dos campeões deste Mundial. Campeões pela trajetória que arrepia até os adeptos mais insensíveis. Campeões pelos resultados que conseguiu e pela luta constante para pontuar. E campeão por fazer milhões passarem horas e madrugadas a torcer por um pequeno país que até há pouco tempo era desconhecido no futebol internacional.
Em campo, a postura cabo-verdiana era de quem sabia ser vitorioso, mas sem aceitar as conquistas já garantidas. A Arábia Saudita, que venceu a Argentina que viria a ser campeã do mundo em 2022, não se conseguiu impor e via o adversário trabalhar a bola e criar as melhores oportunidades ao longo dos 90 minutos.
Nem sempre as chances foram bem aproveitadas, mas estavam lá e foram suficientes para deixar os sauditas encurralados. Cabo Verde viveu o jogo com a bola nos pés, no taque à frente da área adversária. Passou horas a rondar, passar, chutar. Errou, errou de novo, mas, mais importante, não deu hipóteses de a Arábia Saudita acertar.
Enquanto isso, o Uruguai via-se dominado pela Espanha. A equipa que foi campeã mundial em 30 e 50 já não é a mesma de outros tempos. Já não tem Forlán como o craque, Suárez como artilheiro, ou Cavani como esperança. E isso ficou claro ao longo da competição. Não se conseguiu impor e fez apenas dois pontos, um a menos que os cabo-verdianos.
O final feliz de Cabo Verde não precisa de um troféu ou medalha – muito menos de validação externa, mesmo que os 16 milhões de seguidores que Vozinha ganhou tenham sido incríveis. A beleza está no caminho, que ainda está a ser trilhado. Logo, logo, vai enfrentar a Argentina - quem sabe não consegue eliminar Lionel Messi?
Melhor – Cabo Verde inteiro
É impossível destacar uma figura individual numa vitória coletiva tão relevante. Cabo Verde nunca tinha disputado um Mundial. Hoje, está na fase a eliminar e vai jogar contra a atual campeã do Mundo. Todos os jogadores são um ponto positivo numa bela história que ainda está a ser escrita e que vai muito além do plantel. Cabo Verde como um todo merece destaque: a festa dos adeptos, o apoio durante cada jogo e a emoção com a classificação num grupo com Uruguai e Espanha.
Pior – A pontaria
Apesar de um resultado histórico, a pontaria cabo-verdiana deixou a desejar durante o confronto contra a Arábia Saudita. Com o volume de jogo muito superior ao dos adversários, era esperado que os cabo-verdianos tivessem marcado pelo menos uma vez. Isso, porém, não aconteceu, mesmo com algumas chances claras frente a frente com o guarda-redes saudita.
Surpresa – A eliminação do Uruguai
A grande surpresa não aconteceu nesta partida, mas sim no grupo H. O Uruguai é um dos países com mais história no futebol mundial. No entanto, a história pode encher museus, mas não consegue ampliar o placar, e os uruguaios foram incapazes de fazer o favoritismo transformar-se numa vaga na próxima fase da competição.
