Os transplantes capilares para mulheres estão a aumentar. A sua taxa de sucesso é complexa

CNN , Leah Dolan
3 jan, 16:00
transplantes mulheres

Tudo começou lentamente, com punhados de cabelo a circular pelo ralo do duche. Depois, eventualmente, a culturista britânica Tracy Kiss começou a reparar que conseguia ver o couro cabeludo quando o cabelo estava molhado. “Sempre tive um cabelo muito espesso”, disse Kiss, a partir da sua casa no norte de Londres. “Era um pouco inconveniente ter tanto cabelo.” Mas pouco depois do nascimento dos seus dois filhos, aos 25 anos, Kiss, que tem agora 38, não conseguia acreditar que a sua “enorme cabeleira se tinha tornado num sussurro”.

De manhã, escolher um penteado passou a ser menos uma questão de autoexpressão e mais de disfarce. Kiss prendia frequentemente o cabelo bem junto à cabeça para esconder o enfraquecimento nas têmporas, ou ia alternando entre extensões, perucas e chapéus. “Nas fotografias, eu olhava e pensava: ‘Oh meu Deus. Está a piorar de dia para dia’”, disse. As análises ao sangue mostraram que tinha deficiência de vitaminas como o ferro. Esgotou suplementos capilares, champôs especializados e até injeções de PRP (um procedimento dermatológico em que o seu próprio plasma é injetado de volta nos folículos capilares numa tentativa de estimular o crescimento). “Faz-nos sentir completamente desmoralizadas”, disse Kiss. “Enquanto mulher, sente-se que o cabelo é a nossa coroa. Por isso, quando isso nos é tirado, quase que perdemos a nossa identidade.”

De acordo com especialistas de saúde da Universidade de Harvard, pelo menos um terço das mulheres sofre algum tipo de queda de cabelo ao longo da vida. Embora existam inúmeras causas, a queda de cabelo de padrão feminino, que pode resultar de uma combinação complexa de desequilíbrios hormonais e histórico familiar, também conhecida como alopecia androgenética, é a mais comum, com um estudo a sugerir que afeta cerca de 40% das mulheres nos Estados Unidos até aos 50 anos.

A CNN falou com três mulheres que decidiram tratar a sua queda de cabelo através de cirurgia. Os transplantes capilares são o único procedimento cosmético em que os pacientes do sexo masculino superam significativamente as mulheres, mas o número de mulheres a optar por este tratamento aumentou mais de 16% entre 2021 e 2024, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia de Restauração Capilar (ISHRS).

Kiss tomou contacto pela primeira vez com o procedimento em 2011, depois de pesquisar opções de tratamento para o namorado da altura, que também lidava com a queda de cabelo. Interessada no que um transplante poderia fazer por si, informou-se, mas disse que foi rejeitada por causa do seu género. “Consultei cirurgiões e disseram-me que os transplantes capilares eram apenas para homens”, recordou. “Não estava disponível de todo.”

Foram precisos 11 anos de pesquisa, cerca de 3.400 dólares e um médico disposto a fazê-lo para que finalmente se submetesse à cirurgia. “Inicialmente disseram que não”, contou. “Insisti o suficiente até dizerem que sim.” Em 2022, voou para a Turquia para implantar 2.500 folículos ao longo da linha do cabelo e das têmporas, usando uma técnica comum chamada Extração de Unidades Foliculares (FUE), através da qual conjuntos de folículos capilares são removidos diretamente de uma área dadora designada, normalmente na cabeça. Kiss disse que teve uma recuperação rápida, tendo ido jantar imediatamente após a cirurgia e deixado a medicação para as dores apenas 24 horas depois.

Segundo o cirurgião plástico e especialista em transplantes capilares, Greg Williams, a cirurgia apresenta muitas formas e dimensões. Entre as mulheres que atende estão aquelas que sofrem de alopecia de tração, uma condição por vezes causada por penteados repetidamente apertados que danificam os folículos, e mulheres trans que procuram baixar e “feminizar” a linha do cabelo.

A principal causa de queda de cabelo em mulheres cisgénero, tanto nos EUA como no Reino Unido, é a genética. Ainda assim, Williams afirma que este grupo “muitas vezes não é o mais indicado para transplante”. A condição, explica, pode agravar-se ao longo do tempo se não for estabilizada. “Quando falo com mulheres com queda de cabelo genética feminina sobre fazer um transplante capilar, trata-se de ganhar tempo em vez de ser uma solução duradoura”, disse. Hormonas, gravidez, complicações pós-amamentação, stress, doença e nutrição, múltiplos fatores “afetam muito mais o cabelo feminino” do que o masculino, argumenta Williams. “Não compreendemos a queda de cabelo feminina”, disse.

