Exclusivo: "Deixaram-me pouquíssimo dinheiro no banco". Burlas custaram mais de 65 milhões aos portugueses em 2024

5 dez 2025, 21:00

Dos esquemas online aos falsos funcionários, o crime reinventa-se todos os dias

As burlas continuam entre os crimes que mais impacto financeiro têm no país. Só em 2024, os portugueses perderam 65 milhões de euros, segundo dados da PSP. Uma redução face aos 110 milhões de 2023, mas ainda “um valor muito elevado”, sublinha o porta-voz daquela polícia, Sérgio Soares.

Apesar da ligeira descida global, alguns esquemas estão a crescer e as vítimas não param de aumentar. Entre elas está um arquiteto de 71 anos que perdeu mais de 47 mil euros para um esquema de investimentos fictícios.

A burla começou com um artigo online manipulado. “Acrescentaram dois ou três parágrafos em que uma figura pública dizia que ganhava cinco mil euros por dia e foi aí que fui atrás do endereço”, recorda "Manuel".

“Diziam que se arriscava apenas 10% do capital investido. Achei que o dinheiro nunca estaria perdido”, explica.

O falso gestor, que se apresentava como “Daniel”, e foi sempre muito “educado”, convincente, dizia a “Manuel” que ele lhe fazia lembrar o pai e foi ganhando confiança.

Ao ponto de conseguir convencer o arquiteto a instalar o AnyDesk no seu computador, um programa de acesso remoto, com a desculpa de que lhe iriam facilitar as operações.

 “Ficamos ali de boca aberta a olhar para o rato a mexer e ele a entrar no meu e-mail”, relata. Quando percebeu o que estava acontecer, já tinha perdido praticamente tudo. “Eles deixaram-me pouquíssimo dinheiro no banco. Fiquei sem nada”, conta, sublinhando que com esse programa conseguiram aceder às suas contas bancárias e fazer transferências.

O porta-voz da PSP, Sérgio Soares, confirma que estes esquemas estão a evoluir muito rapidamente. “Os burlões inventam todos os dias novos métodos”, afirma.

 A resposta policial tenta acompanhar o fenómeno, mas a sofisticação crescente torna tudo mais difícil: “As polícias e a justiça têm de andar um pouco atrás deste tipo de redes criminosas”, diz.

 Os números oficiais da PSP confirmam a dimensão do problema. As burlas continuam “a representar uma fatia enorme dos crimes contra o património, que constituem mais de metade da criminalidade nacional”. Embora algumas modalidades tecnológicas, como MBWay ou “Olá Pai/Mãe”, tenham diminuído, “outras práticas presenciais, como o falso acidente e o falso familiar, registam aumentos expressivos”, segundo Sérgio Soares.

Outro caso é o de Manuel Cândido Escaleira, proprietário de um supermercado, apanhado por um esquema de falso funcionário da EDP. “Acreditei de boa-fé”, recorda.

Convenceu-se de que iria receber um crédito antigo da operadora de eletricidade e fez várias transferências no multibanco. “Quando julguei que estava a validar o meu crédito estava a pagar”, relata, sublinhando que perdeu “mais de 13 mil euros em poucos minutos”.

 A dimensão desta rede foi mais tarde confirmada em tribunal. As sentenças dos tribunais de primeira instância e da Relação concluíram que o esquema atuou durante meses em vários distritos, enganando mais de uma centena de comerciantes através de chamadas em que os burlões se faziam passar por funcionários da EDP e orientavam as vítimas a realizar transferências no multibanco.

No total, o grupo causou prejuízos próximos dos 700 mil euros, valor declarado perdido a favor do Estado, após a confirmação judicial de crimes de burla qualificada, burla informática, falsidade informática, acesso ilegítimo e branqueamento de capitais. Os dois cabecilhas da rede acabaram condenados a penas de prisão superiores a sete anos.

Do lado das plataformas digitais, o alerta é idêntico. “Registámos um aumento de cerca de 26% nas reclamações por burla”, afirmou Pedro Lourenço, do Portal da Queixa.

As vítimas são cada vez mais diversificadas. “Mesmo com literacia digital, as pessoas caem no engano”, sublinhou, acrescentando que “a complexidade dos novos esquemas torna a fraude difícil de detetar”.

“Há uma mutação constante, tecnológica e de engenharia social que torna  difícil perceber se estamos à frente ou atrás dos criminosos.” Pedro Lourenço avisa para um novo risco: “A inteligência artificial está a ser usada para replicar figuras públicas, vozes e vídeos. Alguém que não esteja atento será certamente uma vítima.”

Para o advogado Rui Pinto Gonçalves, que acompanha vítimas deste tipo de crime, o fenómeno já vai muito além da falta de informação. “A burla atualmente, por via da informação que todos nós temos, deveria ser algo para o qual devíamos estar preparados. Mas o que mudou foi a diversificação da burla, nomeadamente através da burla informática”, afirma, acrescentando que, “o apelo ao lucro fácil é um terreno fértil”.

 “Há uma vontade de enriquecimento rápido e fácil”, sustenta.

Os números, diz, são “assustadores”, mas estão subavaliados: “Tenho a certeza que o número de vítimas maior. Nem todas fazem queixa por vergonha. Ninguém gosta de ser enganado.”

A vergonha, aliás, é uma constante. O arquiteto confessou que quase ninguém sabe o que lhe aconteceu: “É embaraçoso. Quando percebi já era tarde demais para voltar atrás. Não percebo como é que caí nisto.”

A PSP reforça que a prevenção é a melhor arma: mais atenção, mais literacia digital, mais desconfiança perante negócios fáceis ou contactos inesperados. Porque, apesar da descida global, o crime continua a adaptar-se mais depressa do que as vítimas conseguem proteger-se — e os números mostram que qualquer pessoa pode ser a próxima.

Crime e Justiça

Mais Crime e Justiça