Corrupção em Gaia: milhares de euros, quatro relógios e uma mala entregue na casa de banho ao "gorila"

17 mai, 18:00
Câmara Municipal de Gaia (Câmara Municipal de Gaia)

Com dinheiro e relógios, os empresários Elad Dror e Paulo Malafaia terão garantido apoio e ajuda para os seus empreendimentos no município de Gaia. Milhares de euros gastos que podiam valer milhões de euros em lucros. "Adoçaram" o desejo de uns, que tinham "fome", e até terão entregado cem mil euros numa casa de banho

Patrocínio Azevedo, vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, foi detido terça-feira no âmbito da Operação Babel. Em causa estão suspeitas de crimes de corrupção e criminalidade económico-financeira ligados à área da urbanismo. A CNN Portugal teve acesso ao processo, onde estão identificadas todas as ofertas ao autarca detedadas pela investigação. Desde 2019, recebeu, pelo menos, quatro relógios no valor de quase 14 mil euros e mais de 125 mil euros em dinheiro.

São escutas, gravações de voz, gravações de imagem, mensagem trocadas pelo Whatsapp. A investigação levada a cabo pela Polícia Judicária em inquérito-crime titulado pelo Ministério Público – DIAP Regional do Porto reuniu indícios, que foram considerados suficientes para deter Patrocínio Azevedo e mais seis pessoas. O processo conta, até agora, com 12 arguidos.

Segundo a informação a que a CNN Portugal teve acesso, terão sido várias as intervenções de Patrocínio Azevedo para ajudar os empresários Elad Dror, diretor-executivo e fundador do Grupo Fortera, e Paulo Malafaia, sócios em vários projetos, em diferentes municípios. Não só junto de serviços da Câmara, mas também junto de outras entidades.

Os relógios e as entregas em dinheiro

Terá sido com dinheiro e relógios que os empresários Elad Dror e Paulo Malafaia garantiram apoio e ajuda para os seus empreendimentos no município de Gaia. E não só. Milhares de euros gastos que podiam valer milhões de euros em lucros. A investigação reuniu ao longo dos últimos anos indícios de crimes envolvendo o vice-presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia e os dois empresários. "Adoçaram" o desejo de uns, que tinham "fome", e até terão entregado cem mil euros numa casa de banho.

O primeiro relógio terá sido oferecido em dezembro de 2019. João Lopes, um advogado que serviu sempre como intermediário entre os empresários e Patrocínio Azevedo, diz em mensagem a Paulo Malafaia que consegue arranjar um relógio suíço série especial. O empresário pergunta o preço e questiona "se ele gostará". São 3100 e gostará "de certeza", responde João Lopes, a quem Malafaia se referia várias vezes como "Gorila". Os empresários, por esta altura, já tinham vários projetos em andamento em Gaia, mas esta oferta estará ligada ao empreendimento Hills.

Um ano depois, mais dia menos dia, novo relógio, devido aos vestígios arqueológicos descobertos num lote da Quinta de santo António, onde estava previsto o empreendimento Riverside. O valor pago rondou os três mil euros.

E, desta vez, não se ficou por uma prenda. No dia 26 de janeiro de 2021, nas instalações do grupo Fortera, fundado por Elad, entregam, segundo a investigação, 25 mil euros em dinheiro a João Lopes para os fazer chegar ao vice-presidente da autarquia de Gaia. Além de ser preciso resolver a questão dos vestígios arqueológicos (descoberto no lote 7 da Quinta), os empresários não queriam perder capacidade construtiva no projeto e era preciso aumentar a área de construção nos lotes onde não havia esse problema.

Pouco tempo depois, em abril de 2021, é o advogado que procura Paulo Malafaia, expressando que era preciso uma tranche "como prova de confiança" e resolver a questão dos metros quadrados disponíveis para construção. Malafaia avisa Elad que é preciso uma transferência de 12 mil euros para a família e 25 mil para João Lopes. Fica por saber se estes valores chegaram ou não a ser entregues.