Ayca Bozok, fotografada em sua casa a 21 de novembro de 2025, tomou a decisão "impulsiva" de fazer um transplante capilar na Turquia depois de lutar com a tarefa diária de aplicar fibras capilares. (Austin Steele/CNN)

Ainda assim, mais mulheres do que nunca estão a procurar o procedimento. Ayca Bozok, de 32 anos, da Alemanha, viajou para a Turquia, onde a mãe nasceu, para receber um transplante capilar FUE ao longo da linha do cabelo e da risca. Recorda-se de o cabelo ter começado a afinar por volta dos 15 anos, quando ainda estava no ensino secundário. “Isso tornava alguns dias piores para mim, de manhã, ao pentear o cabelo”, disse numa videochamada. “Usava muitos lenços tipo bandana para tapar.” Para Bozok, perder o cabelo enquanto estava a formar a sua identidade foi o mais difícil. “Estamos apenas a desenvolver-nos enquanto mulheres”, disse. “Só temos a nossa aparência. Nem sequer temos estatuto académico, não temos trabalho, dinheiro, mais nada.”

Foi diagnosticada com alopecia androgenética ainda adolescente, mas um evento traumático na sua vida fez com que a queda de cabelo de Bozok acelerasse no início dos seus 20 anos. “Perdi o cabelo numa semana”, disse. “Foi uma experiência muito dura para mim, porque antes estava a afinar gradualmente.” Em estado de emergência, Bozok fez um empréstimo de estudante para pagar várias sessões de injeções de PRP e planos nutricionais. Ela acredita que estes tratamentos, juntamente com a redução do stress geral, lhe permitiram recuperar cerca de 60% do cabelo ao fim de alguns anos, mas sentindo-se presa à rotina diária restritiva de fibras capilares (um pó usado para criar a aparência de cabelo mais espesso) e outros métodos de camuflagem, decidiu ainda assim avançar para um transplante em 2024. “Um dia, estava farta. Já não queria usar as fibras”, disse.

Bozok descreve a sua abordagem como “super impulsiva”. Não fez muita pesquisa para encontrar o seu cirurgião, comparar preços ou investigar que tipo de técnica de transplante iria receber. Quando deu por isso, estava a trocar mensagens no WhatsApp com o cirurgião e a enviar fotografias da sua linha do cabelo. Embora Bozok diga que não partilhou especificamente o diagnóstico de alopecia androgenética com o cirurgião, disse que a queda de cabelo genética existia na sua família. A clínica concordou em implantar 3.500 folículos por cerca de 2.900 dólares, embora, devido à sua baixa densidade capilar, os técnicos não tenham conseguido extrair mais de 2.800 folículos no dia da operação. Descreveu uma “dor moderada e suportável” durante oito dias após a cirurgia. Um ano depois, Bozok está satisfeita com os resultados e tem documentado o processo de cicatrização no Instagram e no TikTok, onde alguns dos seus vídeos alcançaram milhares de visualizações. Mas tenta ser realista quanto às expectativas e compreende que, devido ao seu diagnóstico, o transplante pode não durar para sempre. “As pessoas na minha secção de comentários disseram-me que perderam o cabelo transplantado ao fim de dois anos, cinco anos, 10 anos”, disse. “O meu estado de espírito é aproveitar enquanto o tenho.”

Para muitas mulheres que sofrem de queda de cabelo genética, encontrar uma solução pode ser como perseguir um alvo em movimento. A consciencialização em torno da cirurgia de transplante capilar disparou na última década, com a ISHRS a reportar que os procedimentos só na Europa aumentaram 240% entre 2010 e 2021. Mas Williams está preocupado com o facto de novas clínicas de transplante, criadas para responder à procura crescente, estarem a explorar o desespero que acompanha a queda de cabelo de padrão feminino. “Os pacientes com queda de cabelo, homens e mulheres, são psicologicamente muito vulneráveis e fáceis de serem explorados”, disse. “É de partir o coração.”

Sam Evans, uma mulher de 40 anos de Northampton, Inglaterra, acredita que foi mal avaliada para o transplante capilar que recebeu em 2024. Evans começou a notar enfraquecimento e zonas sem cabelo há uma década, mas durante muito tempo ignorou a queda de cabelo devido à vergonha que sentia. “Provavelmente chorei quase todos os dias enquanto me preparava”, disse numa entrevista em vídeo.

Samantha Evans, fotografada em sua casa a 24 de novembro de 2025, fez um transplante capilar em 2024 que não deu certo. Agora, usa perucas todos os dias e recentemente lançou a sua própria marca de perucas chamada "Loss 2 Lace". (Austin Steele/CNN)

Em 2019, Evans consultou um especialista em saúde capilar e do couro cabeludo, também conhecido como tricologista, que a informou que poderia estar a lidar com queda de cabelo de padrão feminino. Após uma ronda sem sucesso de injeções de PRP em 2022, disse que a enfermeira recomendou Evans a uma clínica de transplante capilar em Londres. “Agora olho para trás e, obviamente, gostava de ter feito a minha pesquisa”, disse. “Segui simplesmente a recomendação inicial.” O cirurgião que Evans consultou sabia que ela tinha alopecia androgenética e síndrome do ovário poliquístico (SOP), duas condições que podem causar queda de cabelo imprevisível.

Pagou aproximadamente 8.500 dólares pelo transplante, que demorou mais de 10 horas “excruciantes” a ser concluído. Evans diz também que a anestesia não anulou completamente a dor. “Estive a chorar o tempo todo”, disse, emocionando-se ao recordar. “Foi um dia mesmo, mesmo difícil.”