Mas o pagamento mais elevado terá acontecido a 23 de junho de 2021. Num encontro, Elad Drod entrega uma bolsa a Paulo Malafaia com 100 mil euros num café. Malafaia encontra-se depois com João Lopes num centro comercial no Porto, onde compram uma nova mala. E é na casa de banho do centro comercial que passam o dinheiro. No entanto, na mala ficaram apenas 99600 euros, já que o advogado intermediário comprou um equipamento de som no valor de 400 euros logo em seguida.

Já no dia 22 de novembro, Paulo Malafaia pede ao intermediário que envie fotos, por mensagem, de relógios. No dia seguinte, diz-lhe para comprar um que depois transfere o dinheiro. A módica quantia de 3320 euros. Terá sido entregue num almoço que aconteceu a 17 de dezembro.

Ainda em dezembro de 2021, há registo de mais uma quantia em dinheiro, para ser entregue a Patrocínio Azevedo, que a investigação não terá conseguido apurar o valor. 

E porque os projetos continuam a entrar na Câmara de Gaia e era preciso garantir disponibilidade para decidir favoravelmente nos interesses do grupo Fortera, mais um relógio, da marca Oris, foi entregue em dezembro de 2022.

Nas muitas conversas escutadas, gravadas e até nas mensagens trocadas, as expressões "calma", "está a tratar", "fez tudo para os beneficiar", "preciso de adoçar a boca", "foi o próprio vice que falou na questão", "até o problema do Metro foi resolvido", "Pode ir tratando do resto. Há fome. Por ele e para ontem". "o vice está comprometido com isto", "está pessoalmente a resolver", não parecem deixar dúvidas às autoridades do que se passou entre estes quatro arguidos. Feitas as contas, são quase 14 mil euros em relógios e, pelo menos, 125 mil euros pagos em dinheiro. 

Quem são os outros arguidos?

As buscas da Polícia Judiciária terminaram com sete pessoas detidas e 12 constituídas arguidas, mas a investigação vai continuar e poderá haver novos desenvolvimentos. Foram realizadas mais de 55 buscas, domiciliárias e não domiciliárias, e estiveram 130 homens no terreno. Em causa "interesses imobiliários de 300 milhões de euros", valor relacionado com os empreendimentos de Elad Drod e Paulo Malafaia.

Ainda na terça-feira, a Polícia Judiciária identificou os sete detidos como:

- "Um titular de cargo político", o vice-presidente da câmara de Gaia, Patrocínio Azevedo;

- "Dois funcionários de serviços autárquicos" da Câmara do Porto;

- "Um funcionário de Direção Regional de Cultura do Norte";

- "Dois empresários" na área de projetos imobiliários. Elad Dror diretor-executivo e fundador do Grupo Fortera é um desses empresários; o outro empresário é Paulo Malafaia, promotor imobiliário e parceiro comercial que já tinha sido detido no âmbito da Operação Vortex (ao abrigo da qual o ex-presidente da Câmara de Espinho Miguel Reis se encontra em prisão preventiva);

- "Um profissional liberal"

Em relação ao funcionário de Direção Regional de Cultura do Norte, segundo o processo, a que a CNN Portugal teve acesso, o técnico superior deste organismo terá sido corrompido a troco de contrapartidas financeiras no licenciamento de projetos como o Convento do Carmo, em Braga, que queriam reconverter num hotel, e nos projetos "Molhe" e "Casa Azul", no Porto. 

Em Braga, a Fortera queria comprar o Convento do Carmo e transformá-lo num hotel de 4 estrelas, com 70 quartos, um investimento que anunciou ser de 10 milhões de euros. Terá contado com o apoio deste funcionário que em contrapartida terá pedido 110 mil euros para elaborar também o projeto de arquitetura, algo que não podia fazer, e garantir aprovações. Todavia, os promotores imobiliários terão conseguido baixar o valor para 80 mil euros. 

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