Nas duas semanas imediatamente após a operação, Evans sentia-se demasiado constrangida com as feridas em cicatrização para sair de casa. “É um lembrete constante cada vez que olhamos ao espelho”, disse. “Não é nada agradável.” Achou a recuperação stressante devido às “muitas regras” que teve de cumprir para dar aos enxertos a melhor hipótese de sucesso, e, como resultado, tinha dificuldades em dormir.

O médico de Evans disse-lhe que provavelmente ela teria de fazer dois ou três transplantes devido ao cabelo fino. “Era evidente que o meu cabelo não era muito denso”, disse. Mas confiou que o procedimento só avançaria se o cirurgião achasse que “os enxertos seriam de boa qualidade”. Agora, Evans acredita que tem um enfraquecimento geral devido à sua condição genética de queda de cabelo, o que significa que não havia nenhuma área do couro cabeludo suficientemente saudável para retirar cabelo e implantar desde o início.

À medida que o seu corpo recuperava do choque da cirurgia, Evans começou a perder ainda mais cabelo. “Se há alguma diferença, o meu cabelo está pior do que estava antes”, disse. Evans afirmou que o cirurgião, embora claro quanto ao facto de haver sempre um risco de falha, garantiu-lhe que a linha do cabelo seria reforçada pelo transplante. Especificamente, saiu da consulta a acreditar que conseguiria usar o cabelo apanhado num rabo de cavalo. “Não consigo fazer isso”, disse. Agora, recorre a perucas todos os dias e até lançou a sua própria marca de perucas. “Pode soar dramático dizer isto, mas as perucas mudaram a minha vida.”

Evans recebeu um transplante em 2024 que não funcionou. (Sam Evans)

Williams acredita que algumas mulheres estão a ser aprovadas para a cirurgia sem receberem um diagnóstico adequado da causa principal da sua queda de cabelo ou estão a ser operadas apesar de não serem boas candidatas. Pensa que, para alguns cirurgiões pouco escrupulosos, pode ser difícil dizer não a um paciente. “Pode-se cortar custos e operar pessoas que sabemos que ficariam melhor se o procedimento fosse adiado até iniciarem medicação para estabilizar a queda de cabelo”, disse.

Defende uma melhor regulamentação e consciencialização pública em torno dos transplantes, que, segundo ele, se situam numa “zona cinzenta” entre o “cirúrgico e o não cirúrgico”, o que significa que não é necessária acreditação ou formação para os realizar. “A cirurgia de transplante capilar é interessante porque é um cruzamento entre cuidados de saúde e gestão de um negócio”, disse Williams. “Na maioria dos casos, está a ser feita em clínicas privadas, à porta fechada”, afirmou. “Ninguém sabe o que se passa lá dentro. Ninguém está a inspecionar.”

Para Kiss, o procedimento permitiu-lhe recuar no tempo. “Nunca sabemos o que temos até o perdermos”, disse. “E a sensação de o recuperar é a segunda oportunidade mais eufórica.” Mas nem todas as mulheres que experienciam queda de cabelo têm a mesma sorte. Bozok diz que o sucesso do seu transplante se tornou agridoce depois de descobrir que os seus vídeos de progresso estavam a ser usados para vender tratamentos para a queda de cabelo sem evidência científica nas redes sociais, sem o seu consentimento. “Fiquei chocada”, disse. “Quando estava a lidar com a queda de cabelo, comprava muitas coisas porque estamos tão desesperadas.” Bozok confrontou aquilo a que chamou negócios “duvidosos”, pedindo que removessem as suas imagens e vídeos das suas páginas. Alguns cumpriram, enquanto outros simplesmente a bloquearam. “A parte triste é que as pessoas vão comprar os produtos porque compram a esperança”, disse.

Williams recomenda que quem procura tratamento para a queda de cabelo receba primeiro um diagnóstico de um especialista e nunca pague um transplante sem falar diretamente com o cirurgião que o irá realizar. “Na primeira consulta, antes de marcar cirurgia, pergunte quem é que vai fazer as incisões na pele”, disse. Os médicos devem também estar associados à ISHRS, que fornece formação educativa, orientações de prática clínica e um código de conduta que os membros devem cumprir.

Para Bozok, Kiss e Evans, partilhar a sua experiência de transplante online proporcionou a cada uma delas uma comunidade e um sistema de apoio, independentemente do sucesso ou insucesso da cirurgia. Milhares de pessoas acompanharam os vídeos de Kiss no YouTube a documentar o seu processo de recuperação, e as mensagens privadas de Bozok no Instagram estão inundadas de pedidos de aconselhamento e tranquilização por parte de outras pacientes. Até mesmo homens entram em contacto com ela, a perguntar como podem ser mais solidários com as mulheres das suas vidas que estão a passar por queda de cabelo. Para Evans, a rede online foi nada menos do que “empoderadora”. 

“Foi aí que percebi que a alopecia androgenética em mulheres é realmente muito, muito comum”, disse. “Todas nos ligamos umas às outras, partilhamos as nossas histórias, apoiamo-nos mutuamente.”

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